Rohmer troca o intimismo pela história
- Por Nenhuma
- 17/07/2003
- Tempo de leitura 8 minutos
Pergunta - Como surgiu a idéia de fazer A Inglesa e o Duque?
Eric Rohmer - Estava em férias, mais ou menos há dez anos e deparei com uma resenha das memórias de Grace Elliott numa revista sobre história. Essa lady inglesa foi amante do Duque de Orléans, primo do Rei Luís XVI, e deixou um relato sobre sua vida durante a Revolução Francesa. A resenha mencionava que o prédio ainda existia, informando inclusive o endereço. Como estou sempre interessado em lugares específicos, essa informação me levou a pensar em fazer um filme encenado em Paris, exatamente ali, que mostrasse a relação entre a calma ambiente do apartamento, que servia de esconderijo para Grace, e o restante da cidade lutando com os sofrimentos causados pela turbulência da revolução. Depois descobri que a revista deu uma informação errada: o prédio foi construído depois da Revolução, portanto Grace Elliott não poderia ter morado lá! Mas acho que se não tivesse sido por esse erro, talvez o artigo não tivesse me inspirado.
Pergunta - A retratação de Paris é a força motriz por trás do filme?
Rohmer - Sim e eu tinha de encontrar uma forma de retratar a Paris histórica. Sempre me frustro quando assisto a obras ambientadas em períodos históricos em Paris. As pessoas tendem a sair de Paris para filmar em Le Mans, Uzès ou outras cidades historicamente melhor preservadas. Mas eu sempre identifico que não é Paris porque ela tem uma arquitetura própria, específica. Não queria isso. Queria mostrar uma cidade grande, com grandes espaços abertos como a Place Louis XIV (hoje Place de la Concorde), que era um ponto central da Revolução, e partes da cidade mencionadas por Grace Elliott em suas memórias: Boulevard Saint-Martin, Rue Saint-Honoré, por onde foi levada até a Comissão de Vigilância, e assim por diante. Quando ela diz que foi até Meudon via Invalides, ela teve de atravessar o Sena em algum ponto!
Pergunta - E qual a solução encontrada?
Rohmer - Sabia que se filmasse em locações reais e em estúdio não resultariam num retrato autêntico de Paris. Então, tive a idéia de inserir personagens da vida real nos cenários de fundo especialmente pintados e baseados no traçado da cidade àquela época. Essa tática é antiga. Méliès provavelmente foi o primeiro a empregá-la. Mas, há dez anos, quando comecei a pensar no projeto, a tecnologia digital estava apenas começando e a kinescopia também não produziria um resultado satisfatório. Agora as duas técnicas estão aperfeiçoadas.
Pergunta - Como os cenários de fundo foram feitos?
Rohmer - Foram pintados por Jean-Baptiste Marot. Fizemos os desenhos juntos dentro do período de estilo adequado e de acordo com as cenas. Hervé Grandsart fez a pesquisa documental inicial. Trabalhamos a partir de gravuras e também de mapas de rua. Os interiores não eram locações reais. Para mim, mais do que um trabalho meticuloso, tratou-se de se empenhar em alcançar uma autenticidade que sustenta todo o filme. Não tencionava fazer um filme sobre a Revolução, nem gosto de ser identificado como um aficcionado pelo século XVIII. Embora por vezes eu seja comparado a Marivaux, não tenho preferência por esse século.
Pergunta - Essa abordagem pode ser comparada à utilizada em Perceval: usar quadros da época para retratar o próprio período?
Rohmer - Sim. Não me importo muito com realidade fotográfica. Neste filme, retrato a Revolução como as pessoas a teriam visto à época. E tento produzir os personagens o mais próximo da realidade encontrada nas pinturas. As cenas de abertura do filme são quadros. Gostaria que o espectador desavisado pensasse que elas são pinturas de época para depois ser surpreendido quando, de repente, tomam vida.
Pergunta - A televisão educativa nos faz lembrar seu trabalho.
Rohmer - Não fiz o filme por nenhuma razão política. Não o uso para defender qualquer partido, monarquista ou anti-monarquista. Por outro lado, gostaria de contribuir para que o público, adulto ou jovem, cultivasse o gosto pela história. Soube que a França é o país que mais publica revistas sobre história, enquanto os ingleses preferem os romances históricos. Sou muito atento à linguagem de um dado período histórico e é sempre muito difícil escrever um diálogo nos termos de uma época passada. Isso prejudica a atuação do ator. Nesse filme, as memórias de Grace Elliott me proporcionaram uma base sólida, levando direto ao diálogo.
Pergunta - O senhor assistiu a outros filmes históricos antes de começar a filmar A Inglesa e o Duque?
