Diretor de “Laura” explora fronteiras do documentário e da relação com sua personagem
- Por Alysson Oliveira
- 01/11/2013
- Tempo de leitura 6 minutos

por Alysson Oliveira
Laura é uma figura misteriosa. Argentina com passagem pelo Brasil, está em Nova York há pouco mais de uma década. Quando a conheceu lá, o cineasta Fellipe Barbosa vislumbrou a possibilidade de um documentário sobre ela. Depois de muito insistir, ela aceitou, mas o processo de filmagem não foi fácil. Laura chega a abandonar o filme – e isso está no longa – para só retomá-lo depois de muita negociação . Nessa entrevista, o diretor fala, entre outras coisas, sobre como foi conviver com essa figura peculiar.
Como foi seu primeiro contato com Laura?
Conheci Laura em 2001, quando tinha 20 anos e havia acabado de chegar a Nova York para estudar cinema. Lembro que foi numa pré-estréia, mas discordamos
sobre o filme. Eu sorri para ela, ela sorriu para mim. Foi como
um reconhecimento do futuro, de tudo o que viveríamos juntos.
Logo ficamos amigos. Laura era meu passaporte para a noite de Nova York. Com ela, fui a festas badaladas e exclusivas, onde Laura conversava com estrelas de cinema, que pareciam íntimas. Eu a achava fascinante, encantadora, e logo sugeri que fizéssemos um filme. Ela recusou. No fim de 2008, resolvi voltar para o Brasil definitivamente. Liguei pra Laura para me despedir e, quase sem esperança, propus novamente que fizéssemos um filme. Seria uma espécie de despedida de NY. Laura finalmente aceitou.
sobre o filme. Eu sorri para ela, ela sorriu para mim. Foi como
um reconhecimento do futuro, de tudo o que viveríamos juntos.
Logo ficamos amigos. Laura era meu passaporte para a noite de Nova York. Com ela, fui a festas badaladas e exclusivas, onde Laura conversava com estrelas de cinema, que pareciam íntimas. Eu a achava fascinante, encantadora, e logo sugeri que fizéssemos um filme. Ela recusou. No fim de 2008, resolvi voltar para o Brasil definitivamente. Liguei pra Laura para me despedir e, quase sem esperança, propus novamente que fizéssemos um filme. Seria uma espécie de despedida de NY. Laura finalmente aceitou.
De onde veio a ideia do filme?
Laura é uma mulher do cinema. Desde que assisti ao clássico de Otto Preminger, o nome Laura me remete ao cinema. E como a Laura de Preminger, minha Laura é uma femme fatale; eu sou o detetive voyeur, que tenta descobrir seus mistérios. No processo, o detetive sempre se dá mal. Por isso, posso dizer que Laura é um filme noir.
Além disso, a maior paixão de Laura é o cinema: ela quer estar próxima das estrelas. Nesse ponto, temos muito em comum e talvez o filme parta daí, inconscientemente: de um encontro entre paixões. Mas as expressões dessa nossa paixão pelo cinema são muito diferentes. É nessa diferença que começam os conflitos do filme.
Além disso, a maior paixão de Laura é o cinema: ela quer estar próxima das estrelas. Nesse ponto, temos muito em comum e talvez o filme parta daí, inconscientemente: de um encontro entre paixões. Mas as expressões dessa nossa paixão pelo cinema são muito diferentes. É nessa diferença que começam os conflitos do filme.
O filme foi construído em sua filmagem?
Como a relação tensa com Laura serviu para construir o filme?
Como a relação tensa com Laura serviu para construir o filme?
Sim, absolutamente. Após a segunda noite de filmagem, o fotógrafo Pedro Sotero e eu percebemos que seria impossível negar nossa relação. Laura sempre se referia a mim, sempre jogava para a câmera enquanto era filmada. Logo percebemos que esse "making of" do documentário -- onde negociávamos constantemente o que poderia e o que não poderia ser revelado -- era muito mais interessante do que o estudo de personagem que eu me propus a fazer originalmente. E nos deixamos aventurar nesse caminho mais vérité, digamos, onde estamos dentro da sopa. Nesse caso, dentro do furacão. A partir daí, eu me torno personagem do filme, a ponto de nos perguntarmos se esse filme é mesmo sobre Laura ou sobre a minha paixão/obsessão por ela.
