06/06/2026

Diretor e atores discutem fronteira entre comédia e drama em “De Onde Eu Te Vejo”

Estrelada por Denise Fraga e Domingos Montagner, a comédia dramática dirigida por Luiz Villaça procura um equilíbrio entre várias emoções, valorizando a cidade de São Paulo como um personagem na trama.

Por Nayara Reynaud

Uma das afirmações destacadas em De Onde Eu Te Vejo, de que as melhores comédias são as tristes, diz muito sobre a essência do próprio longa de Luiz Villaça. Remetendo a Charles Chaplin, o cineasta acredita que “um grande drama de perto, pode ser uma boa comédia de longe” [originalmente, o diretor e intérprete do Carlitos disse que “a vida é uma tragédia quando vista de perto e uma comédia quando vista de longe”]. Por isso, declara que seu filme foi feito para se comunicar com o público: para fazer rir, se emocionar e “pra você sair do cinema e dar um beijo no seu namorado”, brinca.

Para encontrar este equilíbrio de emoções, ele buscou inspiração em Billy Wilder, a quem cita explicitamente quando Fábio, personagem de Domingos Montagner, assiste, em seu notebook, a Se Meu Apartamento Falasse (1960). O próprio Chaplin, Ettore Scola e seus amigos italianos Federico Fellini e Mario Monicelli também balancearam drama e comédia, servindo de exemplo, assim como Woody Allen e seu jeito único de filmar Nova York. Aliás, o diretor confirma a sua homenagem à sétima arte aqui; vide a inserção do Marabá, icônica sala de cinema do centro de São Paulo reaberta há seis anos e uma das poucas que podia ser usada nas gravações. “O cinema tem essa força de fazer você repensar a sua vida”.

Montagner também destaca a qualidade da comédia italiana para tocar em assuntos sensíveis através do humor, ingrediente capaz de tornar um personagem crível. O ator crê que drama e comédia são “complementares, pois o exercício de um passa pelo outro”, enquanto sua colega de cena, Denise Fraga, que encarna sua ex-mulher Ana, cada vez mais odeia essa divisão entre os gêneros. A atriz cita Antunes Filho, que disse, certa vez, que “o comediante faz muito bem o drama porque sabe bem a música”, para explicar esse conhecimento profundo do timing e sua preferência por esse terreno do meio: “É fazer uma pessoa que está com olho cheio d’água dar uma gargalhada e uma pessoa que está rindo dar uma travinha”.

Foi para Denise, aliás, que o filme começou a ser escrito, explica o marido Villaça. Para fazer companhia à parceira de tantos anos na vida e nas artes, ele logo pensou no Domingos, já que acompanhava sua carreira desde o Circo Zanni. No casting, o diretor também contou com Marisa Orth, com quem trabalhou em seu primeiro longa, Por Trás do Pano (1999) e por quem se diz encantado, além de fazer homenagens colocando “o Juca [de Oliveira] como um guardião do cinema, o Fúlvio [Stefanini] numa cantina e a Laura [Cardoso], que é um mito das artes no Brasil, como uma senhora solitária”. Luiz frisa que na turma de amigos que é seu elenco, todos vêm da comédia, pois ele acha que “os comediantes são os grandes atores”.

As pessoas na janela e as janelas da cidade
“Esse casal que precisou se ver de longe pra se ver de perto”. É assim que Denise define o processo pelo qual Ana e Fábio passam com a separação, sem deixar de observar a comicidade que permeia situações como esta: “Nós somos mesmo ridículos nessa falta de percepção de nós mesmos”. Considerando que o casamento é um “grande exercício de escuta e de observação de quem está do seu lado”, Domingos enxerga nos personagens, um amor muito sólido e verdadeiro. Mas como a angustiada mulher tem “mania de mudança”, segundo a própria atriz, a relação de 20 anos chega ao fim no momento em que a vida mostra que muda naturalmente.
Por outro lado, se não fosse a química tão natural entre os atores, o casal não transmitiria tanta sinceridade, nem a família funcionaria tão bem. Fraga, que já interpretou a mãe de Manoela Aliperti em 3 Teresas (2013-2014) – que poderá ter uma 3ª temporada, segundo Luiz –, ficou com medo de um replay das personagens Tetê e a Teresa de novo em cena, mas logo se tranquilizou. “É tão bonito ela, tão jovem, não se repetir. Fazemos outra mãe e filha”, elogia a atriz, que considera Manu uma pérola.

