06/06/2026

“O Brasil não respeita o Brasil”, afirma Claudio Assis, diretor de “Febre do Rato”

"O cinema no Brasil é cruel com o realizador. Meu filme está esperando há um ano para entrar em circuito, e deve estrear com umas três ou quatro cópias." Leia entrevista de Claudio Assis ao Cineweb.

por Alysson Oliveira

Entrevistar Claudio Assis é sempre uma combinação entre aventura e diversão. Aventura porque nunca se sabe o que ele vai falar – mas, invariavelmente, não vai realmente responder à pergunta – e diversão porque ele sabe ser provocador, instigador e, até, engraçado com seu jeito desbocado. Em seu discurso, sempre há muito de interessante e, especialmente, sincero sobre o cinema, a arte, a política, o Brasil...

Fazer cinema no Brasil

“Sou um privilegiado em ter ganhado tantos prêmios no Festival de Paulínia do ano passado. O cinema no Brasil é cruel com o realizador. Meu filme está esperando há um ano para entrar em circuito, e deve estrear com umas três ou quatro cópias. O Brasil não respeita o Brasil.”

Sobre “Febre do Rato”

Febre é cinema de atitude. Fazer um filme é uma decisão coletiva. O cinema é a arte do coletivo. Eu acho que o ator é o mais importante porque ele coloca a cara, o corpo na tela. Por isso discuto muito com eles o que vamos fazer. Às vezes, ficamos anos planejando um filme. No caso deste, eu conversava sobre ele com Matheus [Nachtergaele], desde quando fazíamos Amarelo Manga [há quase 10 anos].”

O ofício de cineasta

“Godard é jovem porque ele persegue ser jovem. Tanto jovenzinho mais novo do que ele fazendo filme ultrapassado. Quem é cineasta é cineasta, tem atitude. A cultura está aí para desarrumar o mundo. O ser humano é movido por empurrões. O cineasta tem que cutucar mesmo”.

“Minha luta é uma luta necessária. Não gosto do cinema de assepsia, tudo arrumadinho. Cinema tem que ter cheiro. As pessoas amam, fazem sexo, ficam nuas... porque o cinema tem de fingir que o mundo não é assim? Pra que disfarçar? Eu estou cansado desse cineminha de triângulo amoroso cheio de moralismo pra vender pipoca no shopping”.

Fazer um filme infantil

“As crianças têm uma verdade que te pegam na traição. É preciso ficar esperto porque elas são muito inteligentes e te enganam, elas têm uma liberdade. O adulto é todo cheio de amarras. É difícil fazer um filme para crianças, é um desafio que eu e Paulo Lins [autor do romance Cidade de Deus, e roteiros de cinema, como Maré – Nossa história de amor] aceitamos”.

Cancelamento do Festival de Paulínia

“Se quer ganhar voto tem que ser sincero. O prefeito acabou com o Festival para ganhar voto. Então, onde está o que ele fez com o dinheiro do Festival? Quando você trai o outro, trai a si próprio.”

Política

“Cinema tem que ser dado às pessoas. Educação tem que estar acima de tudo. Temos que entender quem somos, de onde viemos. Se colocarem uma orquestra sinfônica para tocar na Praça da Sé vão parar centenas de pessoas para ver, apreciar. Não tem nada disso de precisar ter formação, ser esnobe para gostar de arte. É preciso dar acesso à arte.”