O fotógrafo Pedro Sotero (O Som ao Redor) foi fundamental nessa construção; ele tomou diversas liberdades com a câmera que foram determinantes para contar a história da nossa relação, que é o coração do filme.
O fotógrafo Pedro Sotero (O Som ao Redor) foi fundamental nessa construção; ele tomou diversas liberdades com a câmera que foram determinantes para contar a história da nossa relação, que é o coração do filme.
Você cogitou abandonar o filme de vez quando ela diz que não queria mais?
Sim, cogitei diversas vezes. Aquela não foi a única vez que ela disse não querer mais. Foi um processo bastante traumático, devo admitir.
Como foi a negociação para retomar o filme?
Não houve negociação. Houve persistência da minha parte, além de um desejo verdadeiro de Laura de ter um filme realizado sobre ela. O problema é que ela tinha uma ideia muito própria de como esse filme deveria ser; e eu tinha uma ideia muito diferente da dela. Aí começam os conflitos, quando nossos desejos se chocam. Então, por mais que ela tenha ameaçado abandonar o filme diversas vezes, um lado dela sempre quis esse filme. Mesmo após semanas sem atender meus telefonemas, Laura fatalmente reaparecia com sugestões de filmagem, como se nada tivesse acontecido. Ela é sensacional porque é imprevisível e misteriosa. Ela me ensinou muito sobre cinema: como o cinema depende do mistério. Criar as perguntas certas na cabeça do espectador é muito mais interessante do que lhe dar respostas.
E o encontro com o ator Ron Perlman?
Foi no restaurante Cipriani, um lugar caro e tradicional de Nova York. Laura é figura frequente lá por ser amiga dos donos italianos, que a recebem como convidada. Aliás, ela fala italiano fluentemente. Enfim, Ron estava lá jantando. Viu Laura e veio conversar. Laura é linda e carismática, então deve ter sido por isso. Ligamos a câmera, o gravador de som, e rodamos. A princípio, ele achou que fotografávamos o encontro. Só depois percebeu que nossa câmera também filmava.
Quanto você tinha de material bruto filmado? O que o guiou na montagem do filme?
Aproximadamente 70 horas. Durante a montagem, trabalhei com a montadora Karen Sztajnberg e o roteirista Lucas Paraizo. O que nos guiou foi minha relação com Laura. Tiramos tudo o que era didático e informativo; enfim, as respostas. A montagem do filme não respeita a cronologia real dos eventos, mas busca a representação mais verdadeira possível da nossa relação. É uma montagem extremamente dramatúrgica, que tenta trazer para o documentário uma experiência próxima da ficção.
Laura viu o filme pronto? O que ela achou?
Sim. Ela não gosta. Inclusive, Laura fez uma cena no debate após a estreia do filme no Festival de Hamptons, onde ganhamos o prêmio de melhor documentário. Ela alega que o filme é uma mentira, uma farsa. Eu sabia que lançar esse filme mudaria nossa relação para sempre.
Como tem sido a recepção do filme em Festivais dentro e fora do Brasil?
O filme passou em diversos festivais internacionais, como Hot Docs em Toronto, Visions du Réel na Suíça e Bafici em Buenos Aires. Em Toronto, foi um dos filmes mais concorridos: três sessões lotadas. Tivemos uma sessão na Cinemateca de Paris, onde o debate durou quase duas horas. O filme suscita muitas questões polêmicas sobre a relação entre realizador e personagem. Há pessoas que amam e outras que odeiam. Nesse sentido, o filme é tudo menos morno, pois
sempre gerou debate e discussão. No Brasil, passou em festivais como a Semana dos Realizadores, Forumdoc.bh, e estamos lançando agora no circuito comercial.
sempre gerou debate e discussão. No Brasil, passou em festivais como a Semana dos Realizadores, Forumdoc.bh, e estamos lançando agora no circuito comercial.
Quais são seus próximos projetos?
Estou terminando a montagem do meu primeiro longa de ficção, Casa Grande, que será lançado em 2014. Estou também escrevendo os roteiros das transições do longa coletivo Rio, Eu Te Amo, dirigidas por Vicente Amorim. Além disso, estou preparando o longa-metragem Gabriel e a Montanha, contemplado pelos editais de desenvolvimento do Minc e da Riofilme. É um filme sobre a jornada do economista carioca Gabriel Buchmann, meu amigo de infância, pelo leste africano em 2009.
