06/06/2026

Ken Loach e Paul Laverty – a dupla dinâmica do cinema social

Parceiros profissionais há 17 anos, o diretor Ken Loach e o roteirista Paul Laverty lançam seu décimo longa, "A Parte dos Anjos", uma comédia social estrelada por jovens desempregados de Glasgow em busca de uma chance. Nesta entrevista, no Festival de Cannes 2012 - onde o filme venceu o Prêmio do Júri - os dois falam de política e da vontade de fazer comédia com um tema difícil.


por Neusa Barbosa

Firmes paladinos do cinema social britânico, o diretor inglês Ken Loach e o roteirista escocês (acidentalmente nascido na Índia) Paul Laverty formaram sua parceria há 17 anos e 10 longas atrás, desde A Canção de Carla (196) até o mais recente A Parte dos Anjos, Prêmio do Júri em Cannes 2012.

Falar de desemprego e violência crônicas no instável ambiente da Europa atual, no caso, na Escócia, não parecia um assunto para comédia. Mas foi justamente nessa direção que foram Loach e Laverty, fazendo rir a cada momento da aventura que carrega Robbie (Paul Brannigan) e seus amigos, deserdados da sorte como ele, buscando apoderar-se de alguns litros de um raríssimo uísque – o golpe que pode arrumar a vida de todos.

Na fronteira entre o drama e o humor, entre o legal e o legítimo, A Parte dos Anjos oferece uma ótima amostra do talento refinado destes dois, que pensam e falam afinados na mesma melodia. Abaixo, trechos escolhidos da entrevista concedida por eles, a um pequeno grupo de jornalistas no Festival de Cannes, em maio de 2012, da qual participou Neusa Barbosa, do Cineweb.

O sr. ainda é apaixonado pela questão da injustiça social ?

Ken Loach - Sim. Mas também acho que as pessoas são muitas vezes estereotipadas em filmes. São apresentadas como não querendo trabalhar, preguiçosas, querendo viver às custas do Estado. Mas o oposto é verdadeiro. As pessoas estão desesperadas para trabalhar. Então, a coisa previsível a fazer é ao retratá-las é contar uma tragédia. Decidimos fazer algo diferente. Pensamos: “Vamos dar a estes garotos um projeto sobre o qual eles se importem e que os desvie do crime”. Você poderia fazer uma tragédia com os mesmos personagens.

Mas o sr. acha que funciona melhor com o público sendo uma comédia ?

Loach - Acho que pode funcionar dos dois jeitos. É bom fazer as duas coisas. Há 10 anos, fizemos um filme chamado Sweet Sixteen no mesmo lugar (Glasgow) e que era uma tragédia. Mas você tem que variar o que faz. Não pode ficar sempre no mesmo tom. Não que Paul e eu tenhamos pensado nisso de um modo mecânico. Pareceu uma boa ideia envolver a plateia com esses personagens, a quem a sociedade diz o tempo todo: “Não temos nada para você”. Porque eles têm talentos, são divertidos...

Paul Laverty - Eles foram destruídos em sua experiência. É muito, muito duro. Então, é interessante de vez em quando você experimentar dar novas vozes ao que está fazendo.

Desde o começo o plano era rodar um filme de “roubo de uísque”?

Laverty - Não. (risos). Isso meio que cresceu organicamente. Você tinha que estar com os personagens, eles precisavam de aventura. O uísque veio depois. Há muita riqueza no mundo do uísque. O tonel de uísque nunca experimentado, o leilão internacional, pessoas que gastam milhões para comprar uma única garrafa de um malte especial. Havia uma grande quantidade de detalhes que pensamos que poderiam nos fornecer material.

De onde veio a ideia do uísque?

Laverty – Meu cunhado é um grande especialista, então ele nos ajudou a entender como apreciá-lo, que há uma arte nisso. Falei também com algumas pessoas que trabalham em destilarias. Os personagens precisavam de uma aventura. Então, foi muito bom vê-los planejar algo e as reviravoltas ao longo do caminho. Achei que podia funcionar.

Como funcionam os programas de apoio aos desempregados na Escócia, na Inglaterra?

Loach - Não há sindicatos para desempregados e deveria haver. Mas essa é uma outra história. Os sindicatos não estão falando sobre desemprego como deveriam. Alguns tentaram, mas sem grande sucesso. Então há uma grande defasagem entre a solidariedade e os sindicatos.

E isto é por causa da crise?

Loach - É porque falta liderança aos sindicatos. Eles não organizaram tradicionalmente os desempregados. Porque os desempregados são trabalhadores sem trabalho, não uma classe à parte. Há pessoas falando numa “subclasse”. Isto está errado. Eles são simplesmente trabalhadores sem trabalho, mas são membros da classe trabalhadora. E o fracasso na organização dos desempregados é uma grande questão. Porque hoje eles seriam o maior sindicato do país (da Inglaterra, da Escócia).

