Mantovani lança romance "difícil de filmar"
Roteirista de "Tropa de Elite" publica romance no qual ficção e realidade se misturam.
- Por Alysson Oliveira
- 08/12/2010
- Tempo de leitura 6 minutos

Alysson Oliveira
Não adianta fazer muitas perguntas a Bráulio Mantovani sobre o seu primeiro romance, “Perácio – Relato Psicótico” (Editora Leya, 224p, R$ 39,90). Ele vai fazer rodeios, tentar falar de outro assunto. Para o autor do roteiro de filmes como Cidade de Deus e os dois Tropa de Elite, escrever o livro talvez tenha sido um exorcismo de um episódio do seu passado – tanto que ele é personagem e autor dentro da narrativa. E quando é perguntado da veracidade dos fatos narrados, ele des
Tentar descobrir o que há de real no meio das coisas que o Bráulio-personagem diz no livro é quase um jogo de caça ao tesouro. Bráulio-autor fornece algumas pistas. Seu parceiro de diversos trabalhos, como a série Telecurso 2000, Eduardo Duó, abandonou a atividade de roteirista e hoje é um conceituado chef. Isso tem a ver com o relato contado no livro, que o amigo conheceu em primeira mão? “Não sei, talvez tenha... talvez não”, disse ao Cineweb. E a tal Olga Haagan, uma suposta amiga do escritor, que sumiu do mapa depois de ouvir certas fitas? Ela existe? A foto de Mantovani na orelha do romance é creditada a ela. “Isso importa?”, novamente desconversa.
O que realmente importa, digamos, é que Mantovani não está muito interessado em elucidar os pontos nebulosos de “Perácio – Relato Psicótico”, e é exatamente aí que está a graça do livro: levantar mais dúvidas do que esclarecimentos. A narrativa é contada a um tal Bráulio Mantoan (este, aliás, o nome verdadeiro de Mantovani) por CFD, paciente num hospício onde supostamente estão ex-agentes do regime militar. Mantoan é um jovem roteirista, convidado por um ambicioso diretor de cinema para um projeto genial. Como ele mesmo conta nas páginas do romance: “Naquela época, não havia dinheiro para pagar os escritores. Considerava-se [...] um privilégio ter a oportunidade de trabalhar sem pagamento nem reconhecimento no projeto de um grande filme”.
CFD conta a Mantoan a história de Perácio, seu colega de trabalho e, atualmente, de instituição, um sujeito que não fala mais nada, mas mede coisas obsessivamente – todos os dias as mesmas – e anota num caderninho. Ele tem 53 deles, um para cada medida. Mantovani também não gosta de falar sobre Perácio. Talvez sejam coisas do passado, que ele prefere não lembrar mais. No romance, além dele e seus amigos Duó e Olga, também participam seu editor Pascoal Soto (que, na contracapa do livro, recomenda “muito cuidado” aos possíveis leitores) e outras figuras – talvez nem todas verdadeiras. “Não tinha como deixá-las de fora. Essas pessoas fazem parte da minha história”, explica o autor.
Ler “Perácio – Relato Psicótico” é um labirinto narrativo, no qual vale a pena se embrenhar – mas sem esperar explicações fáceis ou resoluções rápidas. É um livro que fica com o leitor por muito tempo – apesar da leitura relativamente rápida, quase num fôlego só. O limite entre a ficção e a realidade é muito tênue, e o jogo de palavras e referências, abundantes.
Cinema e literatura
Mantovani até diz umas coisas em off sobre “Perácio – Relato Psicótico”, mas explica que é bom guardar segredo, não publicar, porque pessoas enlouquecem ou somem depois de ouvirem as fitas que estão transcritas e comentadas no livro. Por isso, diz ele, “é bom evitar o assunto”. Mas, quando se trata de cinema, Mantovani se sente mais à vontade para falar – sabe que o tema não causará nenhuma reação colateral.
Um dos nomes mais conhecidos do cinema nacional contemporâneo, Mantovani afirma, sem nenhum sentimento de culpa: “Sou feliz em ser escritor de cinema e não tenho a menor vontade de dirigir um filme”. Ele sabe que um de seus trabalhos Cidade de Deus, além de lhe valer uma indicação ao Oscar, ajudou a chamar a atenção para a classe dos autores de cinema no Brasil. “O Fernando [Meirelles, diretor do longa] sempre deixou muito claro a importância do meu trabalho para o filme”.
Ele explica que, nos últimos tempos, a profissão de roteirista começou a receber o devido reconhecimento e formalização. “Fundamos a Associação dos Autores de Cinema, que visa regulamentar o nosso trabalho, estabelecendo um contrato-padrão, melhoria nas condições [de trabalho], entre outras coisas. Agora, também, para se inscrever em muitos editais é necessário um roteiro pronto. Isso ajudou a transformar a nossa numa profissão de verdade, ao contrário do que era antes no Brasil, quando ao fazer um roteiro era praticamente uma honra poder trabalhar sem pagamento”, diz, parafraseando um trecho de seu romance.
Mantovani acredita que seria bem difícil o levar para o cinema “Perácio – Relato Psicótico”. “Seria necessário um Charlie Kaufman para roteirizar e um David Lynch para dirigir”, brinca. “Citar os dois é uma brincadeira que eu sempre faço, mas, no fundo, é verdade. No livro, há uma confusão entre o que acontece e o que é ficção, se é que algo é inventado nesse romance. Isso tem muito a ver com o cinema deles, cujos trabalho admiro muito”.
Atualmente, Mantovani começa, ao lado de sua mulher, Carolina Kotscho (roteirista de 2 Filhos de Francisco), uma adaptação de O Código da Vida,
livro de memórias do jurista Saulo Ramos. Além disso, divide seu tempo com um filho, de seu primeiro casamento, e releituras de seus livros favoritos, como “Grande sertão: veredas”, “Dom Quixote” e o norte-americano “A confederacy of dunces”, uma comédia que há anos passa de mão em mão nos Estados Unidos e ninguém consegue transformar num filme. “Eu já falei para o meu agente em Hollywood que eu adoraria tentar fazer um roteiro desse romance. É um grande desafio, mas eu gostaria de tentar... Quem sabe um dia”.
livro de memórias do jurista Saulo Ramos. Além disso, divide seu tempo com um filho, de seu primeiro casamento, e releituras de seus livros favoritos, como “Grande sertão: veredas”, “Dom Quixote” e o norte-americano “A confederacy of dunces”, uma comédia que há anos passa de mão em mão nos Estados Unidos e ninguém consegue transformar num filme. “Eu já falei para o meu agente em Hollywood que eu adoraria tentar fazer um roteiro desse romance. É um grande desafio, mas eu gostaria de tentar... Quem sabe um dia”.
Já para os interessados numa carreira de escritor de cinema, Mantovani admite que “dá para pagar as contas só fazendo roteiro”. Mas avisa: “Só se aprende o ofício na prática”. No seu caso, ele explica ter uma espécie de disciplina caótica, mas que funciona. “Dependendo do estágio em que está o roteiro, varia a quantidade de horas que trabalho por dia”. E também conta que não há receita para um bom texto, é preciso escrever e sempre. “Tem mais gente interessada em escrever para cinema. Aliás, tem muita gente fazendo isso, por isso sai muito roteiro ruim. Mas, no meio desses, a gente encontra alguns muito bons”.
