Samuel Jackson, o ator das mil faces
- Por Neusa Barbosa
- 20/12/2003
- Tempo de leitura 7 minutos
Texto e fotosTodo vestido de preto, um inseparável boné da mesma cor cobrindo a cabeça cuidadosamente raspada, o ator Samuel Jackson passou pelo Rio de Janeiro em outubro. Veio lançar um de seus últimos trabalhos, Violação de Conduta (Basic), de John McTiernan, onde interpretou o sargento West - um dos vilões mais malvados de uma carreira extremamente versátil, que entrou em ascensão a partir de Gator Purify, o personagem drogado de Febre na Selva - premiado no Festival de Cannes. Depois disso, subiu mais com o gângster atrapalhado Jules Winnfield de Pulp Fiction - Tempo de Violência, de Quentin Tarantino - que lhe deu uma indicação ao Oscar - e garantiu-lhe prestígio bastante para ganhar o papel do jedi Mace Windu, uma das figuras mais míticas da trilogia de prequel da cinessérie Star Wars. Nesta entrevista, concedida num dos elegantes salões do Copacabana Palace, Jackson não se furtou de nenhum tema. Falou de sua carreira, de seu ceticismo diante da militância política, defendeu a posse individual de armas e não se esquivou de dar opiniões sinceras de sobre os diretores Lucas, Quentin Tarantino e Spike Lee. Com a palavra, o ator das mil faces.Cineweb - O Oscar dado a Denzel Washington e Halle Berry mudou o panorama para os atores afro-americanos em Hollywood?
Samuel Jackson - Não. Hollywood sempre foi e sempre será uma máquina de fazer dinheiro. Se você consegue dar-lhes lucro, sempre terá o seu lugar garantido por lá. Esperamos que mais pessoas de outras origens étnicas possam entrar nesse jogo.Cineweb - Em "Violação de Conduta", você trabalhou com John Travolta pela segunda vez. Como foi este reencontro?
Jackson - Somos bons amigos e nos divertimos juntos. Mas desta vez nos vimos muito pouco no set. Temos muitos amigos em comum e uma grande química em cena. Queremos muito fazer outros filmes no futuro. John é um grande profissional. Quando ele está associado a um projeto, você quer fazer parte dele. Cineweb - Hoje muitas pessoas fazem restrições a filmes violentos produzidos por Hollywood. Como você vê essa polêmica?
Jackson - Hollywood sempre fez filmes violentos, desde sua origem - e as pessoas vão vê-los. As pessoas são entretidas por coisas que não têm nada a ver com o modo como vivem. Nada do que você vê na tela é sua vida, mas você se diverte. Nos sentimos seguros na sala escura. É ali que as pessoas escapam de seu dia-a-dia. No final, todo mundo sai ileso da sessão. Não vejo nada de errado nisso. Nem todo filme é uma história de amor. Cineweb - Você é a favor da liberdade de porte de armas?
Jackson - Eu mesmo tenho armas em casa e não vejo nenhum mal nisso. Cresci no sul dos EUA, onde todo mundo tem armas para sua autodefesa. Cineweb - Você é conhecido pela versatilidade de seus papéis. Como você os escolhe?
Jackson - Vim do teatro, onde já procurava interpretar vários personagens diferentes. Desde o começo, encarei o cinema como uma grande arena, onde as oportunidades aumentariam e eu poderia continuar não ficando parado num único tipo de papel. Procurei sempre a diversidade Acho que a razão pela qual as pessoas vêm assistir a meus filmes é porque não criei uma "caixa" para mim mesmo. Cabe ao ator não cair nessa armadilha. Cineweb - Mas há atores que se dão muito bem, até financeiramente, por fazerem sempre os mesmos papéis.
Jackson - Com certeza, vários colegas ficaram famosos e ganharam muito dinheiro fazendo sempre a mesma coisa. Eu não fico feliz assim e meu agente sabe disso. Leio vários roteiros e leio tudo mesmo - até papéis que originalmente foram pensados para mulheres. Minhas escolhas, afinal, baseiam-se nesta pergunta: "este personagem é um desafio para mim?". Cineweb - Você tem atuado ultimamente também como produtor. Que fatores o levam a desejar produzir um filme?
Jackson - Vejo muitos filmes, sempre vi. E já tive várias fantasias cinematográficas sobre coisas que queria assistir no cinema. Como produtor, meu critério é outro. Penso se pagaria o preço do ingresso para assistir ao filme e também se é um projeto que algum estúdio recusou por não ter entendido o conceito do filme que se queria fazer. Cineweb - Foi esse o caso de "Visões de um Crime" (Caveman´s Valentine)?
Jackson - Sim. Foi o tipo do filme para o qual tive de garimpar parceiros por anos até conseguir realizá-lo. Cineweb - Quais as suas referências de cinema brasileiro?
