"Ninguém vai para um lixão por opção”, diz o diretor de Entre Vales
- Por Alysson Oliveira
- 08/05/2014
- Tempo de leitura 2 minutos
No começo dos anos de 1990, Philippe Barcinski foi convidado para fazer o roteiro de um documentário sobre o Jardim Gramacho. O filme acabou não se concretizando, mas o lugar deixou nele uma forte impressão. “O que me chamou a atenção foram conversas com as pessoas lá. O que muito me impressionou foi que a maioria deles, quase todo mundo mesmo, tem histórias de perda, de um ente, de emprego. Ninguém ia lá por opção. Achei que valia a pena fazer um filme ali". Anos mais tarde, numa cooperativa de catadores, descobriu que a maioria das histórias do lugar tinham a ver com recuperação.
A ideia foi contar em Entre Vales a história de quem vive essa jornada – perde tudo o que tem e se recupera. “O lixo é uma metáfora boa para isso: o que não tem mais uso e o que se aproveita”. As filmagens foram feitas no próprio lixão, com uma logística meio complicada, acarretando uma aproximação da comunidade antes das filmagens. Ele conta que tecnicamente foi muito complexo levar a equipe.
Além disso, foi preciso uma espécie de direção de arte, assinada por Marcos Pedroso, que vem de um trabalho em teatro e de filmes como Madame Satã e Mutum. “Ele tem um trabalho de aproveitamento do espaço. Mas é uma direção de arte invisível, coloca a história em primeiro plano – algo diferente de muitos trabalhos que vemos por aí”.
Para Barcinski, duas características de Ângelo Antônio que lhe chamaram a direção: “Precisava de uma pessoa com uma imagem afetiva, capaz de transmitir essa coisa de pai, e, como vimos em Dois Filhos de Francisco, ele é ótimo para o papel”. Precisava também de um ator com capacidade de explosão, no momento necessário. “Ele é um homem que desaparece um pouco atrás dos seus personagens. E é um homem de sutilezas e, como o filme trabalha como silêncios, mas também vai de um extremo para o outro.”
Comparado com seu primeiro longa, Não por acaso, o cineasta explica que este tem um roteiro muito intrincado e tudo se encaixa, cada coisa tem sua duração precisa. “Mas na minha jornada pessoal, quis para minha próxima experiência tentar a perda um pouco do controle, trabalhar de forma mais intuitiva”. Nesse sentido também a montagem foi fundamental; as cenas aumentaram ou diminuíram conforme se desenrolaram na filmagens.
Atualmente, Barcinski dirige uma série de televisão infantil que deverá ser exibida no segundo semestre, Que monstro te mordeu?, que conta com supervisão de Cao Hamburger. Também está escrevendo o roteiro de seu próximo filme, que deverá se chamar Sob pressão.
