06/06/2026

Jorge Furtado comanda saborosa alquimia de gêneros em "O Homem que Copiava"

Fotos de Luiz Vita

Roteirista e curta-metragista premiado (seu Ilha das Flores ganhou Urso de Prata em Berlim/90), o gaúcho Jorge Furtado começa a imprimir no longa-metragem a mesma personalidade autoral de seu trabalho anterior. Seu longa de estréia, Era Uma Vez Dois Verões, traduziu um delicioso mergulho na paixão adolescente. O segundo, O Homem que Copiava, segue novamente a pista de personagens jovens, desta vez num registro mais ambivalente, a partir dos sonhos do protagonista, André (Lázaro Ramos), operador de uma máquina de xerox. Nesta entrevista, em São Paulo, o diretor detalhou seu interesse pelo universo da juventude e a mistura de gêneros e tons que confere uma originalidade peculiar ao filme.

Cineweb - Em seus dois longas, você optou por personagens jovens. Você tem a preocupação de escrever para esse público?
Jorge Furtado - Na dramaturgia, há muito poucos personagens jovens. Fui reparar melhor nisso quando meu filho foi fazer teatro e eu só o via fazendo papel de executivo, personagens mais velhos. Também é muito bom desenvolver personagens jovens. A distância te permite ver o quanto a adolescência é divertida.

Cineweb - O que te inspirou a escrever o personagem do André [Lázaro Ramos]?
Furtado - A idéia deflagradora do universo do André para mim foi a fragmentação. Ele é um operador de máquina de xerox que passa os dias lendo trechos de textos, coisas que ele não entende direito. A nossa época também é toda de fragmentação da informação. A gente fica zapeando na TV, na Internet... Por isso tudo, o André é alguém no limite da esquizofrenia.

Cineweb - Como assim?
Furtado - Ele vê tudo dividido, até ele mesmo. É salvo pela paixão pela Sílvia [Leandra Leal]. Eles têm em comum várias coisas, inclusive o desejo de matar o pai: ele, simbolicamente, ela, materialmente.

Cineweb- Até por essas alusões ao crime, você não tem medo de que alguém te cobre por ter feito um filme amoral?
Furtado- Não acredito na arte como uma coisa moralizadora. Personagens cruéis permitem que a gente exercite lados negros, nada mais do que isso. Não há uma relação assim direta entre filmes e o aumento da criminalidade. A criminalidade não vem dos filmes nem da dramaturgia, vem da realidade que a gente vive.

Cineweb- Você considera seus personagens realistas?
Furtado- Eles são representativos da juventude de hoje, sem estudo, sem profissão, despreparada para o mercado de trabalho. Nesses últimos 20 anos, a qualidade da escola pública caiu muito. Ao mesmo tempo, eles estão dentro de uma sociedade de consumo que os estimula a procurar ter tudo. Nesse sentido, são realistas.

Cineweb - Está muito presente a falta de dinheiro e de perspectivas.
Furtado - O dinheiro é um personagem do meu filme. Não sei porquê não se fala muito nisso na dramaturgia, não se fala muito de valores, do quanto é que as pessoas ganham, do quanto custam as coisas. Talvez o medo de que isso fique logo ultrapassado, não sei.

Cineweb - Ao mesmo tempo, o filme também é romântico. Você é romântico?
Furtado - Pode-se dizer que sim. Meus personagens se apaixonam, são amorais, vão à luta em nome dessas paixões. André e Chico [protagonista de Houve Uma Vez Dois Verões, primeiro longa do diretor] são heróis românticos, sem dúvida.

Cineweb- Você escreveu todos os papéis já pensando nesses atores?
Furtado - Todos, exceto o André. Eu testei vários atores antes de escolher o Lázaro. Ele tem uma voz muito boa, uma boa vivência de teatro. A voz era muito importante, porque nos primeiros 40 minutos ele praticamente não tem um diálogo, tem uma longa narração em off. A escolha foi um contato de olhar.

Cineweb- Uma característica bem peculiar do teu filme é a mistura de gêneros. Você passa do drama à comédia o tempo todo.
Furtado- Esta é uma coisa um pouco nova para mim também. Mas essa mistura me interessa, sempre me interessou. Fiz muito isso nos meus curtas, como Ilha das Flores. Mas no longa essa intercalação de tons diferentes era mais radical.

Cineweb - Que tipo de dificuldade isso te criou?
Furtado - Por exemplo, calcular o tempo ideal da montagem paralela daquelas seqüências que mostram a Marinês [Luana Piovani] no motel e a Sílvia no restaurante. Como a história da Sílvia tem um componente mais pesado, preocupei-me em evitar o mau-gosto e deixei para contá-la num momento diferente da do André.

Cineweb- E a utilização do desenho animado? Estava no roteiro ou foi uma idéia que veio depois?
Furtado- Estava no roteiro desde o início. Logo que comecei a delinear o personagem chamei o Allan Sieber para essa parte de animação. O Allan tem um traço tosco, que combinava com os desenhos do personagem, que é um garoto sem estudo. Era uma parte importante por ser a válvula de escape do André.

Cineweb- Você tem no elenco um ator baiano[Lázaro], dois cariocas [Leandra e Pedro] e uma paulista [Luana]. Foi complicado harmonizar o sotaque?
Furtado- Basicamente, foi um trabalho de tirar os erres e esses do Lázaro e da Leandra. O sotaque do Pedro eu até deixei. Mas nos quatro, eu não podia deixar! Tentei fazer tudo fluir naturalmente, para que soasse natural e isso não distraísse o espectador. Vamos ver o que o pessoal vai achar em Porto Alegre.

Cineweb- E o cinema brasileiro, você acha que vive um bom momento?
Furtado- Atualmente, a gente ouve as pessoas dizerem que o cinema brasileiro está melhorando. Isso é muito bom, porque indica que estão sendo superados dois preconceitos que existiam contra o cinema nacional.

Cineweb- Quais eram esses preconceitos?
Furtado - Ou as pessoas diziam que os filmes nacionais eram pornográficos - por causa da pornochanchada - ou eram incompreensíveis, porque na época da ditadura vários deles se tornaram muito alegóricos. Isso tudo foi sendo enfrentado e hoje o cinema brasileiro não é um só, é diversificado. Esse é o lado mais interessante.

Cineweb-13/6/2003