Fernando Meirelles: “Não quero trabalhar em Hollywood”
Dez anos depois de "Cidade de Deus", o diretor está numa posição privilegiada e pode dar-se ao luxo de escolher os filmes que quer fazer: “Não quero trabalhar em Hollywood. É uma engrenagem, e o diretor é só mais um funcionário que obedece ordens”. Nesta sexta estreia seu novo filme, "360", com elenco internacional e brasileiro.
- Por Alysson Oliveira
- 16/08/2012
- Tempo de leitura 5 minutos


por Alysson Oliveira
Exatos dez anos depois de Cidade de Deus, Fernando Meirelles (nas fotos com Anthony Hopkins) está numa posição privilegiada no cenário do cinema mundial. Ele pode dar-se ao luxo de escolher os filmes que quer fazer – e esnobar o que ou quem bem entender. Tudo por conta de um comprometimento: “Não quero trabalhar em Hollywood. É uma engrenagem, e o diretor é só mais um funcionário que obedece ordens”. Nos três filmes que fez fora do Brasil – O Jardineiro Fiel, Ensaio sobre a Cegueira e o recente 360 -, o cineasta teve chance de imprimir uma visão pessoal às histórias.
Ainda sobre filmar em Hollywoood, ele diz: “Eu recebo roteiros que meu agente me manda semanalmente. Não vou dizer que não fico tentado. Mas, quando coloco na balança, ainda acho que não vale o esforço”. Ainda assim, o brasileiro não descarta a possibilidade de trabalhar com o comediante norte-americano Adam Sandler no futuro. “É uma história que ele quer produzir. Um filme pequeno, com poucos personagens, sobre o 17º homem mais gordo do mundo, que vive preso a uma cama e, quando a mãe morre, ele precisa se virar”. Fernando disse já ter conversado com Sandler, e pediu para o ator – que também irá produzir o longa – esperar mais uns dois anos, para o projeto amadurecer.
Nesse período, o diretor deverá fazer, entre outros, uma cinebiografia do armador grego Aristóteles Onassis. A produção será oficialmente anunciada no Festival de Toronto, nas próximas semanas. “Será um filme polêmico. Acho até que meu visto para os EUA será cassado”, ironiza, enquanto participa da divulgação de seu novo filme, 360, estreando no Brasil em 17 de agosto.
Para esse longa, Fernando foi convidado pelo produtor internacional – com quem já havia trabalhado em O Jardineiro Fiel. “Não só a história me interessou, mas também poder filmar um roteiro de Peter Morgan (A Rainha) pesou na decisão”. Para montar sua equipe, o diretor levou brasileiros, como o diretor de fotografia Adriano Goldman (Xingu), o montador Daniel Rezende e os atores Maria Flor e Juliano Cazarré. “Por incrível que pareça, os personagens eram mesmo brasileiros mesmo antes da minha entrada. Depois, me pediram sugestões e indiquei os dois com quem eu trabalhara na série Som & Fúria”.
360 é um pouco um objeto estranho na carreira do diretor, que diz ter gostado, mas não quer repetir a experiência de dirigir filmes com tantos personagens. “Eu fico com a impressão de que as tramas acabam se tornando superficiais, que não nos aprofundamos em nada. Eu sempre acho que cada história renderia um outro filme”. O cineasta também acredita que esse filme seja mais modesto em sua filmografia. “Não é um filme de grande porte, acho que tem seu público. Creio que chegando aos 300 mil espectadores é uma marca boa”.
Quando o assunto é a distribuição e programação de salas de cinema, Fernando ainda se vale de sua experiência com Xingu, que produziu e ficou bem abaixo do esperado – embora ainda vá render uma série de televisão. “Num jantar em Gramado, conversei com programadores, e percebi que são pessoas que se limitam a olhar tabelas, números e só isso. Não há qualquer sensibilidade envolvida, gosto por cinema, é só aquilo que está no papel. A gente trabalha anos em um filme para depois se resumir a isso: uma tabela nas mãos de quem só olha os números”.
Um pouco por conta disso, Fernando confirma que desistiu de sua adaptação de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um sonho que nutre há 25 anos. “As pessoas não querem ver esse Brasil na tela. E é um filme caro, precisaria de muito investimento, e não acho certo usar dinheiro público para fazer um filme que será visto por meia dúzia de pessoas”. Ainda assim, o diretor confessa que gostaria de ter Wagner Moura ou João Miguel no papel do jagunço Riobaldo. Para a misteriosa Diadorim – mulher que se veste de homem para uma vingança – o cineasta explica que faria um truque: “Colocaria um ator desconhecido e não contaria para ninguém que é um homem fazendo o papel. Só no final, quando ela se revela mulher, teria uma atriz. Essa era minha ideia. Agora que não vai acontecer mesmo, posso contar a surpresa”.
Em se tratando de adaptações, o sonho recente do diretor é trabalhar com o livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Os direitos de adaptação são de sua produtora, a O2, mas o Fernando admite que não pretende dirigir. “É um livro lindo e gigantesco. Acredito que seria mais bem adaptado como uma minissérie, mas ainda assim, cada capítulo sairia bem caro. E nenhum canal aberto ou por assinatura se interessou por esse trabalho.” O romance, de quase mil páginas segue a trajetória de uma mulher trazida da África para ser escrava no Brasil. “É uma história necessária. Aquilo que a gente não aprende na escola, é preciso mostrar isso para nós brasileiros”.