De novo, voltamos à política. Acho que as pessoas estão sendo distanciadas do processo político. Tradicionalmente, você tinha representação política na sociedade. Você tinha os vários setores da sociedade e os partidos os representavam. Não há mais isso. Você tem uma classe de pessoas e ninguém representa seus interesses. Retoricamente sim, podem dizer: “Estamos aqui por vocês”. Mas não é verdade. Elas não têm previdência social, atendimento gratuito de saúde, moradia, emprego. Então, é uma situação de risco, porque os radicais de direita podem seduzi-los, como já aconteceu na Grécia.

Ao mesmo tempo, há um fracasso na estrutura familiar. Porque esses garotos repetem um ciclo de violência, geração após geração.

Loach – Sim, mas isso acontece devido à privação social, às pressões econômicas e à política governamental. Porque o governo permite a instalação de indústrias em algumas regiões do país, então as pessoas migram. Então, o pai se desloca e a família se desintegra. Agora também estão forçando as mães solteiras a voltarem ao trabalho quando as crianças são muito pequenas, tornando mais difícil a sustentação dessa família. Então, são a política governamental e as circunstâncias econômicas que destroem as famílias.

Laverty – Isto é essencialmente verdadeiro. Quando visitamos certas áreas de Glasgow de onde imaginamos que Robbie (o protagonista) viria, encontramos a quinta geração de desempregados. Então, é uma aberração criando a outra. Esses garotos precisam de algo para fazer, de algo para valorizar. Encontram a autodestruição, o abuso de bebida, eles formam gangues. A expectativa de vida ali é muito baixa. Há lugares ali em que não passa de 50 anos, na média, devido a essas terríveis escolhas, a essas terríveis condições.

Loach – Tradicionalmente, os jovens aprendem a ser adultos indo trabalhar. Eles trabalham com os mais velhos, que lhes ensinam a trabalhar. Na cultura do trabalho, as pessoas aprendem a tornar-se adultas. Isto foi destruído na medida em que a força de trabalho encolheu. Não há mais aprendizes. A própria estrutura econômica é contra essa transição da infância à maturidade. É uma decisão política. Destroem-se a força de trabalho e os sindicatos.

O sr. acha que isso é deliberado?

Loach – Acho que é uma consequência sobre a qual não se pensa. Mas, em termos legais, é uma negligência criminosa, porque na verdade não se leva mais do que um minuto para perceber nisso. Se você destrói o tecido da sociedade, você destruirá o processo de tornar-se um adulto maduro.

Como vocês encaram novas formas de mobilização, como o Occupy?

Laverty – Movimentos como o Occupy são muito importantes. Justamente agora, quando se dizia que nada desse gênero era mais possível, ele tomou as ruas em muitas cidades do mundo. Pode até ser que seja um passo à frente, dois atrás, mas as pessoas estão se movimentando, não estão mais isoladas, estão encontrando novos meios de lidar com as situações.
Até porque o alto desemprego na Europa, por exemplo, é insustentável.

Qual o segredo para manter uma longa parceira de trabalho, como a de vocês?

Loach – Para trabalhar assim, ao longo dos anos, temos que ver o mundo da mesma maneira, as mesmas prioridades, os mesmos pontos de vista básicos, rir das mesmas coisas. E acho que quanto mais se trabalha junto, mais se buscam desafios maiores. Então, neste filme sobre um garoto desempregado, não se esperaria uma comédia, você tenta encontrar algo que pode parecer contraditório. Acho que quanto mais seguro você se sente, sabe que tem as mesmas prioridades. O mesmo acontece em relação ao câmera, por exemplo. Nós dois precisamos ter o mesmo senso do que é um bom filme, não ficarmos discutindo a cada minuto que tipo de enquadramento vamos fazer.

Em relação a uma geração mais jovem de realizadores, vocês se sentem assim como um tipo de “espécie em extinção”, que está tratando de temas de que eles não tratam ?

Loach – Não sinto isso quando falo com jovens diretores. Acho que há muitos cineastas, escritores e jornalistas – assim espero – que são críticos, que fazem perguntas. Há muitos cineastas que ocupam este espaço.

Laverty – Há vários jovens diretores que têm boas ideias. Mas certamente enfrentam dificuldades para tirá-las do papel, encontrar financiamentos, etc. A batalha está dura, ainda mais com a crise econômica.

E para vocês, como é esse processo de produção dos projetos ?

Loach – Acho que temos sorte, porque há uma certa quantidade de pessoas em alguns países
que nos ajudam a viabilizar nossos projetos. Se os exibidores e distribuidores têm confiança, eles investem. Então, pegamos um pequeno investimento de cada país e, se temos sorte, eles conseguem um retorno.

Vocês costumam receber manifestações das pessoas aos seus filmes? De que tipo?

Loach – Muitas vezes recebemos cartas de pessoas dizendo: “Esta é a história da minha vida”. Foi o caso de Apenas um beijo, por exemplo.

Laverty – Aconteceu também com Meu nome é Joe, que é a história de um alcoólatra em recuperação. Isto é muito bom. Esperamos que nossos filmes toquem as pessoas.