08/06/2026

Guel Arraes coloca em "Lisbela e o Prisioneiro" sua receita de cinema popular

Fotos de Luiz Vita

Lisbela e o Prisioneiro é mais um exemplar do que o diretor Guel Arraes define como "cinema popular brasileiro". Uma categoria que supõe uma linguagem rápida, filhote da televisão, carregada de humor e de indiscutível sucesso junto ao público, como atestam Caramuru - A Invenção do Brasil (2000) e Auto da Compadecida (1999), trabalhos anteriores de Arraes e produzidos, aliás, originalmente para a TV Globo antes do lançamento em cinema.

No caso de Lisbela e o Prisioneiro, o que precedeu o filme foi uma temporada teatral de sucesso, seguida de um especial para a televisão. A peça original de Osman Lins foi remontada e ficou mais de dois anos em cartaz, em diversos lugares do Brasil, o que convenceu os produtores de suas possibilidades em outro formato. Nesta entrevista, em São Paulo, o diretor do filme explica o que restou do texto original e os critérios que guiaram suas escolhas em termos de roteiro, linguagem e elenco.

Cineweb - O que é isso que você chama de "Cinema Popular Brasileiro"?
Guel Arraes - A idéia é que seja um cinema que divirta o público, mas não o adormeça. Quer dizer, que lance mão de alguma estratégia culta também. Fizemos algumas sessões de pré-estréia do filme com público menos intelectualizado. E uma das coisas que eles mais gostaram foi a nossa idéia dos três finais, que a gente até temeu que pudesse ficar meio complicado. Acho que a gente pode ousar um pouco mais. Por outro lado, não acho que seja o único cinema que deva ser feito. Nem é o único que eu quero fazer.

Cineweb - Mas você usa um tipo de humor que mergulha num universo suburbano.
Arraes - Na verdade, o que estou procurando é quebrar um preconceito contra o mau gosto. Queremos o melhor do mau gosto.Muita coisa vem do universo suburbano, sim - o herói conquistador, o matador chamado Frederico Evandro, com um visual que mistura cantor brega e cangaceiro, a mulher dele gostosona de vestidão colorido.

Cineweb - Dentro da sua adaptação, o que sobrou da peça original de Osman Lins?
Arraes - Cerca de 30% do texto e dos diálogos foram mantidos. Ficou do original, por exemplo, a situação do sujeito que jura o outro de morte sem que os dois se conheçam.Só que esse conflito é pouco desenvolvido na peça. No filme, essa situação cresce bastante com o Marco Nanini e o Selton Mello na condição do matador e do alvo. A parte romântica, melodramática, também ficou mais densa no filme do que na peça. Aquela cena do Frederico Evandro (Nanini) com a mulher dele, Inaura (Virginia Cavendish), cresceu no roteiro. O Nanini sempre me dizia: "Você precisa acreditar nesse casal". E isso acabou mesmo acontecendo.

Cineweb - O elenco da peça foi mantido no filme?
Arraes - Em parte. Houve uma troca de papéis. Na peça, o Bruno Garcia fazia o protagonista, o Leléu, que agora é o Selton Mello. E o Bruno ficou com o papel do Douglas, o noivo da Lisbela. A Lisbela era a Virginia Cavendish, agora é a Débora Falabella. A Virginia faz a Inaura, que no teatro era a Lívia Falcão. E a Lívia agora faz a Francisquinha.

Cineweb - Mas o Selton também fez a peça...
Arraes - Sim. A peça foi relançada e ele fez uma temporada no Nordeste.

Cineweb - E essa idéia do filme que passa no cinema em partes, como um seriado?
Arraes - Na peça, tem um dos policiais da delegacia que gosta de assistir justamente a esse filme em série, mas não fica muita referência. No filme, a gente explora bastante isso com o personagem da Lisbela (Débora Falabella), que é apaixonado por cinema, situando aquele contexto em que o seriado era como a novela de hoje. Fora que os filminhos que ela vê são quase paródias, como a gente fazia na TV Pirata.

Cineweb - Você espera que Lisbela e o Prisioneiro faça sucesso no exterior?
Arraes - Eu espero que o cinema brasileiro conquiste primeiro o público brasileiro. Mas não dá para esquecer que poucos países do mundo têm uma cinematografia tão grande e exportável quanto o Brasil. O Brasil tem uma espécie de paixão excessiva pelo cinema, embora a TV seja atípica por aqui, bem maior do que em outros países. Mesmo assim, este ano a participação dos filmes brasileiros deve chegar perto dos 20% do nosso mercado. Isso é ótimo.