06/06/2026

Lina Chamie faz a crônica da delicadeza dos sentimentos em "Os Amigos"

Em seu quarto longa, a diretora paulistana Lina Chamie reúne Marco Ricca, Dira Paes, Sandra Corveloni e várias crianças, num filme que realiza uma jornada de compartilhamento das pequenas descobertas e emoções do dia a dia. Entrevista a Alysson Oliveira.
Por Alysson Oliveira

Quando trabalhou com Marco Ricca, no filme A Via Láctea (2007), a cineasta Lina Chamie não esperava que fosse surgir um laço tão forte. “Nos tornamos muito amigos, daqueles de sair pra comemorar o aniversário juntos. Num desses, pensei que precisava escrever um filme pro Marco, para celebrar a nossa amizade, as amizades de todo mundo”, conta ao Cineweb, poucos dias antes do resultado dessa ideia, Os Amigos, chegar ao circuito.

“Quando ela disse que era um filme escrito para mim, não tive como recusar, pegava mal”, brinca o ator, que confessa encontrar em Lina uma das melhores cineastas brasileiras de todos os tempos. “Ela tem uma visão peculiar do cinema. Cria, então, uma identidade para seus filmes. É uma das grandes do nosso cinema. Ela e o Beto Brant, com quem já fiz dois filmes [O Invasor e Crime Delicado]. Com eles topo fazer qualquer coisa”.

O filme acompanha um dia na vida de Teo (Ricca), arquiteto que precisa, entre outras coisas, ir ao velório de um amigo de infância e comprar um presente para o filho de uma velha amiga (Dira Paes).
A diretora, que também assina o roteiro, explica que, com esse filme, queria falar da delicadeza do cotidiano, de como a amizade pode cobrir as lacunas da vida. “É o lugar de ternura e encontro. É um lugar macio. Diferente do amor, a amizade não precisa de glamour, é algo mais confortável”. Ricca também aponta o que há de peculiar nesse sentimento: “Diferente da família, os amigos são escolhidos por nós. São a espinha dorsal do nosso ser”.

O que se vê na tela é um filme como Lina: delicado, mas certo de suas escolhas. Ela tem uma fala calma, mas bastante empolgada – especialmente quando o assunto é cinema ou seus amigos que estão no filme, como é o caso de Fernando Alves Pinto, parceiro de todos os longas, e que aqui faz uma participação. “O Nando é mais do que um amigo, tem que estar em todos os filmes. E eu devo muito a ele, ele correu a São Silvestre para mim”,
brinca a diretora, referindo-se ao seu documentário no qual o ator participou de uma corrida de São Silvestre com uma câmera acoplada ao corpo registrando toda a prova. São Silvestre foi lançado no cinema no ano passado e tem previsão para sair em DVD ainda este ano.

A estrutura de Os Amigos é inspirada em narrativas da jornada do herói, como a Odisseia, de Homero, e Ulysses, de James Joyce. Nesse sentido, um grupo de crianças funciona como um coro das antigas peças gregas, comentando a ação. Além delas, há algumas outras – como os filhos da personagem de Dira – e o personagem de Ricca e seu melhor amigo, quando crianças. “Ao todo, foram 25 crianças. Ficamos meses fazendo entrevistas e atividades para selecioná-las. E trabalhei com o Diogo Mattos, um excelente preparador de elenco, que me ajudou muito com elas”.
Lina conta que deu uma certa liberdade para as crianças criarem esquetes – que funcionam como um comentário da ação. Mas àqueles que faziam personagens inseridos na trama não podia deixar tão livres. “Foi divertido e surpreendente. O que eu mais temia [a relação com as crianças] foi o que mais alimentou o filme”.

A presença de Dira Paes, como a melhor amiga de Teo, também trouxe um quê ao filme. “A Dira é solar, sua personagem também é assim. E aqui ela faz algo que não se espera dela. Seus traços, seu tipo físico, sempre apontam para personagens regionalistas. Aqui ela faz um tipo urbano, uma mulher de classe média. Eu queria tirá-la de seu habitat natural”. Ricca também define a atriz e a personagem como “solar”.

Ao comparar o trabalho de Lina em Os Amigos com o de A Via Láctea, Ricca percebe um amadurecimento na diretora. “Aqui tínhamos um orçamento um pouco mais folgado, podíamos fazer as cenas com mais calma. O outro filme era um filhe de guerrilha, algo visceral. Sinto também que a Lina havia me deixado muito livre, me vejo e me sinto muito diferente. Aqui, ela foi mais rígida, afinal é um filme mais abrangente”.

Entre um filme e outro, Ricca também dirigiu seu primeiro longa, Cabeça a Prêmio, e isso passou a influenciar sua percepção como ator. “Passei a respeitar ainda mais a figura do diretor. Sempre fui um ator muito questionador, dava muito palpite, queria fazer as coisas do meu jeito. Mas aprendi que é bom ter confiança em quem te dirige, fazer, ao menos uma vez, da forma como ele quer, e depois dar sugestões”.
Além disso, o ator, que está na novela Boogie Oogie, confessa que planeja voltar a dirigir um longa, mas não há nenhum projeto concreto.

Já Lina ganhou há pouco um edital, e começará em breve a escrever seu novo filme, que deverá se chamar O Medo: “Vai se passar inteiramente dentro de um avião, que vai cair três vezes”. Além disso, ela considera um desafio realizar um filme concentrado num único espaço. “Sou uma diretora que ocupa espaços, a cidade faz parte de mim. Gosto da solidão de São Paulo, meus filmes transitam por suas ruas – talvez por isso nem funcionem muito bem com públicos de outros lugares – e agora quero me restringir a um avião fechado”, diverte-se.