06/06/2026

“Futebol pode ser mediador das relações afetivas”, diz diretor de documentário sobre SPFC

Enquanto estava fazendo o documentário Soberano – Seis Vezes São Paulo, que mostra sob o ponto de vista de torcedores e jogadores os seis títulos nacionais do time paulista, o premiado documentarista Carlos Nader percebeu um ponto bastante forte na maioria dos depoimentos. “O amor pelo São Paulo é um elo, algo que passa de pai para filho. O futebol acaba sendo um mediador de relações afetivas e familiares. Até aqueles pais que são turrões e mal conversam com os filhos, podem sair dando abraços com uma vitória, ou chorar numa derrota”, disse ao Cineweb.

Em Soberano – Seis Vezes São Paulo, que estreia nessa sexta em todo país, Nader (Pan-Cinema Permanente) divide a direção e roteiro com Maurício Arruda, roteirista do curta ‘Uma história de Futebol”, que foi indicado ao Oscar em 2001. Apesar de todas essas credenciais, o que falou mais alto para serem convidados para o filme foi a paixão pelo time. O próprio Nader confessa: “é um filme apaixonado para torcedor. Não dá para ter isenção. Os documentários que faço são completamente subjetivos, então, dessa vez, pude deixar o lado torcedor aflorar. É preciso ter atenção com a realidade. Tratar com carinho a matéria que a realidade te dá”. E Arruda também não esconde: “Uma das coisas mais legais de fazer o documentário foi a oportunidade de estar próximos dos nossos ídolos do futebol”.

Por isso, o que se vê na tela é uma história de suor, lágrimas e títulos. Soberano – Seis Vezes São Paulo acompanha cada uma das conquistas do time no campeonato brasileiro – em 1977, 1986, 1991, 2006, 2007 e 2008. O filme tem uma estrutura clara, intercalando depoimento de torcedores, jogadores que tiveram destaque no campeonato, e, claro, imagens de gols, muitos gols. “Os torcedores encontramos por meio de uma pesquisa na internet. Eles eram convidados a contar suas histórias. Depois foi feita uma triagem e testes. Mais do que histórias interessantes, precisávamos de pessoas carismáticas, que soubessem como as contar na frente das câmeras”, explica Nader.

Foi colhendo essas histórias que os diretores perceberam o vinculo familiar que unia torcedores. “Todo mundo que a gente entrevistava falava de alguma forma do pai, de como a paixão passou de uma geração para outra”, explica Arruda. Já com as imagens a dupla não teve tanta sorte, e precisou fazer um trabalho de pesquisa bastante árduo. “Sofremos muito para encontrar imagens de alguns gols, especialmente dos campeonatos mais antigos”.

“Soberano – Seis Vezes São Paulo” chega aos cinemas na esteira de documentários sobre times de futebol, Gigante – Como
o Inter Conquistou o mundo
, 23 anos em 7 segundos entre outros. Por curiosidade, quando estava no começo do projeto, Nader foi assistir a uma pré-estreia de Fiel, documentário sobre a passagem do Corinthians pela série B, com produção de Gustavo Ioschpe, que também é responsável por este filme do São Paulo. “As pessoas gritavam durante a sessão. A platéia se transformou em arquibancada de cinema. Esse é o tipo de filme que tem interatividade”. O documentarista, inclusive, acredita que esse seja o futuro do cinema. “Caminhamos para uma experiência audiovisual coletiva. O cinema vai ficar cada vez mais próximo do videogame”.

Arruda, que preferiu não ver nenhum dos documentários sobre outros times, se surpreendeu com a estrutura do SPFC com suas visitas ao CT para gravar depoimentos de jogadores e torcedores. “É incrível a estrutura e organização que o time tem. A gente percebe que é real tudo aquilo que sempre ouvimos falar”. E Nader vai além: “O São Paulo é tem algo como a cidade que lhe empresta o nome. É muito ético, trabalhador, esforçado”, o que vai ao encontro de algo que seu colega também diz. “Os títulos nunca vieram de forma fácil. Sempre foi necessário muita garra e trabalho, esforço coletivo. Como o momento de agora. O São Paulo sempre mostra que é capaz de dar a volta por cima e chegar vitorioso”.

Se o clichê popular reza que o futebol é uma caixinha de surpresas, para Nader, o embate no campo é praticamente ficção. “Um jogo é quase uma fábula, muito mais próximo do sonho, da fantasia do que da realidade. A gente parece se esquecer disso”. A trajetória de tantos times, entre eles especialmente o São Paulo, valida essa idéia do documentarista de que tudo é possível dentro de um campo de futebol.