O lado zen de Viggo Mortensen
- Por Neusa Barbosa
- 07/11/2003
- Tempo de leitura 5 minutos
Um dos protagonistas da trilogia O Senhor dos Anéis, o ator americano Viggo Mortensen, está em São Paulo para o lançamento do terceiro e último capítulo da saga, O Retorno do Rei - que tem estréia brasileira marcada para 25 de dezembro. Na vida real, o intérprete do energético herói Aragorn é inteiramente diferente do seu personagem, ou seja, é calmíssimo, tem uma voz baixa e tranqüila e não demonstra a mínima agressividade ou pressa para responder às perguntas em suas entrevistas. Ele recebe os jornalistas, individualmente ou em pequenos grupos, numa sala do Hotel Hilton Morumbi, em São Paulo, vestindo um costume cinza-claro, com uma camiseta do mesmo tom e debrum azulado por baixo do paletó, tomando calmamente seu mate argentino de uma bombinha idêntica à usada pelos gaúchos para beber chimarrão. Um costume que guarda dos tempos em que morou na América do Sul, entre a Venezuela e a Argentina - dos 2 aos 11 anos de idade -, quando aprendeu a falar espanhol. Nas entrevistas, porém, ele prefere falar mesmo o seu inglês de nova-iorquino nascido em Manhattan (em 20 de outubro de 1958). Com toda essa calma, ele não se mostra um astro cheio de exigências na visita ao Brasil. Repete apenas que não se façam fotos durante as entrevistas. Mesmo quase quatro anos depois de integrado ao elenco da saga criada pelo escritor J.R.R. Tolkien, Mortensen ainda se espanta com todo o assédio que tomou conta de seu cotidiano, bem como com a visão de sua imagem em cartazes, roupas e toda espécie de produtos que fazem parte do merchandising da popular trilogia em todo o mundo. "É estranho, como indivíduo, se ver reproduzido dessa forma. Se você olhar todo este fenômeno fora de contexto, ou de outro planeta, poderia até pensar: 'O que é isto, alguma espécie de culto religioso?' Porque nos olham como se fôssemos sacerdotes ou algo assim".Sobre o fato inegável de que milhares de fãs em todo mundo vêem, sim, a saga de Tolkien como uma espécie de religião, o ator não está tão preocupado. "Estou consciente do alcance que isto assumiu na vida de alguns indivíduos, o que é interessante - na melhor das hipóteses - ou alarmante, se você quiser. Mas não me parece que isso seja mau por princípio ou necessariamente autodestrutivo", argumenta. Para ele, esta ligação profunda dos fãs ultrapassa o filme e o livro, atingindo "os arquétipos rituais e mitológicos que são parte de todos nós e te remetem a histórias que você ouviu quando criança".O fato de Aragorn ter-se tornado um personagem de videogame desde 2002 também faz Viggo sentir-se "estranho", embora isso tenha deixado feliz o filho do ator, Henry, de 15 anos. Mesmo que tenha jogado algumas vezes com o filho, o ator admite que não é um grande fã nem de videogames nem de televisão (que ele nem tem em sua casa). "Não tenho nada contra isso (TV e games), mas pessoalmente prefiro fazer outras coisas. A vida é muito curta e não gosto de passar muito tempo com isso", afirma. O ator hesita para escolher a cena mais difícil que interpretou na trilogia. Mas finalmente concede que foi uma seqüência em que seu personagem tem visões de várias pessoas mortas. Em seguida, brinca com a situação, remetendo à famosa fala do menino do filme O Sexto Sentido: "Aragorn vê pessoas mortas mas Viggo nunca viu nenhuma. Por isto a cena foi um desafio". Comparando seu personagem a si mesmo, o ator diz: "Aragorn também é calmo. Ele é um otimista. Escolhe suas batalhas cuidadosamente e suas palavras também". E faz uma confissão inesperada: "Queria ser assim o tempo todo também. Não escolho minhas palavras com tanta sabedoria muitas vezes". Perguntado sobre a possível leitura da trilogia O Senhor dos Anéis como belicista, por mostrar uma infinidade de batalhas, Viggo torna-se mais sério e faz uma análise do contexto em que o livro foi escrito: "Sempre foi assim na História. O próprio Tolkien estava muito preocupado que Hitler e seu ministro de Propaganda usassem erroneamente uma tradição que Tolkien admirava muitíssimo, a literatura e a mitologia nórdica e norte-européia, para justificar ações que eram contrárias ao espírito daquelas tradições. Ele se preocupava porque tinha estudado muito aquela tradição e sabia o dano irreparável que um mau uso como esse poderia fazer". Na opinião de Mortensen, os filmes dirigidos por Peter Jackson "de alguma maneira restauram o valor dessa tradição". Ainda assim, ele entende que "muitas pessoas, consciente ou inconscientemente, tiram conclusões apressadas ou fazem conexões superficiais, inclusive em relação a estes filmes, tentando justificar a invasão anglo-americana do Iraque, comparando a Irmandade do Anel à América e todas aquelas tropas de pele escura e totalmente malvadas aos iraquianos, como se fosse uma reedição das Cruzadas". Para ele, esse tipo de comparação é "totalmente absurda, além de uma apropriação indevida da história de Tolkien". Também fotógrafo, poeta e músico, Mortensen acaba de gravar um novo CD, Pandemonium from America, ao lado de três dos intérpretes dos hobbits da trilogia, os atores Elijah Wood, Dominic Monaghan e Billy Boyd, num trabalho que teve também a participação de Bucket Head (ex-guitarrista do Guns & Roses). O CD, que tira seu nome de um poema de William Blake, estará nas lojas americanas dentro de suas semanas. No cinema, o próximo trabalho do ator é "Hidalgo", uma aventura dirigida por Joe Johnston em que Mortensen interpretará Frank T. Hopkins, um dos mais famosos cavaleiros de longa distância da história. A produção, que tem estréia internacional prevista para 2004, permitirá que Mortensen demonstre, mais uma vez, seus dotes na equitação, um esporte que ele pratica assiduamente.Cineweb 7-11-03
