06/06/2026

Ator de “Cartas de Iwo Jima”, Tsuyoshi Ihara elogia calor do diretor Vicente Amorim

O ator japonês (na foto com Vicente Amorim e a atriz Takako Tokiwa), que trabalhou com Clint Eastwood, revela em entrevista ao Cineweb como foi trabalhar sob o comando do diretor brasileiro em "Corações sujos".
Ator desde os 20 anos, o japonês Tsuyoshi Ihara, nascido em 1963, tornou-se um rosto conhecido internacionalmente ao estrelar Cartas de Iwo Jima (2006), drama de guerra do norte-americano Clint Eastwood sobre um episódio dramático da derrota japonesa na II Guerra. Atuando ali como o aristocrático tenente-coronel Nishi, um barão e medalhista olímpico em hipismo que se torna um dos soldados nipônicos que lutam até o fim na cercada ilha japonesa, Ihara pode provar seus dotes no manejo da espada também no drama de época 13 Assassinos, do veterano diretor Takashi Miike – em que interpretou um intrépido espadachim, Hirayama.

A experiência do ator garantiu-lhe o papel de protagonista no drama brasileiro Corações Sujos, de Vicente Amorim, que adapta o livro-reportagem de Fernando Morais sobre outro episódio relacionado com a II Guerra – a não-aceitação, por uma parcela da comunidade japonesa no Brasil, da rendição do imperador, o que desencadeia uma série de assassinatos contra os próprios compatriotas que aceitavam a realidade dessa derrota, sob inspiração de uma sociedade secreta, a Shindo Renmei.

Visitando o Brasil em julho de 2011, para participar da pré-estreia do filme, em Paulínia, o ator concedeu uma breve entrevista a Neusa Barbosa, do Cineweb. Abaixo, seus principais comentários.

Cineweb - Como adquiriu tanta experiência como espadachim?
Tsuyoshi Ihara - No início de minha carreira, estudei muito, tanto em escolas de atores como de dublês, como o Japan Action Club. Acabei conseguindo diversos papeis por conta disso. No Japão atual, muitos atores não conhecem o manejo correto da espada – o certo é não olhar quando se repõe a espada no estojo. Muitos olham! (ri).Por isso, discuti muito com o (Vicente) Amorim, porque o meu personagem, Takahashi, é um simples cidadão, não um assassino profissional. Em consenso com ele, achei seu modo de agir. Até suspendi meu treinamento para que ele parecesse mesmo uma pessoa normal. Se não se envolvesse na trama da Shindo Renmei, Takahashi continuaria sua vida familiar, como simples fotógrafo, numa cidade interiorana. Em 13 Assassinos, ao contrário, meu personagem, Hirayama, é o espadachim profissional mais esperto.

Cineweb - No Japão atual se conhece algo dessa experiência da imigração japonesa para o Brasill?
T. Ihara - Muito pouco. O centenário da imigração foi notícia, assim como se acompanha a experiência dos dekasseguis, que hoje têm escolas para eles, mais do que os chineses ou coreanos.Mas eu mesmo e a maioria dos japoneses desconhecem o episódio da Shindo Renmei – isso não se ensina na escola.

Cineweb - O sr. conhece algo do cinema brasileiro? Assistiu Gaijin?
T. Ihara - Não vi Gaijin. Mas, ao fazer Corações Sujos, nasceu meu interesse pelos filmes brasileiros, quero muito assistir mais. Só conheço Cidade de Deus e Central do Brasil.

Cineweb - Como foi trabalhar com um diretor brasileiro? O estilo dele é muito diferente dos japoneses?
T. Ihara - Vicente, com certeza, tem muita sensibilidade e calor humano. Nos recebia sempre no set com um bom dia, abrindo um sorriso, embora estivesse sempre concentrado, às vezes até nervoso. Os diretores japoneses são mais rígidos e não lidam tão bem com a comunicação.

Cineweb - Como foi sua experiência com Clint Eastwood em Cartas de Iwo Jima?
T. Ihara - Não achei tanta diferença entre Clint e Vicente. Clint é muito acolhedor e tem uma comunicação muito boa, apesar da aparência de Dirty Harry (ri). Ele elogiava quando achava que fazíamos uma cena muito boa. Neste sentido, o set americano e o brasileiro foram bem próximos. Toda a equipe, os atores, o diretor, já estavam num nível em que um respeitava o outro. Se não fosse assim, este filme não poderia ter tido este nível de realização. Por isso, para mim foi uma alegria trabalhar num set estrangeiro.