06/06/2026

“O mundo todo é meio estrangeiro para mim”, diz Karim Aïnouz

"Esse é o meu filme mais maduro", assinala o diretor de "Praia do Futuro", estreia desta semana.
Em sua carreira como cineasta, o cearense Karim Aïnouz tem 4 longas e meio – um deles, Viajo porque preciso, volto porque te amo, foi codirigido por Marcelo Gomes – em quase todos, personagens em deslocamento, uma sensação de ser estrangeiro (nem que seja em sua própria terra). “O que é terra estrangeira?”, se pergunta durante a coletiva de lançamento de Praia do Futuro, em São Paulo, “O mundo todo é meio estrangeiro para mim”.

Nesse novo trabalho, Praia do Futuro, Wagner Moura é um salva-vidas na praia que dá título ao filme, mas acaba indo para a Alemanha, quando se apaixona por um alemão vivido pelo ator Clemens Schick. Aïnouz, que já morou em Berlim, confessa ter um grande afeto pela cidade. “Escrevi O Céu de Suely lá. Voltei para o Brasil com saudades daquele lugar. Fazer esse filme foi uma forma de homenagear a cidade”.

Boa parte do filme se passa em Berlim, e na cidade, o diretor trabalhou com uma equipe mista. “É sempre bom filmar no estrangeiro, por mais que se conheça o lugar, é sempre como um novo amor”.

Para protagonista, o diretor encontrou em Wagner Moura o ator ideal para viver o salva vidas Donato. “Eu perseguia o Karim”, confessa o intérprete mais conhecido por seu trabalho em Tropa de Elite. “Quando aconteceu, abri o tempo que tinha para ele, fazer
Praia do Futuro foi uma prioridade. Fiz treinamento com salva vidas da própria praia, que é bonita, mas muito perigosa, pois formam bancos de areia que são móveis e as pessoas não percebem, e se afogam. Essa preparação foi fundamental para construir meu personagem, e me ajudou a encontrar o sotaque do cearense, que é bem diferente do meu de baiano”.

O longa não foi filmado em ordem cronológica: as primeiras cenas a serem rodadas foram em Berlim (2ª e 3ª partes), e , só mais tarde, a equipe se reuniu no Ceará para filmar o começo do longa. “Fizemos muito ensaio, muita preparação, isso foi fundamental para encontrarmos as personagens”, explica Wagner, que também contou com a preparadora de elenco Fátima Toledo.

Aïnouz confessa que nesse longa experimentou coisas novas – inclusive uma parceria com o diretor de fotografia
Ali Olay Gözkaya, um turco criado na Alemanha. “Brigamos muito durante as filmagens. Ele se preocupava com quadro, com coisas mais técnicas, e eu nem ligava para isso. No fim, aprendi muito com ele. E esse é o meu filme mais maduro. A parceria deu tão certo, que já fizemos um novo trabalho, um documentário para um programa de televisão chamado Catedrais da Cultura. “ O cineasta confessa também que com este filme está mais ‘ambicioso’. “Quero ganhar corações e mentes. Torço para que seja visto, porque é um dos filmes no qual mais experimentei”.

Mas ele também sabe que este é um filme melancólico: “O mundo é um lugar estranho, que dói. Se está tudo bem, é porque tem algo errado. E esse é um filme que fala da raiva, da tristeza. Era para ser um filme de amor, mas uma reviravolta traz uma nova voltagem”.