24/07/2026

Manifesto contra a servidão humana em nome de Deus

Baixo, forte, pele muito clara e olhos azuis, físico ligeiramente atarracado, o escocês Peter Mullan poderia muito bem ser um zagueiro da seleção de seu país. Como ator e diretor, porém, ele tem o perfil de um atacante daqueles aguerridos, repletos de estilo mas que não tiram por um segundo o olho de sua meta e não param diante de obstáculo algum. Simpático, aberto e sem papas na língua, exprime-se num vocabulário recheado de palavrões, recitados espontaneamente, e nenhuma culpa - embora seja nítido que não tenha nenhuma intenção de ofender ninguém, nesse caso.


Peter Mullan em cena do filme "Meu Nome é Joe", de Ken Loach

Quando se trata do conteúdo de Em Nome de Deus, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2002, porém, ele não tem nenhum prurido em ferir suscetibilidades. Não se incomodou com as reações da Igreja Católica, a irlandesa e a italiana, que chegaram aos jornais ainda durante aquele festival, ainda mais diante das declarações do diretor à imprensa, comparando as religiosas retratadas em seu filme ao Talebã afegão. Mullan não esconde que pretendeu mesmo ser contundente ao recontar a história das milhares de mulheres que viveram dias de horror nas lavanderias das freiras da irmandade de Santa Maria Madalena, num período tão recente quanto dos anos 60 aos 90. O ator-diretor é, por isso, a própria imagem e semelhança da coragem e desenvoltura que fundamentam esta que foi a maior bomba de efeito moral do festival e um dos maiores petardos cinematográficos deflagrados nos últimos tempos contra a Igreja Católica, fazendo boa companhia a Amém, manifesto assinado pelo diretor Costa-Gavras contra a omissão do Papa Pio XII diante do massacre nazista.

Mullan descobriu o tema de Em Nome de Deus em 1998, quando o Channel 4 inglês o abordou num documentário. Imediatamente apaixonou-se pelo tema e passou a pesquisá-lo, entrando em contato com ex-internas. Os relatos o arrepiaram e são eles que permeiam o filme - uma profusão de situações de abuso, violência física, exploração e humilhação. Uma ex-freira, Phyllis McMahon, concordou em atuar no papel de uma religiosa, fortalecendo a ligação da história com a vida real. Uma conexão que a Igreja Católica irlandesa nega. "Eles dizem que é mentira, simplesmente. Pois eu queria ser um dramaturgo com tamanha imaginação para criar uma história destas", ironiza o diretor nesta entrevista, em que a seriedade de suas colocações nunca o deslocou do bom humor, a ponto de oferecer fraternalmente à jornalista a garrafa de cerveja que lhe fora trazida por seus assessores.

Mullan recorda que um emissário do Vaticano chegou a vir à Irlanda em 1994 para investigar in loco a procedência dos depoimentos das diversas mulheres brutalizadas e exploradas, inclusive economicamente, pelas freiras naquelas instituições. Porém, após ouvir diversas vítimas, o representante do papa simplesmente decidiu que se tratava de um caso de histeria coletiva. Uma reação que evidencia, para o diretor, "como o nível de cinismo da Igreja é assustador". O cineasta explica que fatos da gravidade daqueles revelados tanto no documentário do Channel 4 quanto no seu filme permaneceram por tanto tempo encobertos em vista de a própria cultura irlandesa ser ainda muito violenta. "As pessoas em redor achavam normal aquela brutalidade, aqueles espancamentos, que inclusive aconteciam também nas escolas, com crianças pequenas", denuncia. Ele mesmo se recorda de ter levado tapas no rosto no seu tempo de menino e diz que nos países britânicos, como Escócia e Irlanda, "dar um bofetão na cara de um menino também equivale a fortalecê-lo como homem".

O diretor nega, porém, que seja anti-religioso. Ele é de família e formação católicas e confessa que, aos 9 anos de idade, acalentou inclusive o sonho de ser padre. "Eu achava que os padres eram pessoas que só faziam o bem, cuidavam de leprosos, eram missionários na África. Eu também queria ser parte de tudo aquilo", recorda-se. Irônico, ele se lembra do quanto sua mãe ficou feliz com a sua vocação: "Ela pensava que pelo menos um de nós iria para o céu e abriria o caminho para os outros". A inclinação à vida religiosa, porém, foi rapidamente abandonada quando começou a descobrir o sexo. "Tudo isso mudou quando perdi minha virgindade, aos 13 anos. Aí os hormônios entram em cena. Eu estava tendo sexo regular e maravilhoso com minha namorada enquanto meus colegas estavam subindo pelas paredes. Quem consegue estudar nessa idade?", se diverte.

O sexo salvou a sua vida? "Com certeza!. Tomei um rumo completamente diferente. Tivemos sorte porque não houve abuso sexual por parte dos padres. Mas cheguei a apanhar feio de um padre. Eu tinha uns 11 anos e tinha sido mandado à capela para pegar velas. Um padre me viu fazendo isso e não consegui convencê-lo de que não estava roubando as velas. Ele me espancou e eu chorei muito, fiquei humilhado.

O passo definitivo para deixar a idéia de lado foi a leitura de Karl Marx - detalhe que evidencia que não é por acaso que mantém tanta intimidade com a figura e a obra do engajado diretor inglês Ken Loach, com quem atuou no premiado Meu Nome é Joe (que lhe deu o troféu de melhor ator também em Veneza, em 1998).

Mullan destaca que sua intenção é simplesmente que a Igreja reconheça sua culpa no que se refere às ex-internas e se disponha a fazer-lhes uma reparação que, no caso delas, ele considera muito modesta. Segundo o diretor, elas apenas pedem que a Igreja lhes pague os salários pelo trabalho realizado gratuitamente em todos aqueles anos, com as devidas atualizações monetárias. "Nenhuma delas está procurando enriquecer, nem nada. Acho isso admirável da parte delas", afirma.