Um mês de ensaio ajudou Montagner a criar um laço rápido com a jovem e fez com que a primeira cena que eles gravaram, em que os pais se despedem da filha, que acabaram de deixar em uma república estudantil em Botucatu, passasse tanta credibilidade. O curioso é que a última sequência filmada foi justamente a inesquecível volta para casa de carro dos dois. “Cinema é uma coisa muito louca”, diz Denise, ao falar da necessidade de não perder o fio da emoção nessa ordem maluca e ritmo frenético do set.

Contudo, o mais impressionante da produção são seus discretos efeitos especiais, que não são “para aparecer mais do que a história”, declara Villaça. As cenas no interior dos imóveis foram gravadas em estúdio, com o cuidado dos 16 metros de vão entre os edifícios e, depois os apartamentos foram aplicados nos dois prédios, já que seria inviável parar uma rua durante um mês e meio. Ainda sim, seu maior desafio, junto com Leonardo Moreira e Rafael Gomes, dupla de roteiristas que o acompanha desde suas séries no GNT, 3 Teresas e Vizinhos (2015), foi “fazer uma comédia romântica sentimental” falando de separação, da síndrome do ninho vazio, da crise da mídia impressa e da transformação urbana de São Paulo.

A capital paulista é personagem do filme, mas poderia ser qualquer outra cidade grande, segundo o diretor. A escolha se deve ao fato do paulistano ser de família italiana e ter uma relação muito forte e antiga com a megalópole, que adora pela miscigenação. Assim como seu protagonista, também sentiu o fato da maternidade em que nasceu ter ido para o chão, mas Luiz tem uma visão mais otimista da dinâmica do lugar. “Quando fiz O Contador de Histórias (2009), o marido da Maria de Medeiros é um espanhol diretor de arte [Agustí Camps] que teve aqui em São Paulo e, um dia comigo no carro, ele falou ‘Nossa! Como essa cidade é linda!’. Perguntei o que ele achava bonito e ele disse “O movimento, porque eu moro em Paris, que é linda, mas é igual há 500 anos. Aqui, cada vez que eu venho, vejo alguma coisa crescendo; é uma cidade que respira”, relembra o cineasta.

Denise vê nesse movimento de construção e demolição um paralelo com a vida da personagem, uma arquiteta que avalia prédios para demolir. Com exceção do misticismo, Ana traz muitas semelhanças com a própria atriz, também uma carioca que mora há quase 20 anos na selva de pedra paulistana. “Quando eu cheguei a São Paulo, era a primeira vez que morava sozinha e achava tudo lindo, aqueles edifícios cheios de fuligem”, recorda Fraga, que declara nunca ter perdido esse olhar de estrangeira para a cidade. “Mas é claro que o Luiz me fez achar São Paulo mais bonita”, brinca.

Já Montagner cresceu no bairro do Tatuapé, quando tinha ares de interior nos anos 1960/70. “Então, eu tenho essa história de falar com o outro da janela muito”, confessa o ator, que costumava chamar os amigos assim. Daqueles que brigam quando falam mal da cidade, Domingos acredita que, apesar de vender essa imagem de frieza, a capital paulista é muito acolhedora, pelo que observa dos amigos que mal chegam aqui e “em uma semana já fazem um churrasco”, e se tornou mais humana. Para ele, São Paulo é muitas cidades, cada bairro com a sua cara, e “o filme dialoga com essa qualidade dela, que é ser múltipla e acolher as pessoas”.