Jackson - Vi recentemente "Cidade de Deus". Anos atrás, vi "Pixote". Agora, quero muito ver "Madame Satã". Sempre que posso, assisto a filmes estrangeiros. Não tenho nenhum problema com filmes legendados. Cineweb - O que você pensa do engajamento do artista? Acha que pode mudar mesmo alguma coisa?
Jackson - Pessoalmente, não gosto da idéia de que as pessoas considerem tudo que dizemos tão importante, porque somos apenas pessoas como todo mundo. E algumas pessoas se aproveitam disso para patrocinar seus pontos de vista políticos. Não acho que devamos fazê-lo. Somos apenas atores. Basicamente, atuamos a partir de roteiros escritos por outras pessoas. E, a menos que façamos filmes políticos todo o tempo, entendo que não deveríamos assumir posições sobre como o mundo deveria ser. Ganhamos quantidades monumentais de dinheiro fazendo coisas frívolas, apenas histórias que outras pessoas inventam. Daí, abRaçar posições sobre como uma pessoa deveria se comportar ou sobre como o mundo deveria ser dirigido não me parece correto. Não faço isso. Tenho opiniões, é claro, mas costumo exercê-las na cabine de votação. Esse me parece o local adequado. Depois, espero que meu candidato vença, é tudo que posso fazer. Acho errado fazer propaganda de um candidato e levar alguém a votar nele porque gosta de mim. Cineweb - Você toca algum instrumento?
Jackson - Sim. Cresci tocando trompete e flauta e ainda toco. Recentemente aprendi a tocar violoncelo para um filme (o inédito "The House on Turk Street/No Good Deed", uma história de Dashiell Hammett) e gostei muito. Cineweb - Você costuma ler críticas?
Jackson - Sim. Ao contrário de muitos colegas, leio críticas e revejo meus filmes. Observo meu trabalho. Sobre os críticos, só uma coisa me intriga - eles nunca nos perguntam se fizemos aquilo que o diretor nos pediu. Muitas vezes, somos culpados por coisas são erros dos diretores e não nossos. Cineweb - Muitas pessoas ainda o abordam para falar de "Pulp Fiction". Isso o incomoda?
Jackson - Não, nem um pouco. É ótimo fazer parte de uma coisa que as pessoas lembram com tanto carinho. Há atores que têm toda uma carreira e as pessoas não se lembram de nada do que fizeram. Eu não. Pelo menos doze vezes por semana alguém me pergunta alguma coisa sobre o sanduíche que eu comia em "Pulp Fiction". O que é muito gozado, porque todas as respostas estão no filme.Cineweb - Você não faz muitas comédias nem filmes românticos. Não te oferecem esse tipo de projetos ou é você quem não os aceita?
Jackson - Não recebo mesmo muitos roteiros desse tipo. Tendo a pensar que a maioria dos meus personagens têm um sentido de humor interessante. E às vezes espero que, como as pessoas vêem isso, alguém me ofereça uma comédia, porque eu tenho senso de humor.Cineweb - Tenho certeza que sim, por isso perguntei.
Jackson - Pois é. Não leio muitos scripts cômicos interessantes. As poucas que fiz às vezes tiveram o problema de que os diretores tentaram impor humor a cenas que não precisavam. Recentemente produzi uma comédia, "Baladas, Rachas e um Louco de Kilt", de Ronny Yu. Foi divertido fazer essa. Também filmei na África do Sul "Country of my Skull", um drama bastante romântico onde tenho uma ligação com Juliette Binoche. Estou começando. Ainda não estou velho para papéis românticos! (risos) Cineweb - O papel de Gator Purify em "Febre na Selva" foi um divisor de águas em sua carreira. Orgulha-se deste papel?
Jackson - Com certeza. Foi o tipo de papel que me fez ter consciência de porque eu estava nesta profissão. Também acarretou uma grande mudança na direção da minha carreira. Cineweb - Você trabalhou com diversos diretores. Qual foi o mais desafiador?
Jackson - "Desafiador" é uma palavra dúbia. Pode ser alguém que te leva a uma superação ou o tipo do cara de quem você diz: "Nunca mais trabalho com ele!". Tenho uma lista destes últimos...Cineweb - Mas o sentido que eu pensava para "desafiador" era positivo.
Jackson - Quentin Tarantino, com certeza. Ele é o tipo de diretor mais heterodoxo que se pode encontrar. O sujeito é maluco! É divertido vê-lo em ação. George Lucas pode ser interessante também porque ele está lá e fica quieto, quieto (faz uma cara sisuda). Também não sou o tipo de cara que fica esperando elogios. Faço meu trabalho e vou em frente.
