Giancarlo Giannini, o artífice da imaginação
De passagem pelo Brasil, homenageado por uma retrospectiva em São Paulo, o veterano ator de 70 anos fala dos grandes diretores com quem trabalhou e da necessidade de retomar a imaginação no cinema.
- Por Neusa Barbosa
- 02/12/2012
- Tempo de leitura 4 minutos
Homenageado com uma retrospectiva de oito filmes, que começa no sábado (1º-12) no MIS, dentro do 8º. Festival Pirelli do Cinema Italiano no Brasil, o ator Giancarlo Giannini participou de uma conversa com jornalistas e o público no último dia 26 de novembro.
De ótimo humor, o versátil intérprete de notáveis filmes da diretora Lina Wertmuller – como Amor e Anarquia (73), prêmio de melhor ator em Cannes, e Pasqualino Sete Belezas (1975), que lhe valeu uma indicação ao Oscar de melhor ator -, Luchino Visconti (O Inocente, 76), Ettore Scola (Ciúme à Italiana, 70) e Mario Monicelli (O Mal Obscuro, 1990) e que recentemente tem participado de superproduções como Hannibal (2001) e 007 – Quantum of Solace (2008), falou dos grandes diretores com quem trabalhou e da importância da imaginação.
Tomara que o filme que ele acaba de dirigir, Ti ho cercato in tutti i necrologi (literalmente, “Procurei teu nome em todos os obituários”), em que atua ao lado de F. Murray Abraham (Amadeus), e que ele trouxe ao Brasil, seja comprado para distribuição no País.
A seguir, trechos da entrevista:
Sobre o filme favorito em sua carreira
São tantos os filmes que amo, mesmo os ruins. Mas um filme que amo muito é Amor e Anarquia. O personagem é um poeta da vida, por sua pureza interior e a simplicidade com que enfrenta a aventura que o leva à morte. Para interpretá-lo, também tive que caracterizar-me muito fisicamente, além de achar-lhe uma voz e uma presença no espaço. Eu usava sapatos de camponês com pesos de chumbo, por exemplo. Lembro-me de que era verão e usava dois pares de calças de lã, para dar um peso.
Sobre “Pasqualino Sete Belezas”
Ninguém queria fazer o filme na época, nem mesmo Lina (Wertmuller) queria enfrentar esta experiência dolorosa filmada num campo de concentração. Pasqualino é um personagem real, que eu conheci. Lina queria um Polichinelo no campo de concentração. É a história de um homem que quer sobreviver e isso o leva a tornar-se mais feroz do que aqueles que o maltrataram. Foi o tema do homem que luta para ir em frente o que sempre me interessou.
Sobre o realismo no cinema
Não creio
muito no realismo no cinema. Agrada-me olhar a realidade e transformá-la na tela, para parecer real, mas não sendo, e sim uma passagem a um conto de fábula.
Sobre trabalhar com grandes diretores italianos
Fui um pouco o último ator de uma escola que era chamada de “a comédia italiana”, a mesma escola de Mastroianni, Manfredi, Gassman, Volonté. Fazer um filme não é tanto a relação com um diretor, mas com grandes cabeças, com a experiência de serem homens capazes de propor o acontecimento extraordinário que é um filme. Isto é belo no cinema. Ser diretor requer o conhecimento de muitas coisas e também a fantasia de uma proposta nova.
Valerio Zurlini, por exemplo, era uma pessoa de inteligência extraordinária. Então, era um mundo que se vivia naqueles três meses que se estava no set. Zurlini morreu muito jovem e não foi muito reconhecido na Itália depois de sua morte, tal como Germi. Atuei com Visconti em seu último filme e foi uma grande experiência de vida. Trabalhar com esses grandes diretores foi uma grande experiência humana que carrego comigo.
Roberto Rossellini
Tive a sorte de fazer muitos passeios a pé com Rossellini, que não aprovava muito do que se dizia sobre o neorrealismo. Ele dizia: “Contratei os dois atores mais caros da Itália, Anna Magnani e Aldo Fabrizi, e dizem que filmávamos na rua em busca de um cinema pobre. Filmávamos na rua porque era o que a história requeria”.
Sobre a perda de potência do cinema italiano
É difícil falar disso, porque não diz respeito só à Itália, refere-se ao advento da tecnologia, TV, videogames. Mudou a relação com a narrativa em imagens. Antes, havia uma geração de criadores muito talentosos, De Sica, Rossellini, Antonioni, antes deles, Blasetti. Havia uma criatividade muito grande, em muitas direções. Todos faziam filmes plenos de fantasia. Mudaram as abordagens, o tempo, o custo. Antes, se esperava uma determinada luz de um por-de-sol por vários dias. Hoje, se recorre aos efeitos. Antes, não havia essa angústia de estourar o orçamento. Fellini, que era um visionário, já dizia há muitos anos que um dia iríamos ao cinema como quem vai ao museu.
Mudanças no cinema moderno
Nos últimos anos, o cinema mudou muito e se perdeu um pouco esse tipo de jogo interior, de descoberta. Deveríamos procurar isso de volta. Precisamos redescobrir o dom da imaginação, que é muito maior do que um computador. É melhor fazer um grande erro do que algo que se enquadra nas convenções.
Neusa Barbosa
