Gero Camilo desliza entre cinema feminino e Hollywood
- Por Neusa Barbosa
- 24/01/2004
- Tempo de leitura 6 minutos
Fotos de Luiz VitaUm dos atores mais freqüentes das telas nacionais, Gero Camilo divide a cena com José Dumont e grande elenco em Narradores de Javé. Fã declarado de mulheres diretoras, como Eliane Caffé e Laís Bodanzky (com quem fez Bicho de Sete Cabeças), o ator desfrutou com paixão do processo de integração à comunidade de Gameleira da Lapa (BA), onde foi filmado Narradores de Javé. Nesta entrevista exclusiva, ele relata os pontos altos desta filmagem e conta como foi sua primeira experiência numa produção de Hollywood: o drama Man on Fire, de Tony Scott, onde contracenou com Denzel Washington.Cineweb - Firmino, o seu personagem faz uma espécie de contraponto ao de Antônio Biá [José Dumont]. Ele quer puxar para um lado, você para o outro. Como foi interpretar o Firmino?
Gero Camilo - Um grande prazer, um pouco também porque eu queria também fazer um filme que representasse o resgate do Nordeste, o interior, que mudasse um pouco o olhar da gente, tão urbano e cinzento. Que a gente pensasse um pouco num homem sem tantos vícios e sem tantas ansiedades com a modernidade, que fosse mais simples. E o Nordeste para isso é um prato cheio porque é onde a gente, no fim das contas, vai buscar as referências. Porque são referências muito fortes da nossa cultura. Cineweb - Você é do Ceará?
Gero Camilo - Sou, mas sou de Fortaleza, uma cidade que é uma capital, uma metrópole. Então num certo sentido minha visão também é viciada. Eu queria ir mais fundo. Quando eu li o roteiro de Narradores de Javé, falei: "É isso". A partir daí, meu trabalho era desaparecer, porque eu já tinha feito Bicho de Sete Cabeças e havia aqui a necessidade de buscar um tom mais leve, sem perder o discurso poético. Foi maravilhoso. Cineweb - Como foi contracenar com tantos atores amadores?
Gero Camilo - Minha preocupação lá era como me relacionar cada vez mais com aquela comunidade. Porque aí o Biá [Dumont] já tinha essa direção do verbo. Para dar esse contraponto, eu tinha de fazer com que a comunidade cobrasse dele. E o trato, a relação, a feitura disso no set, foi um prato cheio para mim. Adoro isso. Cineweb - É um laboratório.
Gero Camilo - Adoro laboratório. Quando o cinema abre essa possibilidade de que o ator seja de fato criador junto com todas as outras funções que ele traz - afinal, o cinema é uma arte essencialmente coletiva -, a gente rompe com os estereótipos e parte para a coisa mais profunda, dos arquétipos humanos, que é o que eu acho que nos interessa resgatar enquanto imagem. Cineweb - E você estava mais integrado na comunidade, ao contrário do Zé Dumont, até porque o personagem estava meio isolado. Você estava junto com as pessoas. Gero Camilo - Desde o momento em que eu cheguei à Bahia para fazer o filme - e a gente teve antes um período de laboratório - eu já entrei nas casas, tentei me misturar o máximo possível. Eu vinha por trás incentivando o grupo a existir. Tanto é que é Firmino que propõe o Biá, é ele quem vai buscá-lo junto com os outros, para poder contar a sua história. Cineweb - O Firmino tem uma liderança ali.
Gero Camilo - Mas sem assumir isso, no jeito independente, sutil de ele ser. Cineweb - E acho que uma pessoa que não for brasileira e vir o filme, não souber quem é ator profissional ou não é, não vai sacar. Parece que foi tudo espontâneo, improvisado, o ritmo está muito fluente.
