MOSTRA 2013: Samantha Fuller quer manter vivo legado do pai
Em entrevista exclusiva, a diretora Samantha Fuller fala de seu esforço para manter viva a memória do pai, Samuel Fuller, no documentário "A Fuller Life", e de sua intenção de utilizar imagens inéditas dele em documentários, além de filmar algum dos muitos roteiros que ele deixou.
- Por Neusa Barbosa
- 21/10/2013
- Tempo de leitura 7 minutos

por Neusa Barbosa
Única filha do respeitado cineasta norte-americano, Samuel Fuller (1912-1997), diretor de filmes como Beijo Amargo (64) e Agonia e Glória (80), Samantha Fuller estreou na direção dirigindo um documentário em homenagem ao pai, A Fuller Life, cujo segundo festival de exibição no mundo foi a Mostra de São Paulo, antes mesmo dos EUA - que só verão o filme em março de 2014, no Festival South by Southwest.
Em entrevista exclusiva ao Cineweb, em São Paulo, a diretora contou como realizou a produção, a partir da autobiografia do pai, A Third Face – ainda não traduzida para o português -, e de uma grande quantidade de materiais guardados por ele – inclusive horas de filmes inéditos, realizados por ele na juventude e no período em que lutou na II Guerra Mundial. E também adiantou que pretende ver esse material utilizado em algum documentário futuro e que alimenta o sonho de filmar um dos muitos roteiros deixados por Fuller.
Qual foi sua motivação para realizar “A Fuller Life”?
Meu pai me teve aos 63 anos. E foi um pai muito dedicado, me levava à escola, fazia sanduíches. Sendo pai tão tarde na vida, sabia que não estaria por perto por tanto tempo. Tive sorte de tê-lo até os 22 anos. E ele sempre me dizia: “Quando eu tiver 100 anos, vamos dar uma grande festa”. Ele não costumava celebrar muito os aniversários, pedia que não fizéssemos festas. O pretexto era esperar o centenário. Então, ele morreu aos 85. E quando se completaram os 99 anos de seu nascimento, comecei a pensar: “É o ano que vem! Que posso fazer para comemorar?”. O que de melhor do que fazer um filme? Foi assim que surgiu a ideia do documentário. Foi quando minha mãe disse: “Você se dá conta de onde está se metendo?”. Ela tinha razão.
No filme, vemos que Fuller guardava muitos papeis, roteiros, até filmes. Como você mergulhou nisso?
Fui sua única filha. E era muito nostálgico entrar em seu escritório. Por outro lado, era minha sala de brinquedos. Era um jeito de passar um tempo com ele também. Deixei tudo exatamente como ele deixou, o charuto no cinzeiro, o papel na máquina de escrever.... Não toquei nada. Tudo que fiz foi tirar as teias de aranha de vez em quando e garantir que não houvessem ratos para destruir seus papeis, porque o escritório fica numa garagem. Me aconteceu muito de pegar um papel, ou um livro, e quando me dava conta cinco horas tinham se passado. Eu me sentia dentro do cérebro dele. Tudo tão interessante, todos os objetos com qualidade para serem itens de museu. São autênticos.
O arquivo é aberto?
Sim. Estudantes e pesquisadores que nos contatam têm acesso.
Mas você pensa em colocá-lo num outro lugar?
Ainda não. Não estou pronta para isso. Sinto que, se esvaziar aquele quarto, então realmente ele terá partido. Então, egoisticamente, mantenho tudo lá. Mas abrimos, sim, para estudantes e pesquisadores. Eu até gosto de ter companhia, às vezes me sinto meio solitária ali. Abrimos livros juntos, é bom. No ano passado, comecei a ler todos os roteiros que ele deixou.
Há muitos?
