Paolo Sorrentino assume a herança de Fellini em "A Grande Beleza"
Um dos mais talentosos diretores italianos do momento, Paolo Sorrentino, comenta detalhes de seu mais recente filme, "A Grande Beleza", que está na lista dos 5 candidatos ao Oscar de filme estrangeiro 2014.
- Por Neusa Barbosa
- 03/01/2014
- Tempo de leitura 7 minutos
por Neusa Barbosa
Se o cinema italiano atual pode parar de lamentar-se pela saudade do passado glorioso dos anos 1950, 1960 e 1970, uma das razões está na maturidade e talento demonstrada por uma geração já madura, da qual um dos principais nomes é o napolitano Paolo Sorrentino, 43 anos.
O mais recente trabalho do diretor, A
Grande Beleza, concorreu à Palma de Ouro em Cannes, figura entre os cinco indicados ao Oscar de filme estrangeiro e também foi indicado ao Globo de Ouro. Nele, Sorrentino faz uma crônica entre cínica e poética não só da cidade de Roma, mostrada em seu fascínio e sordidez, através do olhar de um personagem icônico, o escritor e jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo), como também de uma contemporaneidade que se estende além dos domínios da capital italiana.
Grande Beleza, concorreu à Palma de Ouro em Cannes, figura entre os cinco indicados ao Oscar de filme estrangeiro e também foi indicado ao Globo de Ouro. Nele, Sorrentino faz uma crônica entre cínica e poética não só da cidade de Roma, mostrada em seu fascínio e sordidez, através do olhar de um personagem icônico, o escritor e jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo), como também de uma contemporaneidade que se estende além dos domínios da capital italiana.
Nesta entrevista, concedida a um pequeno grupo de jornalistas em Cannes, entre os quais Neusa Barbosa, do Cineweb, o cineasta italiano explica detalhes da produção e não se intimida com os comentários de inspiração em A Doce Vida, de Federico Fellini – uma de suas mais assumidas admirações.
O filme revela uma notável galeria de personagens. De onde tirou inspiração para criá-los?
Há mais 20 anos guardo uma caderneta em que anoto coisas sobre personagens que existem, não existem ou poderiam existir em Roma. São muitíssimos, tanto que muitos ficaram de fora do filme. Mas a minha maior fonte de inspiração é Roma, porque é uma cidade onde se encontram as formas mais variadas de humanidade. Talvez as mais dolorosas. Porque
quando se vai a uma capital, se costuma levar todas as suas esperanças para fazer algo, conquistar algo, mas que ao final, em geral, naufragam.
quando se vai a uma capital, se costuma levar todas as suas esperanças para fazer algo, conquistar algo, mas que ao final, em geral, naufragam.
O filme é muitas vezes melancólico. O sr. também sente não haver realizado algo, haver perdido qualquer coisa no caminho, como o protagonista?
Sim, como nós todos. Felizmente até. Todos nós temos remorsos, senão todos seríamos totalmente satisfeitos conosco, seria muito tedioso. Então, sim, me coloco na pele do personagem, não tenho nenhum distanciamento que me separe dele, nenhum julgamento. É a condição geral do ser humano.
Daquilo que coloca no filme, o quanto é fruto de observação e o quanto o é de imaginação? Comparando a sua Roma à Roma de “A doce vida”, o quanto ela mudou? Para melhor ou pior?
Meu ponto de partida é a realidade mas, como geralmente acontece, constato que o real só muito raramente se basta do ponto de vista cinematográfico. Necessita-se de um aporte da imaginação. Se Roma melhorou ou piorou, realmente, não sei dizer. Acho que cada um pensa que a sua própria época é pior do que as anteriores. Quando Fellini realizou A Doce Vida falava de um mundo que parecia irresistivelmente atraente, mas tudo somado, não lhe agradava. É uma espécie de comportamento que sempre se repete. Portanto, seria muito fácil dizer que tudo mudou para pior.
No filme, o sr. retrata uma certa elite, em que o sr. identifica uma sociedade paralisada, que não avança, desperdiça seu tempo. Esta análise procede?
