Documentário de Aurélio Michiles traça perfil de coragem do curador Cosme Alves Neto
Em entrevista exclusiva ao Cineweb, o cineasta amazonense (na foto com Eduardo Coutinho) detalha o processo de produção do documentário "Tudo por amor ao cinema", que focaliza o curador e diretor da Cinemateca do MAM-RJ durante a ditadura militar, Cosme Alves Neto.
- Por Alysson Oliveira
- 29/07/2015
- Tempo de leitura 7 minutos
Por Alysson Oliveira
A princípio, o cineasta Aurélio Michiles não pensava que a vida de seu amigo Cosme Alves Netto, que foi, entre outras coisas diretor da Cinemateca do MAM (RJ), poderia render um filme. Porém, quando se envolveu com a ideia do longa, percebeu que seu biografado era muito mais do que ele conhecia. O resultado dessa descoberta está no documentário Tudo Por Amor ao Cinema, que chega ao circuito comercial depois de sua participação no Festival É Tudo Verdade, em 2014. Nesta entrevista, o documentarista fala da sua relação com Cosme, das aventuras e dificuldades de fazer um documentário sobre uma pessoa dessa relevância para a preservação do cinema e das descobertas que fez sobre o amigo.
Como era a sua relação com Cosme?
Apesar de gerações diferentes, nós dois somos amazonenses, ambos saímos de Manaus, ainda jovens. Em Manaus, desde os 13 anos eu gostava de ler os artigos do Cosme Ferreira Filho (pai do Cosme) ao mesmo tempo que iniciava a minha frequência no cineclube de Manaus. Mas não fazia ideia que existia um Cosme por trás daquilo tudo. Quando morei no Rio de Janeiro, (nos anos 70), cheguei a fazer curso de montagem na Cinemateca, a frequentar a programação de filmes, mas nenhuma vez, ao menos não recordo de ter encontrado o Cosme. Foi somente no início anos 80 quando, de volta a Manaus para realizar os meus primeiros documentários Guaraná, Olho de Gente (82) e O Sangue da Terra (83). O Cosme ficou sabendo e entrou em contato comigo, querendo conhecer o “cineasta amazonense” e desde então mantivemos contatos frequentes, ele sempre incentivando, sugerindo. No inicio anos 90, quando realizei Que Viva Glauber!, o Cosme iniciou uma ação sistemática para que eu realizasse um documentário sobre Silvino Santos (1886-1970), o pioneiro do cinema na Amazônia, infelizmente quando já me encontrava em processo avançado para iniciar as filmagens, o Cosme, morre, em 1996.
Como surgiu a ideia de fazer o filme?
O Cosme não constituía um personagem a se transformar num filme-documentário, ao menos para mim. Mas à medida que fui me envolvendo com a ideia, sugerida por outros dois cinéfilos de carteirinha (Rudá Andrade e Thomaz Farkas), fui descobrindo que o Cosme era muito mais do que aquilo que pensava. Para início de conversa, ele deixou suas digitais por todos os lugares onde se respira o cinema. Ele foi responsável pela disseminação dos cineclubes pelo Brasil afora, pelo intercâmbio do cinema entre os países latino-americanos, defendeu com unhas e dentes a busca, a preservação e restauro de filmes raros e muitos deles considerados perdidos para sempre. O Cosme, por exemplo, foi responsável por dar visibilidade à redescoberta de um dos personagens mais importantes do cinema do século XX, estou me referindo a Silvino Santos (1886-1970). Foi ele também quem escreveu o projeto da Lei do Curta (anos 70/80) e muito mais. Guardou clandestinamente na reserva técnica da Cinemateca do MAM filmes que eram perseguidos pela ditadura e por causa disso foi preso e torturado duas vezes (1964 e 1969). Daí termos optado pela narrativa estética-conceitual para contar a sua vida através de curtas cenas de filmes... Como se a vida dele fosse ( e é) formada por aqueles filmes que assistiu e amou. Não poderia ser diferente. Nunca pensei na possibilidade de contar a sua vida como ficção, mas, em todo caso, o cinema é isso...uma narrativa linear ou aleatória, em qualquer sentido cabe um filme. Quanto ao fato de ser amazonense e contar a história de outro amazonense, pode ser uma facilidade, mas também um desafio, exige que se distancie do pulsar provinciano e se pense numa perspectiva cosmopolita do personagem.