Gero Camilo - A Eliane [Caffé] tem essa sensibilidade aflorada, feminina, de olhar, esse olhar comunitário, e tirar mais proveito disso. Ela teve uma sensibilidade muito grande para reger esse coletivo e fazer com que os atores se diluíssem na comunidade e a comunidade também se expressasse, criasse narrativas. Cineweb - Você trabalhou com algumas diretoras, além da Eliane Caffé, como a Laís Bodanzky [Bicho de Sete Cabeças]. Você nota alguma diferença no modo como elas trabalham?
Gero Camilo - Eu noto. Essa diferença não determina nada, mas abre caminhos. No trabalho com os atores, elas ouvem mais, são menos impositivas. Acho que elas ficam mais ligadas à observação. Eu adorei todas as mulheres com quem trabalhei, porque elas foram sensíveis com o meu processo de criação como ator. Cineweb - Você fez algum novo filme?
Gero Camilo - Acabei de filmar Man on Fire, no México, com a direção do Tony Scott. Quem protagoniza é o Denzel Washington. Tem também o Giancarlo Giannini, o Mickey Rourke. O filme foi todo feito no México. Fiquei três meses morando lá. Cineweb - Foi seu primeiro filme internacional?
Gero Camilo - Foi. Fui convidado porque o Tony Scott viu Cidade de Deus. Aliás, o filme é uma referência para todos, inclusive para os atores, o Denzel Washington, o Mickey Rourke. O filme teve uma resposta muito positiva no exterior. Cineweb - O que você achou de trabalhar numa produção de Hollywood?
Gero Camilo - Existe uma estrutura muito forte e isso gera um profissionalismo grande. É bom como ator você poder fazer um filme nessas condições. Lá você fica cercado de condições para que você só pense no seu trabalho. Aqui no Brasil a gente sabe como é. Eu sou um ator de cinema e teatro, não de TV. Conquistar meu espaço não é fácil e garanti-lo muito menos. Cineweb - Você filmou em inglês?
Gero Camilo - Não, eu falei espanhol. Mas a maior parte do filme é falada em inglês. O meu personagem é mexicano, chama-se Aurélio Sanchez. Fala pouquinho. Se as falas ficarem na versão final, a gente nunca sabe se vão ser cortadas ou não. Inclusive quando eu estava filmando lá no México vi pela internet toda essa discussão sobre o Rodrigo Santoro não falar nada em As Panteras. E eu estava num momento oposto a esse, porque eu estava brigando para não falar no filme. Cineweb - É mesmo?
Gero Camilo - E o Tony queria que eu falasse, porque estava gostando do meu trabalho e queria que eu falasse. E eu não queria. E quando eu li a matéria sobre o Rodrigo, fiquei indignado pela maneira como isso foi tratado, como se colocou a figura do ator. Foi muita leviandade. Cineweb - A sua experiência com o Tony Scott foi boa?
Gero Camilo - Foi ótima, eu me dei muito bem com ele. Minha preocupação era apenas a minha relação direta com o diretor. E aí houve uma empatia de cara entre nós, ele era muito gentil e talentoso. Cineweb - Do que trata o filme?
Gero Camilo - É um drama. O Denzel Washington faz um segurança, um guarda-costas de uma criança que é seqüestrada. Aí a gente tem a saga do herói que vai salvá-la. Eu faço um dos seqüestradores. Cineweb - Como foi seu contato com o Denzel?
Gero Camilo - Tive contato de trabalho. Foi o ator com quem eu mais contracenei. Com ele e a Radha Mitchell, uma atriz australiana que mora em Los Angeles e que fez Por Um Fio. Cineweb - E no Brasil, você vai fazer algum novo filme?
Gero Camilo - Não, agora eu vou voltar para o teatro, que é de onde eu venho. Vou estrear um espetáculo no Sesc Belenzinho chamado Aldeotas, que eu escrevi e faço como ator. E tem também A Procissão, um monólogo meu, que eu vou apresentar em março no Teatro Oficina. Cinema eu estou esperando o próximo convite interessante. Porque eu adoro fazer cinema. Cineweb 22-01-04
