O ativismo do diretor chileno nas entrelinhas de “Las Analfabetas”
- Por Rodrigo Zavala
- 26/10/2013
- Tempo de leitura 4 minutos

por Rodrigo Zavala
O diretor Moysés Sepúlveda pretende chamar para si um dos principais problemas para o cinema chileno deslanchar em seu país: a formação de público. Apesar de prolífico e acumulando prêmios em festivais internacionais (Gloria, de Sebastián Lelio, recebeu este ano o Prêmio do Júri no Festival de Berlim, por exemplo), parece que o espectador chileno ainda vê com reservas a produção nacional.
Segundo Sepúlveda, depois do período de ditadura, em que dois ou três filmes eram lançados por ano, houve um boom de escolas de cinema nos anos de 1990. Esse excedente de profissionais criou a massa crítica necessária para o grande aumento das estreias que se verifica hoje – algo em torno de 25 filmes anuais.
Segundo Sepúlveda, depois do período de ditadura, em que dois ou três filmes eram lançados por ano, houve um boom de escolas de cinema nos anos de 1990. Esse excedente de profissionais criou a massa crítica necessária para o grande aumento das estreias que se verifica hoje – algo em torno de 25 filmes anuais.
Enquanto as produções se multiplicam, no entanto, a audiência dos filmes nacionais estacionou: “O número de espectadores chilenos é o mesmo há cerca de 15 anos, quando um filme poderia chegar a ter 500 mil. Hoje, o No (de Pablo Larraín, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano), por exemplo, não chega à metade desse público. Há filmes premiados em festivais internacionais que não levam mil pessoas ao cinema”.
Há algumas explicações para isso, na concepção de Sepúlveda. A primeira é o próprio preconceito do chileno, que vê as produções nacionais como um gênero em si mesmo. Isto é, não importa se for drama, comédia ou terror, todos os filmes nacionais seriam iguais e ruins.
Por outro lado, o diretor analisa duramente o trabalho de alguns de seus colegas: “Os realizadores querem reinventar a linguagem cinematográfica, porém não conseguem inventar um subgênero. Todos parecem querer fazer drama, comédia, experimental e político ao mesmo tempo. Um cinema que não é voltado às pessoas, mas aos próprios colegas”, critica, excluindo dessa crítica Andrés Wood (Machuca, La Buena Vida), Pablo Larraín (No, Tony Manero), Sebastián Silva (La Nana), entre outros.
Por fim, e é nesse ponto que o seu Las Analfabetas toca, é a formação de público, que tem muito a ver com a educação dada em seu país. Para Sepúlveda, não há ligação das produções audiovisuais
com o ensino, um abismo que busca superar.
Há algumas explicações para isso, na concepção de Sepúlveda. A primeira é o próprio preconceito do chileno, que vê as produções nacionais como um gênero em si mesmo. Isto é, não importa se for drama, comédia ou terror, todos os filmes nacionais seriam iguais e ruins.
Por outro lado, o diretor analisa duramente o trabalho de alguns de seus colegas: “Os realizadores querem reinventar a linguagem cinematográfica, porém não conseguem inventar um subgênero. Todos parecem querer fazer drama, comédia, experimental e político ao mesmo tempo. Um cinema que não é voltado às pessoas, mas aos próprios colegas”, critica, excluindo dessa crítica Andrés Wood (Machuca, La Buena Vida), Pablo Larraín (No, Tony Manero), Sebastián Silva (La Nana), entre outros.
Por fim, e é nesse ponto que o seu Las Analfabetas toca, é a formação de público, que tem muito a ver com a educação dada em seu país. Para Sepúlveda, não há ligação das produções audiovisuais
com o ensino, um abismo que busca superar.
“O cinema chileno deveria deixar de ter medo das massas. Creio que acontece no mundo inteiro: de um lado está a experimentação e de outro o cinema frívolo. Eu sou um dos que enxergam o caminho do meio, o cinema como Cavalo de Tróia, dar uma opinião em voz alta sobre determinado tema. Um cinema que dialogue com realizadores e com o público”.
Em seu filme, que concorre na Competição Novos Diretores na Mostra de São Paulo e se baseia numa peça, apresenta o encontro entre Ximena (a excelente Paulina Garcia, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim este ano, por Gloria) e Jackeline (Valentina Muhr). A primeira é analfabeta aos 50 anos, fato que escondeu toda a sua vida, enquanto a segunda é uma professora recém-formada e está desempregada.
O conflito aparentemente é simples, potencializado por uma carta deixada pelo pai de Ximena há três décadas, que ela foi incapaz de ler ou saber o que significa. Mas é a relação entre as duas que dá força a esta produção. No calor do aprendizado, a professora é incapaz de sair de uma lógica sequencial de ensino, enquanto sua aluna, intuitiva e emocional, evolui para um processo mais orgânico.
“O filme faz críticas estruturais à educação no Chile, que é um dos temas que me interessam desenvolver mais. Afinal, somos vítimas de nosso contexto, da educação que segrega, do isolamento, do analfabetismo funcional. Estamos falando de pessoas que foram à escola e não aprenderam”, afirma.
Sepúlveda critica duramente o presidente Sebastián Piñera, a partir desse ponto de vista. “O Chile se diferencia do resto do mundo por ter um ensino dirigido ao mercado, em que o presidente Piñera vai a público dizer que a educação não é um direito, mas um bem de consumo”, lembra.
Em seu filme, que concorre na Competição Novos Diretores na Mostra de São Paulo e se baseia numa peça, apresenta o encontro entre Ximena (a excelente Paulina Garcia, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim este ano, por Gloria) e Jackeline (Valentina Muhr). A primeira é analfabeta aos 50 anos, fato que escondeu toda a sua vida, enquanto a segunda é uma professora recém-formada e está desempregada.
O conflito aparentemente é simples, potencializado por uma carta deixada pelo pai de Ximena há três décadas, que ela foi incapaz de ler ou saber o que significa. Mas é a relação entre as duas que dá força a esta produção. No calor do aprendizado, a professora é incapaz de sair de uma lógica sequencial de ensino, enquanto sua aluna, intuitiva e emocional, evolui para um processo mais orgânico.
“O filme faz críticas estruturais à educação no Chile, que é um dos temas que me interessam desenvolver mais. Afinal, somos vítimas de nosso contexto, da educação que segrega, do isolamento, do analfabetismo funcional. Estamos falando de pessoas que foram à escola e não aprenderam”, afirma.
Sepúlveda critica duramente o presidente Sebastián Piñera, a partir desse ponto de vista. “O Chile se diferencia do resto do mundo por ter um ensino dirigido ao mercado, em que o presidente Piñera vai a público dizer que a educação não é um direito, mas um bem de consumo”, lembra.
