24/07/2026

Fresnot mergulha na solidão feminina em "Desmundo"


Foto de Luiz Vita

O diretor Alain Fresnot, um parisiense de 52 anos, que vive no Brasil desde criança, volta à estrada seis anos depois de seu último filme, a comédia Ed Mort, desta vez com uma densa e forte viagem no tempo, um retrato rústico dos primeiros anos do Descobrimento do Brasil.

Desmundo, inspirado no romance homônimo de Ana Miranda, chega aos cinemas com cerca de 40 cópias, num lançamento da Columbia que aproveita o bom momento vivido pelo cinema brasileiro. Como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Carandiru, de Hector Babenco, o drama de Alain Fresnot também é mais um capítulo da história do país. O filme pode até ser encarado como uma prequel de como tudo começou. Se Meirelles e Babenco exploram a violência do Brasil atual, Fresnot buscou inspiração no passado colonial para contar igualmente uma história de tempos duros, de homens embrutecidos, de relacionamentos humanos dificeis, de luta pela sobrevivência.

Ao contar a chegada ao Brasil, em 1570, de um grupo de jovens órfãs mandadas para a colônia para se casar com portugueses e impedir a miscigenação, o diretor também volta no tempo para lembrar de sua origem de imigrante. "O drama de Oribela, interpretada por Simone Spoladore, imigrante forçada, representa um processo irreversível, uma viagem sem volta. Sendo um imigrante que também fez a vida no Brasil, me identifiquei com ela", afirmou Fresnot.

De origem judaica, Fresnot também se identifica com outro personagem, o cristão-novo Ximeno (Caco Ciocler). "A presença do cristão-novo e do judeu fugido é incontestável na história doBrasil e que com o passar do tempo vai se perdendo", afirmou.

A produção ficou em torno de R$ 4,5 milhões e a maior parte dos custos foi canalizada para a construção da vila cenográfica em Ubatuba, uma réplica de um povoado colonial com casas, igreja e até um engenho de cana-de-açúcar. "Tivemos que fazer tudo, não existia nada que permitisse recriar a vida daquela época."A decisão de colocar os personagens falando português arcaico foi adiada ao máximo mas acabou se impondo para manter a fidelidade à reconstituição da época. "A solução era ousada, mas foi tomada de forma muito natural para que a obra pudesse permanecer íntegra e servir de fonte de pesquisa e referência", explicou. A versão do roteiro para o português arcaico foi feita pelo professor Helder Ferreira, pesquisador e lingüista da Universidade de São Paulo.

Na avaliação do diretor, o fato de o filme ser legendado não deve causar nenhuma estranheza ao público que já está habituado com esse recurso ao assistir filmes estrangeiros. "Também facilita muito o filme ser construído com muito silêncio, com o não-dito".

Simone Spoladore, que interpreta Oribela, classificou a personagem como uma das mais difíceis que já interpretou. "Eu precisei criar um universo íntimo para ela. Oribela vive um processo de solidão e precisa lidar com coisas que não conhece no novo país. Ela precisa se reinventar no novo mundo", explicou.

A personagem, de muita fé, luta o tempo todo para tentar fugir da condição em que se encontra, presa a um homem rude, sofrendo maus tratos. "Para mim o mais difícil foi trabalhar essa força interna da personagem, seu silêncio."

Cineweb-29/5/2003