Muitos. Ele era um escritor muito prolífico. Estava sempre trabalhando. Você sempre ouvia aquele barulho da máquina de escrever. Nós viajamos o mundo juntos, ele me levava a festivais de cinema, sets. Ele sempre carregava um bloco de anotações. Não parava de escrever, anotar ideias, diálogos. Foi um pouco assustador mergulhar no mundo dele. Ele sempre me dizia: “Viva a sua vida”. Mas, de algum modo, depois que ele morreu, dei-me conta de que minha vida, de algum modo é a vida dele. Ele faz parte de quem sou. Sou a filha de um escritor, de um cineasta. Como posso não ter interesse nisto?
Você pensar em filmar alguns destes roteiros ou convidar outros diretores para isso?
Na verdade, antes de morrer ele estava em contato com (Martin) Scorsese para filmar uma nova versão de The Night Has a Thousand Eyes, mas isso acabou com a morte dele. Eu mesma gostaria de tentar, na verdade, se alguém me apoiasse. Aprendi como fazer um filme através deste documentário. Tive uma equipe fantástica, que voluntariou seu tempo. Foi um trabalho de amor. Aprendi uma série de técnicas, como planejar a filmagem de um plano. Foi bastante legal aprender a fazer um filme fazendo um filme sobre ele. E também quando ele escrevia os roteiros, em boa parte deles ele escrevia para dirigi-los ele mesmo. Então ele já anotava onde faria um close up, um plano médio, tudo. Eu estaria na verdade incorporando sua direção.
Há alguns roteiros cujos diálogos são tão poderosos que a história se torna eterna. Não sinto que os temas dele tenham se tornado datados. São ouro, merecem sair da gaveta. E, depois deste filme, acho que encontrei um novo destino.
O que fez com as latas de filme que ele fez e você encontrou e contem imagens inéditas?
Mandei transferi-los para suporte de alta definição. Agora tenho quatro horas num drive.
É tudo material que ele filmou durante a II Guerra?
Eu desconfiava de que era material filmado na guerra, mas tive que conferir o que havia ali. Estava tudo numa caixa, debaixo da escrivaninha dele, sem etiqueta Não podia acreditar. Ele nunca fez nada com aquilo, porque estava sempre ocupado com os outros filmes. Ele só tinha revelado o material dos campos de concentração, porque ele queria mostrar tudo aquilo ao mundo. No antigo campo de concentração de Falkenau, na República Tcheca, há uma placa com o nome dele porque ele filmou aquele lugar.
Mas os filmes que ele não compartilhou com o mundo e, na minha opinião, são os melhores, são os que o mostram fumando charuto, falando com as pessoas. Eu nunca vi meu pai tão jovem, somente em fotos. Ao vê-lo falando, caminhando, assim ao vivo, com seus maneirismos, realmente me identifiquei com ele.
Também quero ver isso tudo aproveitado, seja eu mesma quem o faça, ou não. É uma grande história.
A vida dele é uma grande história, ele teve vivências extraordinárias.
Com certeza. A vida dele é dividida nos anos como jornalista, depois no exército, na infantaria, e no cinema. Então, intitulei meu filme como A Fuller Life, porque disse a mim mesma: “Quem teria uma vida dessas?”. Ele teve três carreiras e uma conduziu à outra. E são muito diferentes. Restou a carga como veterano de guerra. Ele sobreviveu a muita coisa e viu muita coisa também. Ele matou na guerra e teve que viver com isso. Ele não gostava de barulhos muitos altos. Tinha várias memórias da guerra e usou isto em vários filmes como Agonia e Glória.
Mas ele também sentiu que, depois de sobreviver à guerra, ele podia conquistar o mundo. Hollywood? Besteira...(risos).
E a biografia, “A Third Face”, foi traduzida em outras línguas?
Somente em francês. Em português ainda não. Traduções são caras e é um livro bem grande, cerca de 600 páginas. Na verdade, por isso pensei em basear o filme no livro. Para manter seu nome vivo e levar a pessoas a conhecer o livro. Quero manter seu legado vivo. Porque a falta que sinto dele parece que cresce a cada ano.
