Tsai Ming-liang faz filmes para expressar seus sentimentos
- Por Luiz Vita
- 27/10/2003
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O diretor malaio radicado em Taiwan, Tsai Ming-liang, homenageado pela 27ª Mostra BR de Cinema com uma retrospectiva de alguns de seus principais filmes, comemorou nesta segunda-feira, com um passeio pelo centro de São Paulo, seu 46º aniversário. Despojado, de muito bom-humor, Ming-liang não se parece em nada com os personagens de seus filmes, homens e mulheres solitários, incapazes de se comunicarem ou demonstrarem seus sentimentos e necessidade de afeto. "Ganhei hoje com este passeio um belo presente de aniversário. São Paulo se parece muito com minha cidade-natal, Kuching, na Malásia." Seu novo filme, Adeus, Dragon Inn, em exibição nesta 27ª Mostra, é uma nova abordagem sobre seu tema recorrente - a solidão humana -, sempre sob a perspectiva de um presente sem grandes atrativos e a nostalgia de um passado que parece ter sido mais auspicioso. "Faço filmes para expressar o que sinto. Quando inicio um projeto não penso no público ou como vou conseguir levantar dinheiro para a produção. Faço filmes sobre o que sinto ou o que vejo ao meu redor. Só depois de pronto é que penso qual poderá ser a reação do público", afirmou.Em Adeus, Dragon Inn, a história gira em torno de vários personagens que estão num cinema, se abrigando da chuva forte, para ver a última sessão do filme Dragon Inn, um clássico de 1966 do cinema de Taiwan. A sala é imensa mas pouco mais de cinco pessoas se encontram para aquela sessão nostálgica. Três são gays e estão em busca de sexo, apesar de não conseguirem realizar seu desejo; dois são velhos atores do filme, se reencontrando com o passado, além de uma criança e uma única mulher com roupa espalhafatosa. Fazem parte dessa galeria humana a faxineira e o projecionista. Como sempre nos filmes de Ming-liang, toda a ação é conduzida praticamente sem diálogos, com vários sons vindo do próprio filme em exibição. As cenas de ação, com muitas lutas marciais e mortes a golpe de espada, contrastam com a vida que se arrasta no interior da sala. "Filmo há 12 anos, sempre com o mesmo ator [Lee Kang-Sheng], e nunca tenho uma história completa. Inclusive há quem diga que o que eu faço não é cinema. Mas, afinal o que é o cinema?", indaga o diretor. Ming-liang diz que lança informações para que o espectador reflita sobre o que está vendo, sobre sua própria vida e o futuro. "As imagens têm um sentido, uma função. Quero que as pessoas olhem para elas e reflitam sobre o que eu quis expressar", afirma. Ming-liang nasceu na Malásia e foi viver em Taiwan quando tinha 20 anos. Fez seis longas e um curta-metragem e hoje é um dos diretores orientais mais prestigiados no circuito dos festivais europeus. Em 1994, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza com Vive l'Amour. "Não me preocupo em ganhar prêmios ou dinheiro com meus filmes. Quero apenas dizer o que sinto."
