06/06/2026

“É como se a gente mostrasse a família do Zé Pequeno”, diz diretor de “Bróder”

"Não me venham dizer que é um filme de favela; não é. O tema é a família, as relações familiares”, diz Jeferson De, sobre "Bróder", em entrevista ao Cineweb. O filme estreia quinta-feira.
por Alysson Oliveira

O nome é direto como ele: Jeferson De, jovem diretor cujo primeiro longa Bróder chega às telas de São Paulo, Rio e Campinas nesta quinta-feira. Vindo de uma carreira premiada de curtametragista (Narciso Rap, Carolina e Distraída para a morte), o rapaz que nasceu em Taubaté, é filho de metalúrgico e fez dois anos de filosofia antes de estudar cinema, sabe da importância do seu filme para os moradores de Capão Redondo, onde se passa a história e cenário para as filmagens. “É o lugar de maior efervescência cultural de São Paulo. É o que o Brasil tem de mais novo”, disse em entrevista ao Cineweb.

Ele sabe muito bem sobre o que é seu filme – e sobre o que não é. “Não me venham dizer que é um filme de favela; não é. O tema é a família, as relações familiares”, sustenta. No longa, três amigos se reencontram no Capão para comemorar o aniversário de um deles. Cada um dos rapazes teve um destino diferente: um se mudou para o centro (Silvio Guindane), outro é jogador de futebol na Espanha (Jonathan Haagensen) e o último, Macu (Caio Blat), entrou para o crime para saldar uma dívida.

Ao falar do personagem de Blat, Jeferson faz um paralelo entre o seu filme e Cidade de Deus. “É como se a gente conhecesse a família do Zé Pequeno. Dá a impressão de que bandidos caem do céu, mas não é assim, eles têm uma estrutura”. No centro de Bróder está a família de Macu, cuja mãe é interpretada por Cássia Kiss e o pai, Ailton Graça.

Inicialmente, os três personagens principais seriam negros, mas num dos tratamentos do roteiro – escrito por Jeferson, Newton Cannito e com assessoria do escritor Ferréz nos diálogos – Daniel Filho, que é produtor do filme, sugeriu que um deles fosse branco. “Ele [Daniel] me falou para não ser panfletário, para transformar o meu discurso em drama dentro do filme”.

Para Jeferson, no Brasil vivemos uma época em que o Estado decide quem é negro e quem não é. “Meu problema não é com os lugares onde não posso entrar porque sou negro. É com os governantes decidindo a vida de cada pessoa. [Jair] Bolsonaro é deputado, não pode sair dizendo o que diz sobre negros, homossexuais. Num país sério, ele teria sido expulso da política. Para o Spike Lee é muito fácil, porque nos Estados Unidos está muito claro quem é branco, quem é negro, quem é a favor, quem é contra. Estes usam uma roupa com capuz branco. Aqui, está tudo disfarçado. No filme, eu coloco a questão, mas não tenho que dar respostas”.

Depois de lançar seu primeiro longa, Jeferson acredita que será menos difícil conseguir verba para fazer novos filmes – porque agora tem uma credencial para apresentar. Ideias para roteiros não lhe faltam. “Não me interessa mais discutir a negritude. Acho que agora vou falar da ‘branquitude’. Sou contra achar que as pessoas só podem fazer filmes sobre aquilo que experimentaram. Pobres podem fazer filmes sobre ricos, e vice-versa”.

Em Bróder, Jéferson diz ter como questão central a busca da identidade, e como inspiração o clássico “Macunaíma”, de Mário de Andrade. “O apelido do protagonista [Macu] remete ao livro. O trajeto dele também. No romance, ele é um ‘herói sem nenhum caráter’, mas, aqui, ele tem todos os caráteres dentro de si, o bom e o mau”.

Desde sua estreia no Festival de Berlim de 2010, Bróder já passou por diversos festivais e ganhou prêmios – como o da crítica em Paulínia e melhor filme, direção e ator em Gramado. Mas esta versão que chega aos cinemas é um pouco diferente – tanto na trilha sonora como na montagem. “Tivemos problemas com a canção dos créditos iniciais, que era de Jorge Ben Jor. Quando eu conversei com ele, antes de rodar o filme, ele topou liberar. Depois, a gravadora pediu uma quantia absurda. Fiquei triste, mas por outro lado, quando vi a montagem apenas com o som ambiente, percebi que estava mais próximo do que eu havia imaginado”.

Agora, Jeferson se prepara para ir para Nova York, onde o filme será exibido em julho numa mostra no MoMA. “É uma honra que meu filme passe na cidade de Spike Lee e Martin Scorsese”, comemora o diretor, cuja lista de cineastas favoritos também inclui os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne e o dinamarquês Lars Von Trier.

Foto: Eliane Coster/Divulgação