Rohmer - Assisti a Orphans of the Storm, de D.W. Griffith, que me fez pensar sobre como filmar as cenas exteriores e algumas cenas estáticas. Napoleon, de Abel Gance, e La Marseillaise, de Jean Renoir, onde me preocupei com a linguagem de época.
Pergunta - O senhor tinha certeza, desde o início, de que os personagens poderiam ser inseridos como queria?
Rohmer - Tivemos que realizar testes. Tínhamos de saber como seria a inserção dos personagens no cenário. Tivemos de fazer algumas adaptações especialmente quando a ambientação escolhida era maior que o estúdio. Tivemos de rodar as seqüências em diversas partes. Foi muito complicado. Geralmente decido como filmar cada cena à medida que começo a fazer, enquanto que nesse caso tinha que projetar cada rodada de cena com muita precisão e antecipadamente.
Pergunta - Voltando à história em si, o que lhe chamou a atenção nas memórias de Grace Elliott?
Rohmer - Meu pesquisador conseguiu uma versão completa do texto, que havia sido publicado várias vezes na França. Grace Elliot nasceu em 1760 e morreu em 1823. Seu diário começa a 14 de julho de 1789 e termina antes de ser liberada da prisão, depois da queda de Robespierre. Acima da importância histórica (há alguns pequenos erros de datas, mas no geral é fiel), o livro tem algo de perturbador, pois parece ter sido escrito como um roteiro, com cenas, seqüências e até diálogos. Grace Elliott inclui a si própria na história, mas sempre mantendo um certo descolamento e distanciamento. Podemos vê-la agindo, se movimentando, mas os outros personagens também atuam de uma forma poderosa, especialmente o Duque de Orléans, de quem temos muito pouca fonte de informação primária.
Pergunta - Foi a fidelidade de Grace Elliott aos seus princípios que mais o sensibilizou?
Rohmer - Não, foi mais a sua firmeza britânica: um tanto modesta, controlada, sem qualquer afetação quando fala de si e, acima de tudo, sua forma de ver os acontecimentos que faz dela a heroína do livro.
Pergunta - O senhor também estava interessado em que os personagens revelassem seu próprio enfoque aos acontecimentos da Revolução?
Rohmer - O que me interessa é a falta de fanatismo neles. Grace defende o Rei, mas não é uma extremista. Provavelmente ela é menos monarquista do que se diz, já que escreveu seu livro na Inglaterra anti-revolucionária. Orléans é sempre mostrado de uma forma totalmente negativa, mas ele tem um mistério, uma ambigüidade, uma dualidade que me interessa. Era vingativo e não gostava de Luís XVI, mas também estava sinceramente atraído pelas novas idéias.
Pergunta - O público tende a condenar a morte do Rei como Grace o fez?
Rohmer - Creio que à época, todos queriam ver o Rei morto por medo de ser tomado como reacionário. Era a tendência da época, como a tendência hoje é se declarar ambientalista. Quis fazer meu filme com a história de Grace Elliott e não contra o fato. Se alguém quiser fazer críticas com base na história, então deve julgar o livro no qual o filme foi baseado, mas não o filme.
Pergunta - Como escolheu os atores?
Rohmer - Por intuição, como sempre. Faço uma entrevista com uma pessoa, ele ou ela lê o texto e pronto! Foi difícil escolher a atriz para o papel da inglesa. Dentre as fotos e fitas de áudio que recebi, a única fita que gostei foi a de uma atriz que dizia conhecer o livro de Grace Elliott e que queria fazer o papel. Gostei da voz dela antes de ver a foto e, quando nos encontramos, achei que era mais interessante que a foto. Não havia pensado em Jean-Claude Dreyfus a princípio, mas buscava um tipo com físico grande e robusto, ainda que não se parecesse com o Duque. Fiquei bastante satisfeito com o elenco. Meus diretores de elenco, como sempre, se limitam a dar instruções técnicas. As emoções são da alçada dos atores. Tudo o que fiz foi dizer a eles que mantivessem uma articulação clara para que pudessem ser compreendidos. Não me decepcionaram.
Pergunta - O senhor acredita que o filme vai surpreender o público acostumado às suas comédias e provérbios e Contos das quatro estações?
Rohmer - Não. E além disso, em todos os meus filmes que saem um pouco dessa linha, sejam históricos ou políticos, como A Árvore, o Prefeito e a Midiateca, o público reagiu bem. Não gostaria de me limitar a temas super-psicológicos ou comédias românticas, embora sejam o que pessoalmente prefiro fazer. É bom mudar de quando em quando.
Cineweb-17/7/2003
