Cecilia Roth, o talento e a beleza afinados
- Por Neusa Barbosa
- 17/07/2003
- Tempo de leitura 6 minutos
Fotos de Luiz Vita
Única atriz latino-americana com status de estrela internacional, disputada por convites da Europa, América Latina e mesmo de Hollywood (que ainda não aceitou), Cecilia Roth passou pelo Rio e por São Paulo para promover seu novo filme, a produção mexicana Aos Olhos de Uma Mulher, de Antonio Serrano. Aqui, ela faz a protagonista, Lucia, uma mulher que vê seu mundo cair depois do desaparecimento do marido. Logo em seguida, descobre que o marido tinha uma vida secreta, muito dinheiro escondido e passa a sofrer chantagem de um grupo armado, que garante tê-lo seqüestrado.
Linda, loura, inteligente e antiestrela, a intérprete argentina que atuou em seis filmes de Pedro Almodóvar e dois do compatriota Marcelo Piñeyro (inclusive Kamchatka, pequeno sucesso no circuito de arte, visto por quase 65 mil espectadores) falou de tudo, exceto de sua separação do músico Fito Páez. "Não falo de minha vida pessoal", disse apenas, sem trair nenhuma tensão. Essa discrição, aliás, foi mais uma demonstração da classe desta atriz que passou pela experiência do exílio (viveu na Espanha entre 1976 e 1985) e se recusa a fazer o jogo da celebridade a qualquer preço.
Cineweb - Como decidiu aceitar este papel?
Cecilia Roth - Estava rodando um filme na Guatemala quando Serrano [o diretor e roteirista do filme] me chamou. Ele me deu o roteiro e passei uma noite rindo sozinha depois de ler. Foi uma decisão quase imediata, por intuição, até porque gostei muito dele já no contato por telefone.
Cineweb - No filme você muda a cor do cabelo várias vezes e brinca com sua própria aparência. Foi a primeira vez que fez isso?
Cecilia - Sim, foi a primeira vez que fiz isto de maneira tão óbvia, exteriormente. Há muito tempo que não fazia comédias. Embora esta não seja propriamente uma comédia, possui vários momentos cômicos. Representa uma boa mudança do que eu vinha fazendo.
Cineweb - O filme foi bem de público no México, mas não tanto na Argentina. Como você encara essa diferença?
Cecilia - Essa coisa do sucesso é sempre muito misteriosa. Além do mais, Aos Olhos de uma Mulher estreou na Argentina no mesmo dia que Matrix Reloaded, com todo aquele aparato de grande lançamento. Vivemos num mundo em que estamos submetidos às majors [grandes estúdios ou distribuidoras internacionais]. Por isso, é tão relativo falar de êxitos na nossa filmografia. Acho que, no nosso caso, simplesmente fazer um filme é sempre um êxito.
Cineweb- Você filma na Europa, no México, na Argentina. Vê alguma diferença em fazer cinema em lugares diferentes?
Cecilia - Não. Diante de um novo papel, tenho sempre o mesmo medo, a mesma curiosidade. Até penso que vai ser muito diferente. Mas no final é o mesmo. Há um país que se chama cinema.
Cineweb - Como você analisa este momento do cinema argentino?
Cecilia - É um momento muito vigoroso e de grande renovação de gerações, também. Há novos nomes, como Lucrecia Martel. Ainda assim, fazer filmes é um processo que custa vários anos de sangue, suor e lágrimas. E às vezes a crítica arrasa uma produção de uma só vez. Isso não pode ser!
Cineweb - Você fez dois filmes com Marcelo Piñeyro, Cinzas do Paraíso e Kamchatka, que é um pequeno sucesso no Brasil. Como você vê a evolução na carreira deste diretor?
Cecilia - Creio que Kamchatka é um filme bem mais intimista. É como um cantar baixinho, um sussurro, sem mostrar nada violento, nem os militares, nem as execuções dos desaparecidos. É o filme mais pessoal de Piñeyro e e eu gosto mais dele.
Cineweb - Em Kamchatka e até certo ponto neste filme também, surgem temas políticos. Até que ponto a sua experiência pessoal de exílio entra na sua composição desses personagens?
Cecilia - Quando vou compor uma personagem que tenha esse background, praticamente não tenho que pensar, porque ele está incorporado a mim. O exílio é como uma tatuagem na pele, faz parte de você definitivamente. Há um lado bom, que é você não ter medo de viver em qualquer parte, como uma planta. Mas isso também implica um desgarramento.
Cineweb - Recentemente você mencionou sua admiração pelo trabalho de diretores brasileiros, como Walter Salles e Hector Babenco. Há mais algum outro da nova geração que você tenha tido a oportunidade de conhecer?
Cecilia - Nós temos um problema entre nós mesmos: vemos muito pouco o cinema uns dos outros. Na Europa, seguramente se vêem muito mais filmes mexicanos, argentinos e brasileiros do que em nossos próprios países.
Cineweb - Atrizes com mais de 35 anos em Hollywood costumam reclamar da falta de bons papéis. Você, porém, não pára de trabalhar. O cinema europeu e latino-americano são diferentes neste aspecto?
Cecilia - Felizmente, isto não ocorre no cinema europeu nem no latino-americano. Para mim, os atores são como vinhos, melhoram com a idade. Este preconceito do cinema americano limita o cinema.
Cineweb - Você fez seis filmes com Almodóvar. Gostaria que falasse um pouco da sua relação com ele. Como é o modo de ele trabalhar e o que isso te acrescentou como atriz ?
Cecilia - Pedro é um diretor de um enorme rigor, de um detalhismo brutal e de muito humor. Uma combinação maravilhosa! É muito aberto. Se trabalha, se tenta, se ensaia de um modo e de outro. E no momento em que as coisas estão prontas, estão, não se improvisa mais. Isto me parece interessante porque não entendo a improvisação - não me parece que se deva improvisar dentro do filme. Me parece que devemos improvisar para em seguida fixar algo.
Cineweb - Almodóvar tem uma mão firme, então.
Cecilia - Tem mão firme mas tem muito humor. Trabalha com seu próprio humor e sua própria originalidade. Adoro-o!
Cineweb - Muito se fala que agora Almodóvar está na maturidade. Você acha que ele mudou?
Cecilia - Não. Ao menos com os amigos, continua sendo a mesma pessoa. Claro que todos mudamos e evoluímos pela vida mas ele não mudou sua essência. Continua sendo o mesmo Pedrito de Ciudad Real [sua terra natal, na Espanha].
Cineweb - Você recebe muitas propostas também de Hollywood? Por que nunca fez um filme nos Estados Unidos?
Cecilia - Sim. Mas da mesma maneira que escolho um filme de qualquer país tenho o mesmo critério para os filmes de Hollywood. Nunca aceitei porque nunca me pareceu que os papéis que me propuseram eram para mim.
Cineweb - Sua vida mudou depois de Tudo sobre Minha Mãe?
Cecilia - Minha vida não mas minha carreira, sim. Seguramente, pelo lançamento internacional muito potente que o filme teve, ganhou um Oscar, mais gente me viu, mais gente da indústria também, e aumentou o número de convites de diferentes lugares.
Cineweb-15/7/2003
