06/06/2026

O cinema político de Miguel Gomes em “As Mil e Uma Noites”

Atração da Quinzena dos Realizadores de Cannes e também da Mostra de SP 2015, o novo filme do talentoso cineasta português, "As Mil e Uma Noites" usa a moldura da história tradicional para retratar aspectos da realidade portuguesa hoje, com humor, melancolia e ternura.

Sem dúvida, as sessões conjuntas da trilogia As Mil e Uma Noites, do português Miguel Gomes, foram, nas palavras de Renata de Almeida, diretora da Mostra, “o filme-evento da Mostra”. Durante uma dessas maratonas, o cineasta, ao apresentá-la, no entanto, não parecia concordar. “Vocês são doidos”, dizia com humor ao público. No fundo, ele sabe que os filmes já não são mais seus, e que o público os verá como achar melhor.

Ele mesmo não planejava, inicialmente, uma trilogia. “Fiz um contrato com os produtores franceses para fazer um filme que não poderia passar de 3h30”, disse em entrevista ao Cineweb em São Paulo durante a Mostra. “E, no final, entrego três filmes de 2 horas”, diverte-se. Gomes conta que a liberdade para criar e o tempo que teve foram fundamentais. “Foi cerca de um ano para pesquisa, escrita, filmagem. Tentei fazer o máximo de histórias possíveis. Mas não sabia o que poderia sair. Nos primeiros seis meses, não sabia se teria um filme”.

A trilogia é chamada de As Mil e Uma Noites, com cada um seguido de um subtítulo: O Inquieto, O Desolado, e O Encantado. O clássico da literatura, conforme diz um letreiro em cada filme, serve apenas como uma base estrutural. As histórias são todas originais, roteirizadas pelo diretor, em parceria com Mariana Ricardo e Telmo Churro, e inspiradas em fatos reais que aconteceram em Portugal.

O longa também transita entre o documental e a ficção. Essa foi a maneira de Gomes captar o momento de austeridade e opressão da sociedade portuguesa. “Reagi ao fato de Portugal estar num período difícil, de crise econômica que virou social. No fundo, os verdadeiros personagens do filme são os portugueses”. O diretor concorda que este é um filme político, e não tinha como não o ser. “Filmar é como viver em Portugal, tenho que colocar a crise em cena”. Mas ele ressalta que não se trata de um cinema panfletário. “Se fosse militante, estaria apontando caminhos. E não estou, porque não sei. Ninguém sabe, nem os políticos, nem os economistas, por isso filmo o mundo como ele está. Sem rumo”.

Gomes conta que começou a montar o filme pela história dos passarinheiros, que acabou sendo a conclusão da trilogia. “Foi aí que encontrei o caminho. Primeiro descobri onde iria chegar, aí refiz o percurso e organizei como deveria ser”. Esse segmento mostra um grupo de homens que se dedicam a criar tentilhões para concursos clandestinos de canto. O diretor descobriu tal competição no Youtube e ficou fascinado. “Eram todos homens com ar de presidiários, que podiam estar num filme do Scorsese dos anos de 1970. Mas estavam todos em silêncio ouvindo passarinhos cantar. Achei lindo”.

Um desses passarinheiros, Chico Chapa, acabou protagonizando um dos episódios do segundo volume, no papel de Sem Tripas, um famoso bandido que matou a mulher e filha, fugiu por dois meses e, quando foi preso, acabou ovacionado pela população por ter desafiado a lei. “É uma coisa absurda, e ficou muito famosa em Portugal”.

As outras duas partes deste longa são protagonizadas por uma atriz veterana de teatro, Luiza Cruz, e um cachorro espanhol, Lucky, no filme chamado de Dixie. “Precisei de métodos diferentes para cada um. Não é possível trabalhar do mesmo jeito com todo mundo. No caso do Sem Tripas, eu não queria um ator experiente porque ele estaria consciente da câmera o tempo todo. Já o cachorro, tivemos de importar da Espanha, não havia nenhum em Portugal que pudesse fazer o filme. E ele só respondia a três comandos: quieto, vai e coloca na boca. Dirigi o cão só com essas três ordens”.

Outro fator de peso na construção das narrativas em As Mil e Uma Noites é a trilha sonora, que inclui sucessos pop dos anos de 1980 – como Adrian Gurvitz, Lionel Ritchie e a banda Century – além de clássicos da MPB cantados por Tim Maia, Secos e Molhados e Novos Baianos. “As músicas entraram porque eu gosto, pelo simples prazer das canções. Havia também uma de Roberto Carlos, mas teve de ser substituída porque não conseguimos os direitos”.


A primeira parte da trilogia chega aos cinemas brasileiros nessa quinta, e os demais filmes estão previstos para estrear nas próximas semanas.