“Chega uma hora em que a sociedade transborda”, diz diretor de “Riocorrente”
- Por Alysson Oliveira
- 04/06/2014
- Tempo de leitura 2 minutos

Entre seu primeiro longa, o documentário O prisioneiro da grade de ferro, e o segundo, Riocorrente, Paulo Sacramento levou cerca de 10 anos. Nesse período, ele produziu e montou diversos longas – como A concepção e Encarnação do Demônio – e, nesse processo, admite que aprendeu muito. “Eu sempre tive muita ligação com a ficção. A dinâmica do documentário me deixou traumatizado”, ironiza.
Para superar esse "trauma", Sacramento resolveu voltar para a ficção. “Queria pensar num roteiro que mais se parecesse com a poesia do que com o romance, mas não tinha muita pressa de fazer meu segundo filme”.
Ao reler um roteiro que havia escrito há algum tempo, se reapaixonou por ele. Daí nasceu Riocorrente – um filme que não poderia ser mais atual, ao falar de uma sociedade à beira de um colapso.
Ao reler um roteiro que havia escrito há algum tempo, se reapaixonou por ele. Daí nasceu Riocorrente – um filme que não poderia ser mais atual, ao falar de uma sociedade à beira de um colapso.
“A ideia se tornou, então, radicalizar com algumas coisas que já estavam no roteiro. Este é um filme que tem a ver com a sociedade, porque tem uma hora em que as coisas explodem”. Apesar de concebido muito antes das manifestações de junho do ano passado, Sacramento concorda que seu longa tem muito a ver com este momento. “Somos um país em transformação. Chega uma hora que o que temos não é suficiente, e o filme fala sobre isso”.

Para apurar o roteiro, o diretor leu diversos livros sobre anarquia, transformações sociais e afins. “Eu queria trazer algo de anarquismo para a tela. E Carlão Reichenbach [diretor de filmes como Garotas do ABC e Anjos do Arrabalde, morto em 2012] sempre gostou muito disso, e fez isso em seus filmes. Ele foi uma espécie de inspiração”.
Um dos desafios de Sacramento foi a direção de atores, algo que ele nunca tinha feito, pois em seus curtas trabalhara apenas com não-atores “Eu queria encontrar pessoas que pudessem me ajudar a encontrar o filme. Foram três meses de ensaio, e os atores deram muitas sugestões, reescrevemos diálogos. Foi aí que percebi que precisava muito pouco da palavra”.
Os diálogos, para ele, são a materialização da discordância entre as personagens. “Na maioria das falas, há um conflito, a explicitação das diferenças, por isso, nos momentos de mais afetividade dentro da trama não há palavras”.
Atualmente, Sacramento trabalha na pré-produção de seu próximo filme, que deverá se chamar O olho e a faca, que, garante, será diferente, apesar de compartilhar das mesmas inquietações de Riocorrente. “Será um filme com um orçamento maior e um elenco mais famoso, com o qual o público deverá se identificar. Mas nem por isso quero abrir mão dos meus ‘desvios’. Será uma combinação entre comercial e experimental”.
