24/07/2026

Philip Noyce toca numa ferida do passado australiano

O diretor australiano Philip Noyce deixou temporariamente de lado o porto seguro de Hollywood, onde pilotou sucessos como Perigo Real e Imediato, O Santo, O Colecionador de Ossos e Jogos Patrióticos para reencontrar-se com suas raízes em "Geração Roubada", exibido na 27ª Mostra BR de Cinema.

O filme, que fez a segunda maior bilheteria na Austrália em 2002 (perdeu apenas para outro filme australiano, Cracker Jack", calou fundo na consciência daquele país ao recontar uma história nada edificante, ocorrida entre os anos 1880 e a década de 1970 - a separação forçada de crianças mestiças de suas famílias originais, transferindo-as para instituições onde eram obrigadas a abandonar sua língua e cultura, sendo depois entregues a famílias brancas, numa tentativa de promover um "branqueamento" gradativo da população.

Noyce, de 53 anos, ficou tão impressionado com o tema, colhido num livro escrito por Doris Pilkington Garimara, filha de Molly Craig, que, nos anos 1930, fugiu de uma dessas instituições, que desistiu das filmagens de A Soma de Todos os Medos, uma superprodução com orçamento de US$ 120 milhões. Tudo para dedicar-se inteiramente a este projeto pessoal, que custou apenas US$ 3 milhões, já que astros como o ator Kenneth Branagh e o músico Peter Gabriel trabalharam por "quase nada", e onde Noyce sabia que estava entrando no terreno da polêmica.

"Há um movimento em meu país para negar tudo que aconteceu. Até o atual governo declarou que o livro e o filme retratam mentiras", afirmou Noyce, em visita a São Paulo como convidado da 27a Mostra BR de Cinema. Ele atribui essa negação a "movimentos de extrema direita" e sustenta que, em 1997, o episódio foi avaliado por uma comissão de juízes e o relatório final considerou como "genocídio" a separação das famílias nativas. Ele mesmo considera essa decisão como histórica: "Foi um desafio a essa visão amena que a Austrália tem de si mesma. Se você viu Crocodilo Dundee, sabe muito bem do que estou falando".

O pronunciamento dos juízes, porém, não serviu como base para obter indenizações aos aborígenes que pleitearam ressarcimento pelos danos sofridos. Noyce assegura que houve pelo menos quatro ações nesse sentido e todas foram negadas. "A justiça considerou que os pais haviam dado consentimento para que seus filhos fossem levados, mostrando papéis que eles teriam assinado. Mas essa 'assinatura'não passava de um 'X'. Talvez eles nem mesmo compreendessem inglês", destaca.Para ele, ainda que os pais tivessem autorizado realmente a ida dos filhos, poderiam tê-lo feito no entendimento de que as crianças seriam educadas. "Nunca poderiam imaginar que seus filhos seriam ensinados a odiar a própria cultura ou que nunca mais voltariam para casa. Era tudo parte de um projeto para exterminar a raça negra", sustenta o diretor.Uma prova cabal do quanto as novas gerações foram realmente privadas de sua cultura vem do fato de que as próprias atrizes mirins, todas amadoras, que interpretam as três protagonistas - Everlyn Sampi, Tianna Sansbury e Laura Monaghan - não sabiam falar a língua nativa. "Elas são filhas dessa ´geração roubada´", acentua Noyce. Assim, elas tiveram de aprender algumas frases para fazer o filme. Rebelde como sua personagem, a protagonista Molly (Everlyn Sanpi) chegou a fugir duas vezes antes mesmo de o filme começar. O diretor não se abalou com isto, muito pelo contrário: "Ela tem um saudável desrespeito pelas figuras de autoridade, como diretores de cinema. Não me obedecia, contestava muito e por isso fugiu. Isto me convenceu de que era perfeita para o papel!".

O cineasta ficou tão envolvido com o tema que pretende proximamente voltar a ele. Por coincidência, a exibição de Geração Roubada na Austrália levou ao encontro de Annabelle Craig, a filha de Molly, que havia sido retirada do convívio da mãe pelo governo há três décadas. Nesse próximo trabalho, Noyce pretende contar a história deste reencontro na mesma família que foi objeto do filme anterior.

Cineweb-21/10/2003