Wagner Moura pedala o sonho do aventureiro-família em O Caminho das Nuvens
- Por Neusa Barbosa
- 12/09/2003
- Tempo de leitura 9 minutos
O ator Wagner Moura aprendeu até a fumar para encarnar Romão, o protagonista de seu novo filme, O Caminho das Nuvens. Um comportamento tirado do personagem real - que o ator, curiosamente, não chegou a conhecer. A atitude do intérprete baiano de 26 anos revela o seu nível de entrega para compor a verdade desse ex-caminhoneiro, capaz de trilhar mais de 3.000 quilômetros de bicicleta entre a Paraíba e o Rio de Janeiro, com mulher e seis filhos (no filme, reduzidos a cinco), para procurar um emprego "de mil real", como ele diz, em sua linguagem popular. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, Moura recorda os principais desafios para encontrar a chave deste seu sétimo papel no cinema, onde o jovem ator coleciona uma impressionante galeria de personagens, em produções tão diversas como a comédia Deus é Brasileiro e os dramas Carandiru, O Homem do Ano, As Três Marias e Abril Despedaçado.
Cineweb - Qual foi o seu grau de dificuldade para encarnar este personagem que, segundo você mesmo diz, não tem nenhuma semelhança contigo?
Wagner Moura
- Foi o personagem mais difícil que eu já fiz. Primeiro, por essa coisa de ser um pai e eu sempre fui filho. É a primeira vez que eu faço um pai. Não tenho relação nenhuma com crianças. Não tenho sobrinhos, nada. Sou o irmão mais velho, tenho uma irmã de 25 anos e só. E outra era uma questão de idade mesmo, porque o personagem é mais velho do que eu. Não tenho idade para ser pai de cinco filhos.
Cineweb - Quantos anos ele tem, uns 40?
Wagner - Não, bem menos. Acho que uns 34. Ele começou cedo. No Nordeste, isso é muito comum. Ainda hoje as pessoas têm filhos muito cedo, por ignorância, pobreza. Então, com 15, 16 anos, o cara tem dois, três filhos.
Cineweb - E como você procurou o tom exato do Romão?
Wagner - Uma outra dificuldade é que ele é um personagem de sutilezas. Não é alguém explícito assim, a curva dele não é muito clara. Ele começa o filme de um jeito e termina mais ou menos igual. Ele tem um objetivo e vai em frente. Então é uma construção meio linear, fica difícil pontuar. As nuances dele estão num olhar, num gesto. Ele é o contrário do Taoca [seu personagem em Deus é Brasileiro], que requereu um trabalho muito para fora, muito explosivo. Maravilhoso também, mas diferente.
Cineweb - É uma trajetória, basicamente.
Wagner - É, e um filme com poucos diálogos, também. É mais difícil você estabelecer uma atmosfera com poucas falas. É mais difícil defender um personagem assim. Ao mesmo tempo, é mais rico, porque o personagem é mais complexo. Então foi muito difícil mas também muito prazeroso, um trabalho muito denso. Não sei se é o meu melhor trabalho como ator mas com certeza é o mais maduro, o mais pensado, em que eu tive mais controle do que estava fazendo. Precisava ter isso.
Cineweb - Como foi a sua relação com as crianças?
Wagner - Cheguei três semanas antes das filmagens para poder conhecer as crianças. A gente estabeleceu uma relação stanislavskiana. Eles me chamavam de pai, a Cláudia [Abreu] de mãe. A gente tinha um relacionamento de família para dar credibilidade a ela. Quando assisto ao filme, acredito naquela família, naquela relação do Romão com a Rose. Mas a gente tinha de comandar aquela galera dentro e fora do set. Eram todos crianças, não eram nem atores, com exceção do Ravi [Ramos Lacerda].
Cineweb - Como vocês resolveram isso?
Wagner - Ensaiamos muito. Ensaiávamos como se fosse um espetáculo de teatro. A gente passava cenas, depois fazia um "corridão" do filme inteiro. E tinha essa coisa profunda. As crianças até hoje me ligam no Dia dos Pais.
Cineweb - Elas estão muito naturais em cena.
Wagner - Eles são os personagens. Não são atores de comercial de iogurte. Inclusive uma das dificuldades que eu e a Cláudia tivemos foi de que, quando a gente chegou, as crianças já estavam trabalhando há umas três semanas. Levei um susto quando cheguei. Eles eram os personagens. A gente teve de correr atrás para atingir o nível de naturalidade, de espontaneidade que as crianças tinham. É uma câmera acompanhando o dia-a-dia de uma família, o reality show de uma família. Até a estética do filme. A câmera vai por esse caminho.
Cineweb - Vocês gravaram na estrada, debaixo do maior calor. Do ponto de vista físico, o filme exigiu muito de você?
