06/06/2026

Piccoli, um cético bem-humorado

O ator francês, protagonista de "Habemus Papam", conversou com Cineweb em Cannes sobre sua atuação no filme dirigido por de Nanni Moretti.
por Neusa Barbosa
de Cannes
Aos 86 anos, com espantosos 226 filmes no currículo – incluindo produções para TV e três em pós-produção (dos franceses Alain Resnais e Léo Carax e da chilena Valeria Sarmiento) -, o incansável ator francês Michel Piccoli é o que se pode chamar, sem exageros, de um intérprete consagrado, desses que não precisam provar mais nada a ninguém.

Não foi bem assim, no entanto, que pensou o diretor italiano Nanni Moretti quando cogitou chamá-lo para o papel de protagonista da comédia dramática Habemus Papam, que concorreu à Palma de Ouro 2011.
Mesmo sendo Piccoli quem é, ator de filmes de Luis Buñuel (O Discreto Charme da Burguesia), Marco Ferreri (A Comilança), Jean-Luc Godard (O Desprezo), Marco Bellocchio (Salto nel vuoto, pelo qual ganhou o troféu de melhor ator em Cannes) e Manoel de Oliveira (Belle Toujours), foi convidado por Moretti para um teste. Nada que incomodasse esse afável monstro sagrado do cinema francês, com quem o Cineweb conversou em Cannes.

Piccoli contou que não levou a mal a proposição de Moretti – de cujos filmes gosta muito. “Tenho certeza de que muitos colegas meus teriam ficado furiosos e até reclamado nos jornais. Mas eu fiquei muito contente de reaver este prazer de ser aceito por um homem de cinema excepcional. Isto me rejuvenesceu. Acho muito normal fazer um teste mesmo com um ator célebre, para ver se ele é certo para um determinado papel”.

Vindo de família católica, Piccoli admite que não é religioso. Nem acha esse detalhe fundamental à composição do papel do papa. “Não é absolutamente importante ser religioso para interpretar o Papa, como não é absolutamente necessário ter matado alguém para interpretar um assassino, nem é necessário trair a mulher para fazer o papel de um adúltero”, ironiza.

Ainda assim, o ator confessa-se “muito curioso em relação às religiões, porque elas sempre foram eventos de importância gigantesca. Muitos homens de fé foram também guerreiros extraordinários. Os católicos, por exemplo, fizeram muitas guerras”.

O fato de que interpreta um papa em crise, fugindo até de sua própria nomeação, para ele, não deve ser encarado como anticlerical. Por isso, ele acha que o filme não deverá ser mal recebido na comunidade cristã. “Penso que os católicos compreenderão a desesperança de um homem da Igreja, um religioso saudado como novo papa e sente que não está apto à responsabilidade. Sem dúvida, sofre de uma grande fadiga pessoal e tem uma grande sinceridade consigo mesmo. Este me parece um homem capaz de ser papa, um homem cristão, um devoto”.

Esse medo que caracteriza o personagem, a seu ver, “é uma dor”. Piccoli amplia sua explicação: “Sua primeira reação ao ser nomeado é um grito de louco. Ele grita, é tudo que pode dizer. A recusa, para esse homem, é uma dor fantástica. E por todo o filme ele a carregará. Além disso, ele escondia uma outra. Quando o psicanalista lhe pergunta o que faz, ele responde: ‘Ator’. Por que? Porque sua esperança era ter uma grande vida sendo ator e ele não conseguiu. Acho muito apaixonante, muito corajoso para um homem velho exprimir estas duas dores fantásticas”.

Quanto ao outro mote da história, a psicanálise, o ator afirma: “Nunca tive nada a ver com isso, nenhuma experiência direta, nunca senti necessidade. Acho que é muito perigosa. Já ajudou muitas pessoas a reviver, a não se suicidar. Penso que isso salvou vidas, mas não salva a existência”.

Homem preocupado com os problemas contemporâneos, como a crise econômica que abala a Europa, o ator conta que lê muitos jornais, mas nada disso o esclarece. “Eu tento compreender. Gosto de ler os artigos dos especialistas econômicos sobre como superar essa grande crise. E toda essa gente que leio, que é altamente especializada, analisa tudo e eu, talvez por não ter ido suficientemente à escola (risos), não entendo uma
única palavra. Vocês entendem? Eu não. É terrível isso. Acho que essa crise econômica é mais perversa do que a última guerra, porque muita gente vai sofrer tanto que vai morrer”.

Ele não é tampouco otimista em relação aos progressos técnicos do cinema, como a atual febre pelo 3D. “Há cada vez mais máquinas fotográficas, meios de comunicação extraordinários e também meios de fazer um filme, ainda que sem película. É bom ou mau? É assim. Essas coisas nos ajudam a viver mas não acho que haja aí nenhuma revolução. Não sou um retrógrado, nem acho que o passado era melhor. O que é melhor no mundo hoje? É o celular, os mecanismos eletrônicos para ler um livro. Ajudam a viver, mas não impedem as guerras. Vivemos num mundo ferrado e que nunca andou bem. No mundo que conheci, das guerras coloniais, tínhamos vergonha de sermos franceses, durante a guerra da Argélia. Eu tinha vergonha. Nada tenho contra os chineses, mas não serão eles os salvadores do mundo. Apesar de sua inteligência, competência e seu comunismo declinante. O que devemos fazer então? Não sei, eu mesmo não estou fazendo nada”.

Se há algo sobre o que não tem dúvidas, no entanto, é sobre a profissão que escolheu, há 66 anos. “É mais uma paixão que uma pretensão. Posso ter me enganado, com certeza, mas jamais tive dúvidas quanto a isso”.