06/06/2026

Darín: “O Oscar não é uma verdade inquestionável”

Ator argentino vem a São Paulo como convidado da 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos da América do Sul.
por Alysson Oliveira

“Quando falamos em Direitos Humanos, podemos olhar para o passado, ou para o futuro, ou seja, para as crianças e os jovens, e pensar nas novas possibilidades para o mundo. Isso pode gerar reflexão e o cinema contribui para isso”, disse o ator argentino Ricardo Darín, nessa tarde de sexta na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Ele está na cidade como convidado e homenageado pela 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, que começa hoje na cidade e acontece até 19 de dezembro em mais nove capitais do país.

Para ilustrar sua ideia, Darín usa com exemplo seu mais recente trabalho, o ótimo drama Abutres, dirigido por Pablo Trapero (Leonera), que faz parte da programação da Mostra e será lançado em circuito nacional no próximo dia 10 de dezembro. No filme, o ator interpreta um advogado que participa de um esquema de extorsão, envolvendo seguradoras e acidentes de carros. Ele conta que na Argentina o longa teve tanta repercussão que o Congresso debateu o tema, trabalhando agora no trâmite de uma lei para regulamentar a intervenção de seguradoras. “Não tínhamos a pretensão de fazer um filme de denúncia. A meu ver, era uma história de amor entre um advogado e uma paramédica. Mas, que ótimo, que o filme gerou essa mobilização”, comemora.

Desde sua première no Festival de Cannes, em maio passado, Abutres estreou na Argentina e já fez um público de 700 mil expectadores – um número bastante alto para a cinematografia do país, explica Darín. Para ele, o sucesso é fruto da simplicidade como o tema é encarado.”Quando o assunto [de um filme] é importante, não deve ser tratado de forma pesada, reverente. Quanto mais simples for a abordagem, mais fácil de tocar as pessoas. A palavra chave é ‘sensibilidade’. Quando o assunto é Direitos Humanos, devemos tocar a sensibilidade das pessoas”.

Darín confessou ser avesso a badalações e homenagens, mas quando foi convidado pelos realizadores da Mostra não pode recusar. “Temos de fazer todas as ações que possam reforçar os Direitos Humanos no mundo. Se estamos convencidos da importância desse festival é por conta das histórias que tocam nossa sensibilidade”. Além de Abutres, também serão exibidos”, O filho da noiva, XXY e Kamchatka, que trazem o ator em seu elenco, além de longas e curtas de todos os países da América do Sul. Sobre Kamchatka, aliás, ele destaca a sua importância ao abordar o tema da ditadura militar na Argentina de uma forma diferente – sob o ponto de vista de uma criança. “É um enfoque inteligente, que não aponta culpados ou responsáveis, mas discute a questão política de forma intimista, na famílias que foram destruídas, nas pessoas desaparecidas”.

O ator acredita que o tema da ditadura é de extrema relevância para o cinema não só de seu país, mas também de boa parte da América Latina. “Em toda situação em que a liberdade de expressão é censurada por muito tempo, é lógico que quando as portas são abertas isso se tornará um tema bastante comum.” Mas ele aponta também que nos últimos anos, os cineastas tem procurado novos enfoques, novas leituras. “Os realizadores jovens, que eram crianças ou nem tinham nascido na época do golpe, querem também falar de outros temas, ou desse, mas por outros ângulos”.

Filho de um casal de atores, Darín, que completará 54 anos em janeiro, começou a carreira no rádio e já passou pela televisão, Mas foi no teatro e cinema que encontrou o melhor campo de trabalho, sendo hoje um dos atores argentinos mais famoso no mundo, por conta de filmes como Nove Rainhas e o oscarizado O segredo de seus olhos. “Eu sou uma pessoa de muita sorte. Fui convidado para filmes muito bons nos últimos 15 anos. Mas o mais importante não é ser famoso. Já fiz trabalhos excelentes com diretores estreantes”.

Ele confessa que tem, há anos, um projeto para rodar com o brasileiro Walter Salles (“um dia achamos tempo para fazermos juntos”), e gostaria de filmar com Woody Allen (“amigos que trabalharam com ele me contaram sobre a experiência, e não foi tão interessante como eu pensava que era, mas, mesmo assim, gostaria de trabalhar com ele”), mas não com Pedro Almodóvar: “Nós dois somos muito briguentos. Não creio que daria certo essa parceria”, brinca.

Darín além de inteligente,
bom ator e divertido, se mostra muito lúcido. Para ele, o Oscar de melhor filme em língua estrangeira a O segredo de seus olhos ajuda ao filme no nível promocional, mas não atesta em nada a qualidade artística de um trabalho. “Seria hipocrisia eu dizer que não foi importante receber o prêmio, mas não podemos vê-lo como uma verdade inquestionável”.

Já quando o assunto é Hollywood, o ator ironiza e diz que os americanos se dão ao luxo de gastar dinheiro com remakes porque não têm criatividade suficiente para inventar novas histórias. “Há uma crise de ideias e não sabem o que fazer com o dinheiro, por isso compram direitos de refilmagens. Não me ocorre comprar Taxi Driver para refazer”. Ele confessa que existe uma negociação para uma versão norte-americana de Abutres e isso não o agrada. “Com a versão de Nove Rainhas [lançada no Brasil como 171], eles mostraram que não são capazes de fazer uma boa releitura. Há horrores imperdoáveis no filme”.

Além dos filmes em sua homenagem, Darín participará neste sábado (20) de um bate-papo com o público após a sessão de Abutres, às 17h, na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207- SP. Fone: 11 3512-6111). Para mais informações sobre a Mostra e sua programação, consulte www.cinedireitoshumanos.org.br