06/06/2026

Fellipe Barbosa injetou própria vida no drama “Casa Grande”

Em seu segundo filme, e primeira ficção, diretor carioca valeu-se de detalhes da própria história familiar para criar um filme que repercute densamente no Brasil contemporâneo, focado nos choques e diferenças sociais de uma sociedade em mudança.


Por Alysson Oliveira
Desde sua primeira exibição em solo nacional no Festival de Paulínia de 2014, o drama Casa Grande surpreendeu, conquistando vários troféus – entre eles, o Grande Prêmio do Júri e de roteiro. Segundo longa (e primeiro de ficção) de Fellipe Barbosa, o filme joga um olhar sobre tensões de classe no Rio de Janeiro contemporâneo, a partir da crise financeira de uma família classe média alta, cujo patriarca é interpretado por Marcelo Novaes.
Nesta entrevista, Barbosa conta sobre o processo criativo, como sua experiência pessoal familiar moldou o filme, do trabalho com jovens atores e a carreira de Casa Grande, exibido e premiado em diversos festivais.

No debate no Festival de Paulínia, você comentou que no filme há traços autobiográficos. Como

foi lidar com isso? O filme serviu como uma espécie de exorcismo de alguma coisa ou não?
O filme fala de uma família indo à falência e como essa crise se torna uma oportunidade para o protagonista Jean, de 17 anos, que passa a pegar o ônibus para ir pra escola pela primeira vez. Pouco antes de escrever a primeira versão do roteiro, algo parecido tinha acontecido com minha família. Na época, eu morava em Nova York, então escrever o roteiro foi como corrigir essa ausência e me imaginar ali aos 17 anos, prestes a fazer o vestibular. Não diria exorcismo, mas sim uma terapia bem-humorada, pois trato tudo isso de maneira bastante leve e cômica.

Como foi o trabalho com a montadora Karen Sztajnberg – que também assina o roteiro? Foi importante ter um olhar “externo” para ajudar nesse processo de escritura?
Foi absolutamente essencial. Precisava de alguém de fora pra me ajudar a construir essa história. A Karen é uma grande parceira criativa, extremamente racional e analítica. Fizemos um roteiro matemático de tão construído, justamente para esconder a realidade e tornar aquilo evidentemente uma ficção, uma estória sem “h”. Depois, na montagem, Karen escolheu a grande maioria das tomadas que ficaram no corte final. Ela tem um olho fantástico pra identificar os melhores takes. Confio muito nela.

Você estreou em longas com Laura (um documentário sobre uma brasileira que mora em Nova York), que também tem algo de autobiográfico (ao menos, algo de uma experiência pessoal sua, já que aparece no filme). O quanto isso te ajudou ou atrapalhou em se tratando de Casa Grande?
Ajudou muitíssimo, pois nada poderia ser tão difícil quanto Laura, um documentário filmado com uma equipe de três pessoas ao longo de dois invernos em NY, quase sempre no exterior. Fora as complicações com a personagem, toda culpa envolvida em expor a vida real de alguém e me expor no processo. Por mais autobiográfico que seja Casa Grande, não havia dúvidas de que estava fazendo uma ficção. E a ficção nos protege. A maior dificuldade foi passar de uma equipe de três (eu incluído) para uma de 40. Isso me assustou um pouco no começo, mas depois me acostumei.

Como foi o processo de seleção dos protagonistas adolescentes? E o trabalho com eles?
Desde o começo, queria trabalhar com alunos do São Bento para retratar o colégio, pois pensava que seria a única maneira de retratar aquele ambiente tão específico de forma autêntica. Então restringi a busca pelo Jean ao colégio. Minha estratégia era encontrar o grupo ideal e, a partir desse grupo -- colegas reais de uma turma --, definir quem seria o Jean, ator e personagem, pois o ator emprestaria muito de si para o personagem. O trabalho com eles foi fácil, fluiu muito bem. Muitos eram músicos, então já tinham um dom natural para performance. Inclusive, as músicas que os personagens tocam -- Thales Cavalcanti e Victor Camelo -- foram eles mesmos que compuseram. Acho muito lindo o tema composto pelo Victor, quando ele tinha somente 17 anos.

Seu filme acaba tendo – mesmo que involuntariamente – algo de crítica social, de um retrato de classe. Foi algo premeditado, ou isso surgiu naturalmente?
Um pouco de cada -- pensava nisso e vinha naturalmente ao mesmo tempo. Uma vez estabelecida a premissa, percebi que ela continha a semente de uma crítica à casa grande. A partir daí, foi uma questão de aprofundar a crítica: trabalhar as cotas raciais como mais uma ameaça à casa grande e encenar uma discussão relativamente jovem no país, mas sem perder o amor pelos personagens, mesmo os que têm um discurso mais reacionário. Dentro de cada cena, eu procuro defender todos os personagens igualmente, sem favorecer um ou outro. Se eu trato o personagem reacionário sem empatia e compaixão, ninguém vai se reconhecer nele. Daí a crítica torna-se inócua.

Até que ponto haver momentos de humor ajuda na atmosfera do filme?
Creio que o humor vem justamente dessa defesa de todos os personagens. O humor ajuda, pois gera empatia e identificação. Se o personagem não gera empatia, a crítica não tem efeito algum, pois o espectador vai se recusar a se identificar com o personagem, mesmo que tenha o mesmo discurso que ele/ela. Mas se o espectador conseguir rir de si mesmo, talvez até admita que aquele discurso seja de fato seu. O filme critica o discurso tanto de um lado quanto do outro. É a soma das cenas que acaba provocando um discurso, provavelmente de esquerda. Mas isso é praticamente involuntário.
Os planos abertos e familiares que se repetem ao longo do filme também contribuem para a comédia, pois colocam o espectador a uma distância mais objetiva da ação, de onde pode rir da cena. O plano próximo dificulta o riso, pois sentimos o drama dos personagens. Por isso o filme é filmado tão aberto.

O filme passou em diversos festivais no mundo todo (como Roterdã e San Sebastián), e ganhou muitos prêmios. Como você percebe o público no Brasil e fora daqui? As reações são muito diferentes?
No geral, as reações são semelhantes, mas no terceiro ato do filme elas são muito diferentes entre o Brasil e resto do mundo. Trata-se de um momento tenso para a família do filme, em que eu sempre imaginei uma reação igualmente tensa. E foi assim em diversos países do mundo, da Ásia à Oceania à Europa à América do Norte, até o filme aterrissar em Paulínia, e o público daquele teatro magnífico rir da sequência como se fosse uma grande comédia. Confesso que fiquei assustado, mas depois percebi que a cena funcionava numa outra chave, e que tinha perdido o controle do filme totalmente. Fora isso, tem detalhes dos quais só os brasileiros podem rir, outros que só os cariocas percebem, outros que só notam os beneditinos e ainda outros que só veem os que me conhecem bem.

Você já está trabalhando em novos projetos? Pensa em fazer mais documentários também?
Sim, estou trabalhando em mais três filmes. O próximo vai ser Gabriel e a Montanha, uma reconstrução da viagem do economista carioca Gabriel Buchmann pela África até sua morte no Monte Mulanje, no Malawi. Gabriel era meu amigo de infância, também do colégio São Bento. Espero honrar sua memória com um filme do tamanho da sua aventura.
Sobre documentários, talvez, mas sinceramente prefiro fazer ficção. Apesar de amar assistir a documentários, na ficção eu me sinto livre para revelar ainda mais.