Wagner - Muito. Dei uma emagrecida, perdi uns quilos e comecei a malhar, coisa que eu detesto, lá no Rio, para dar um tônus. Precisava disso, porque o cara anda de bicicleta da Paraíba até o Rio de Janeiro.
Cineweb - Mesmo assim, você gostou de filmar em locação?
Wagner - Foi muito legal. Porque você dá uma mergulhada naquela história e depois não volta para sua casa. Você está ali, fica dentro daquela história o tempo todo.
Cineweb - É muito interessante como o Romão, nessa relação com o filho mais velho [Ravi Ramos Lacerda] mostra um outro lado. Porque o pai é basicamente machão, por formação mesmo. Mas na relação com o filho, ele se mostra bem mais liberal do que a mãe.
Wagner- Porque ele quer que o filho cresça. De todos ali, o Romão é o cara que observa que o garoto está crescendo. Inclusive isso gera o conflito. Ele vê que tem um outro homem crescendo dentro do seio da família dele. Foi muito bacana porque eu vi o Ravi crescer também. Eu "matei" o Ravi no Abril Despedaçado. E agora a gente se reencontrou em outros papéis. E ele é um talento nato, um ator sensacional. Eu sendo um ator mais experiente conversava muito com ele. Ele também está crescendo, como o personagem. A gente falava de coisas de adolescência, tipo pai e filho mesmo.
Cineweb - Você é um dos poucos atores da nova geração com uma imagem mais associada ao cinema e ao teatro do que à televisão. Como você avalia isto?
Wagner - Quando as pessoas vêm falar comigo na rua, dificilmente é um assédio relacionado a um trabalho que fiz na TV. Elas vêm falar comigo, por exemplo, do meu papel em Deus é Brasileiro. Acho legal essa coisa de ter uma cara relacionada à Retomada do cinema no Brasil. Fico orgulhosíssimo!
Cineweb - Você fez bem mais cinema do que TV, não?
Wagner - Eu fiz bastante cinema num período bastante curto de tempo. São sete filmes. Toda a minha história antes foi em teatro, desde os 15 anos, na Bahia. Até que há três anos atrás, vim para o Rio no espetáculo A Máquina, com direção de João Falcão, que trouxe uma galera, Lázaro Ramos, eu e outros. Um espetáculo muito calcado na figura do ator. Então os atores da peça ficaram muito em evidência.
Cineweb - E teatro, você não pensa mais fazer?
Wagner - Nem me fale! Fiz um espetáculo no ano passado, Os Solitários, dirigido pelo Felipe Hirsch, com o Marco Nanini. Mas este é o primeiro ano da minha vida, desde que me tornei ator, que não fiz ainda nada no teatro. Isso pra mim é uma coisa muito estranha.
Cineweb - E televisão?
Wagner - Na televisão, estou terminando Carga Pesada e entrando num projeto novo com o João Falcão, no núcleo do Guel Arraes, que é um programa que vai entrar no lugar de Os Normais. Uma espécie de sitcom chamado Sexo Frágil, com quatro atores - eu, o Lázaro Ramos, Bruno Garcia e o Lúcio Mauro Filho. São quatro caras falando da vida dos solteiros.
Cineweb - Algum filme novo em vista?
Wagner - Com certeza vou filmar novamente com o Vicente Amorim [diretor de O Caminho das Nuvens], no ano que vem. Não sei o quê ainda. A gente tem alguns projetos e estou neles. E tem um filme do Roberto Santucci que eu vou fazer no ano que vem, que está ainda no desenvolvimento de roteiro.
Cineweb - Como você avalia O Caminho das Nuvens?
Wagner - Acho que é um filme importante e representativo da nova cinematografia brasileira. Porque ele é diferente da maioria dos filmes que eu tenho visto. Acho importante fazer alguma coisa um pouco diferente dos que a gente tem visto no Brasil, um pouco mais intimista. No Brasil, você não vê filmes como O Filho da Noiva, por exemplo. O Caminho das Nuvens ainda não é exatamente esse tipo de filme, mas começa a apontar um pouco para esse tipo de história. É o cinema tentando entender que Brasil é esse, da parte para o todo, agora começa a ir pro indivíduo, uma história humana. Acho que no ano que vem a gente vai ver filmes com outras propostas.
Cineweb - Você conhece outros exemplos?
Wagner - Fiz uma pequena participação em Nina, do Heitor Dhalia, uma adaptação moderna de Crime e Castigo, centrada na loucura de uma menina, com histórias em quadrinhos aparecendo. O Roberto Gervitz está filmando aqui em São Paulo um filme interessantíssimo, Jogo Subterrâneo. Li o roteiro, é muito diferente. Então começam a pintar umas coisas que ainda não foram feitas nessa Retomada.
Cineweb-12/9/2003