Sim, há uma elite que teria os instrumentos para mudar as coisas mas exatamente é inerte, porque passa a maior parte de seu tempo em atividades fúteis ou manifestando a própria intolerância, a própria malignidade em relação ao próximo e nisto desperdiça sua inútil energia. Nessa atitude, perdeu tantos anos e grandes oportunidades que se poderia aproveitar num país como a Itália. Por isso estamos na situação que estamos hoje.
Seu filme reflete toda a Itália?
Em minha opinião, o filme pode ser interpretado também como uma metáfora da condição moral de nosso país. Não apenas a Itália, aliás, toda a Europa. Mas há também o amigo do protagonista, Romano, interpretado por Carlo Verdone, que faz teatro. Aquele é um italiano que me agrada, que tenta fazer as coisas e, quando não dão certo, resolve sair de Roma e voltar-se a uma vida mais simples. Não é que tenhamos todos que engajarmos em propostas grandiosas. Um pouco de honestidade intelectual, um pouco de ternura nos relacionamentos, de benevolência, poderiam também mudar as coisas.
Há muitas referências à Igreja Católica no filme, desde o magnífico coro que o inicia até personagens como o cardeal gastrônomo e a “santa”. A Igreja é fundamental para a definição da identidade italiana?
Muitíssimo. A Igreja Católica exerce uma influência muito forte sobre a sociedade. Talvez tenha ainda mais sobre a política e, refletindo-se sobre a política, reflete-se sobre a sociedade.
Qual o tamanho do desafio de realizar um filme sob a sombra de seus predecessores, por exemplo “A Doce Vida”, que retratava a mesma atmosfera que o Sr. retrata?
É dificílimo porque esse filme é um trabalho absoluto, uma mina de idéias e de força. Porém, é também uma clamorosa fonte de inspiração. Porque os filmes de Fellini, não só A Doce Vida – Oito e meio, Roma de Fellini também – são dotados de um maravilhoso senso de liberdade de fazer, da total liberdade de fazer, semelhante àquela maravilhosa condição de não estar nem sóbrio, nem bêbado, mas alegre, na qual lhe parece que tudo seja possível. Enfim, é uma fonte de inspiração que te dá uma grande confiança.
Neste sentido, o sr. se sente apenas inspirado a fazer o que bem quiser?
Sim, de estar livre não simplesmente para contar uma história, e sim para exprimir uma condição. Sendo realista, em minha opinião, a vida é uma condição, não é uma história, é uma série de condições que se sucedem. Não há golpes de cenana vida.
O sr. tanta tenta contrapor as diferentes civilizações em Roma, a antiga e a moderna?
Sim, Roma é uma cidade em que o aspecto da antiguidade é realmente muito presente, vasto e amplo. E há também o tempo presente. Neste sentido, sim. Conseguir fazer uma crônica da cidade que se move dentro dessas duas instâncias se torna, então, inevitável.
Toni Servillo carrega o filme. O sr. teria feito o filme sem ele?
(Hesita um pouco). Sim. (todos riem). Se ele não quisesse fazê-lo, o que eu poderia fazer? No entanto, estava bastante seguro de que este tipo de personagem lhe agradaria, que reflete um tipo de napolitano do qual eu e Toni sempre falamos tanto, é um tipo de pessoa que existe na realidade que nos agradava e nos divertia muito. Porque é inspirado mesmo numa tipologia de napolitanos que conhecemos muito bem.
Tal como Jep, o sr. se sente como um observador e um comentarista da vida romana?
Sim.
Mas não é tão perverso para destruir a vida de uma pessoa em duas frases, como ele faz com a amiga Estefânia?
Acho que todos nós podemos ser muito mais malvados do que o personagem de Toni. Ele é menos perverso do que nós podemos estar dispostos a ser. Ao fim, ele se reconcilia com ela, eles dançam e diz que não foram para a cama juntos. No futuro, podem ir. Por trás de pessoas como ela, um pouco hipócritas, se esconde uma dor. Ele não é ofensivo, lhe recorda a verdade. E diz que estamos todos em dificuldades. Portanto, para mim, é um ato de bondade, é um comportamento de grande amor.
Jep também não está paralisado?
No começo, está paralisado e perfeitamente integrado àquele mundo. O filme é justamente o retrato de como, pouco a pouco, ele começa a questionar tudo isso. E começa a tomar atitudes, como voltar à ilha, às suas raízes, que são a negação das fofocas e das maldades que cometeu até aquele momento.