Quanto tempo para realizar o filme?
A ideia surgiu em 2006, mas somente em 2008 que decidi formatar o projeto e sair à procura dos recursos necessários para realizá-lo. Em 2009, ganhei um edital da Petrobras Cultural, logo depois o PROAC - Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo…e aí não parou mais. Em 2014, quando estávamos finalizando o filme, ele foi convidado para abrir o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade no Rio. A grande dificuldade e o mais oneroso em todos os sentidos, incluso o financeiro, foi negociar os direitos de imagens e também os direitos conexos (quando nos trechos dos filmes utilizados aparecem atores/atrizes). Este foi um gigantesco trabalho, porque envolve um escritório de advogados especializados neste assunto. Sempre, sobretudo no Brasil, este ainda é um assunto espinhoso. Algumas cenas de filmes tivemos que aguardar dois anos de negociação, em outras, foi impossível. Por exemplo, não nos foi liberado para utilizar nenhum segundo do filme Cantando na Chuva (1953), o filme que o Cosme mais gostava de assistir. Mesmo assim, ele não fez falta, encontramos outra solução.
Como foi feita a seleção das histórias que os entrevistados contaram sobre Cosme?
Todas estas dificuldades são inerentes ao processo de produção de um filme, seja ficção ou como neste caso, documentário. A princípio parte-se de uma ideia, depois fundamentada numa pesquisa de conteúdo e iconográfica,então faz-se uma lista de contatos que pode chegar numa soma de 100 pessoas. Neste caso, não se pode abrir mão de nenhuma. Vai que em algum depoimento destas pessoas revela-se a história fundamental que vai nortear a narrativa do filme. No caso do Cosme, ele foi uma pessoa agregadora, carismática e proativo. Existe um sem-número de pessoas que compartilharam da sua amizade e cada uma delas tem uma história extraordinária para contar. Até hoje recebo e-mails de alguém que quer contar algo que viveu com o Cosme...daí ter denominado essas histórias como “causos-cósmicos”. Ele foi uma pessoa que se doou ao mundo do cinema, tem uma importância enorme na preservação, restauro e
divulgação da cultura cinematográfica ao redor do mundo, sobretudo na América Latina.
divulgação da cultura cinematográfica ao redor do mundo, sobretudo na América Latina.
Quantas horas de material bruto (entre entrevistas, trechos de filmes etc.) você tinha? E como foi feita a montagem ?
Entrevistamos 70 pessoas em diversos países e apenas 34 entraram na montagem final. Mesmo assim, na primeira edição do filme ficou com quase 4 horas. Aí, não havia outra solução senão cortar e cortar. Esta é parte do processo mais dolorosa. Um sentimento de perda, como se estivéssemos cortando uma parte do nosso corpo, mas não podemos nos apegar nisso ou naquilo, temos que chegar a uma montagem que leve em consideração o diálogo permanente com o espectador. Que ele se apaixone pela história como nós estamos apaixonados. Isto é o mais difícil no que se refere ao processo criativo. Agora, o mais difícil mesmo para todos os realizadores do cinema é conseguir chegar com o teu filme no circuito exibidor. Aí, o bicho pega, envolve outros negócios, sobretudo para os documentários.
O que me norteou na montagem do filme foi a própria história de cinefilia do Cosme. Ele, como toda a sua geração, amou o cinema acima de qualquer coisa. Os filmes eram uma espécie de ritual religioso. Mas, no caso do Cosme, ele assume um risco de ser preso, torturado e morto. Mesmo assim, nada disso fez com que recuasse ao território do medo, ao contrário, enfrentou com a paixão pelo cinema.
De todas as descobertas sobre Cosme, qual mais o surpreendeu?
A sua imensa generosidade e solidariedade. Em qualquer lugar ou país onde estivemos, as pessoas tinham algum caso para relatar sobre o Cosme. Apesar da sua aparente discrição, ele não passava despercebido.
