Testemunhas ainda vivas ajudam diretor a recontar fuga de Neruda do Chile
O cineasta chileno Manoel Basoalto considera que sua experiência como documentarista exerceu influência em seu longa ficcional “Neruda – Fugitivo”, inspirado num episódio vivido pelo poeta Pablo Neruda quando teve que fugir do país por perseguições políticas. Para realizar o longa, o diretor refez a trajetória de Neruda, chegando a reencontrar algumas pessoas que conviveram com ele naquela época.
- Por Alysson Oliveira
- 11/07/2015
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Por Alysson Oliveira
O cineasta chileno Manuel Basoalto considera que sua experiência como documentarista exerceu influência em seu longa ficcional Neruda - Fugitivo, inspirado num episódio vivido pelo poeta conterrâneo Pablo Neruda. O filme parte de um episódio que o escritor narrou em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1971. No final dos anos de 1940 ele foi eleito senador e foi obrigado a entrar na clandestinidade e fugir do país, pela Cordilheira dos Andes. “A mim, pareceu um momento muito cinematográfico, o tema para um suspense”, revela o diretor em entrevista, em São Paulo. Além disso, foi nesse período que o poeta escreveu alguns de seus trabalhos mais importantes – que estão no livro Canto Geral.
Para realizar o longa, o diretor refez a trajetória de Neruda, chegando a reencontrar algumas pessoas que conviveram com ele naquela época. “Eles não gostam de falar muito do assunto até hoje. São pessoas que vivem isoladas, têm receio. Mas foram elas que me ajudaram a construir o personagem”. Basoalto confessa, no entanto, que este é um filme de ficção – por mais que seja próximo da realidade.
“Neruda cresceu na mesma região do Sul do Chile e, no filme, procurei juntar diversas fases de sua vida a partir desse episódio”. O diretor, que também assina o roteiro, disse que não quis fazer um filme pedagógico, mas transmitir a situação política da época, que afetou muito o país – especialmente a Guerra Fria. “Neruda não é apenas poeta, foi também um político que representa toda uma geração de intelectuais. Era uma geração disposta a lutar pelos seus sonhos. O filme é uma homenagem a essa utopia, a ideia de que é possível mudar o mundo.”
Basoalto também explica que não foi fácil conseguir dinheiro para financiar o filme. “Neruda é uma figura emblemática no Chile, mas também polêmica. Os investidores não queriam bancar o filme por seu tom político, eles preferiam que fosse sobre as poesia de amor dele”. Ainda assim, o diretor conta que o longa fez uma boa carreira em seu país. “A concorrência com o cinema americano não é fácil. Não conseguimos estrear em muitas salas, mas, com o tempo, nosso circuito foi crescendo.”
Além do Chile, o filme foi exibido em diversos festivais pelo mundo, mas o cineasta falou que o país onde a recepção mais o impressionou foi na China. “Foi incrível. Eu achei que não compreenderiam, mas foi uma sessão muito emocionante. Acho que para ser universal é preciso mesmo se falar de sua terra natal”.
