23/07/2026

Atrizes e diretora lidam com o intimismo e a ditadura em “A memória que me contam”

Lúcia Murat, Simone Spoladore e Irene Ravache comentam a experiência de fazer o filme, uma homenagem da diretora a uma amiga, que foi presa e torturada durante a ditadura, e sempre foi uma referência em sua vida, que também incluiu a militância contra a ditadura militar de 1964.
por Alysson Oliveira
Simone Spoladore é categórica ao falar de seu novo trabalho no cinema, A memória que me contam: “Eu não tinha muita consciência de que nasci durante a ditadura. Foi só fazendo filmes que pude perceber isso”, diz, em entrevista ao Cineweb, referindo-se a esse trabalho e a O ano em que meus pais saíram de férias (2006). Para ela, “a importância de obras como essas é exatamente não nos deixar esquecer nossa história”.
No longa, dirigido por Lucia Murat (Uma longa viagem), a atriz faz uma ex-guerrilheira quando jovem. A personagem, que está agonizante num hospital, nunca é vista no presente, apenas nas memórias de seus amigos, interpretados por Irene Ravache, Otávio Augusto e Clarisse Abujamra.

“Foi um grande desafio, porque a personagem é um mito que existe na cabeça dos seus amigos. Eu tinha que dar conta disso, quando ela era jovem no passado deles. Eu tinha de ter uma imagem de 30 anos, mas a emoção de 60 anos”, recorda a atriz. Para tal, ela conta que deixou se guiar pela diretora e também aceitou muitas sugestões.

Já a diretora diz que fez o filme para Irene Ravache, que trabalhara com ela quando estreou como diretora em Que bom te ver viva (1988). “Retomamos a personagem, que não é a mesma, mas poderia ser. Aqui, temos uma ex-guerrilheira que, com os amigos, olha para trás, revê suas escolhas e o resultado destas”. Irene, por sua vez, enxerga na sua personagem – que é sua xará - uma metalinguagem. “Eu vejo essas duas mulheres como alter-egos da Lucia, agora com meu nome. Da outra vez, eu ‘copiei’ mais os trejeitos dela, agora foi diferente. Ela escolheu tudo, figurino, acessórios e eu fiquei uma figura parecida com a Lucia”, conta a atriz.

Irene, inclusive, diz se identificar bastante com sua personagem, seus ideais, suas lutas. “Eu não fui militante na época da ditadura, mas vi meus amigos sofrendo, desaparecendo. Os artistas fizeram uma resistência”. Ao comparar a experiência de fazer os dois filmes com Lucia Murat, Irene recorda que, no final dos anos de 1980, foi bem mais difícil. “O orçamento era baixíssimo, não tínhamos chance de refazer cenas, ensaiamos muito. Eu estava na novela Sassaricando, na época, e fazia um trabalho durante o dia e outro à noite. Foi puxado, mas foi bom”. Para ela, revisitar uma personagem é uma oportunidade única para uma atriz, que não reviu Que bom te ver viva antes de filmar A memória que me contam, só depois.

Em uma coisa, as atrizes e a diretora são unânimes: este é um momento interessante para se lançar o filme, que pode contribuir para as discussões sobre temas que envolvem a ditadura, como a Comissão da Verdade. “A gente não pode esquecer nossa história”, aponta Simone. Lucia assinala que essa é “uma das coincidências que acontecem porque o artista é uma pessoa antenada”. Ela pensa nesse filme, confessa, há mais de 20 anos, que sempre foi uma espécie de homenagem à amiga Vera Silvia Magalhães, militante de esquerda torturada nos anos de 1970. “Eu só fui fazer o filme depois que ela morreu”.