José Dumont vive um novo Macunaíma em "Narradores de Javé"
- Por Neusa Barbosa
- 28/01/2004
- Tempo de leitura 6 minutos
Fotos de Luiz VitaCentro nervoso de Narradores de Javé, trabalho que lhe rendeu prêmios nos festivais do Rio e de Recife, o ator José Dumont encarna uma de suas mais poderosas criações na pele do personagem Antônio Biá, o carteiro caído em desgraça na comunidade de Javé, trazido de volta para escrever o relato dos grandes feitos da cidadezinha, perdida no sertão da Bahia e ameaçada de desaparecer sob as águas de uma grande barragem. Improvisador de mão cheia, Dumont criou expressões impagáveis incorporadas aos diálogos - "Iemanjá de açude", "Pokémon de Jesus", "réveillon de muriçocas" - que definem o personagem e a alma desta história de Eliane Caffé e Luís Alberto de Abreu. Onde se pode decifrar a imortal capacidade de o homem inventar histórias e se reinventar, sob o signo de uma bem-humorada espontaneidade. Por essa sua participação criativa, o autor foi chamado de "co-autor" do filme pela própria diretora Eliane Caffé, que contou com ele para funcionar como uma espécie de ímã dos demais personagens - muitos interpretados por atores amadores do sertão baiano. Nesta entrevista exclusiva, em São Paulo, Dumont relata como é seu processo de trabalho e conta porque prefere as comédias. Cineweb - Você está trabalhando pela segunda vez com a Eliane Caffé. Como é seu relacionamento com ela?
José Dumont - Nós temos uma sintonia danada. É como se a gente estivesse no mesmo nível de energia. A freqüência é bem próxima. Daí as coisas acabam sendo bem produtivas. E ela soube ver que eu não era só o Severino, como muita gente vê, e que era capaz de criar em cima do que ela propõe, juntar a capacidade criativa dela com a minha. Acho que isso nos trouxe até aqui. A Lili é boa contadora de histórias e ótima piadista. Então ela sacou que eu também tinha essa veia. Cineweb - Ela enxerga além do estereótipo, não é isso?
José Dumont - Ela sacou meu lado tragicômico. Meu caminho é a comédia, mas não a comédia yuppie. O tipo que eu faço é mais chapliniano. Se me chamam para fazer uma coisa séria, eu faço sério. Mas eu prefiro as coisas mais leves. Mais leves mas com fundamento e com algum apoio emocional. Então, a gente opera numa freqüência muito boa. Ela é uma diretora mesmo, dessas que gosta de extrair o máximo que o ator pode dar. Cineweb - Vocês trabalharam muito com improvisação, não é?
José Dumont - Sim, mas improvisação sempre partindo de uma base, preservando o texto, seguindo o caminho do roteiro, que é a função dele. O roteiro é o caminho a ser seguido. E é a partir daí que se vão encontrando as possibilidades humanas, que a câmera vai captando coisas. É isso o que torna o cinema tão enriquecedor. A Eliane gosta desse tipo de coisa e eu também. Cineweb - Você inventou uma porção de palavras. Como foi isso?
José Dumont - No filme, isso era possível dentro do contexto. Porque primeiro eu e a Eliane chegamos à conclusão que o Biá devia ser um tipo bem popular. Desse tipo que vai comer bolo na casa das pessoas, porque ele teve essa vida antes. Era uma pessoa muito benquista pela sociedade, por ser inteligente, brincalhão. Uma coisa que ele mesmo jogou fora porque fez as armações que fez. Então, quando ele volta, lá no íntimo, ele pensava: "Essa história não vai funcionar". Mas ao mesmo tempo, resolve usufruir disto. "Se der certo, eu escrevo". Cineweb - Você acha que num certo momento ele se sente também incapaz de escrever todas aquelas histórias?
José Dumont - Você escreve, sabe que é difícil escrever. Ele sabia escrever em paredes, ele sabia escrever à maneira dele, fazer um registro. Cineweb - Você acha que o Biá é um escritor frustrado?
José Dumont - Ele é a possibilidade de ser. Se ele tivesse freqüentado uma universidade, seria um cobra. Mas era muito difícil para aquela pessoa escrever aquela história. Só depois é que ele saca que o grande barato não são as grandes histórias. A grande história do filme são as pequenas histórias de cada um. Que é difícil a gente respeitar, a história do outro. São as histórias do cotidiano. Cineweb - Como você encontrou a linguagem peculiar do Biá, onde você inseriu as invenções de palavras?
José Dumont - Se ele não tivesse uma forma de expressar que fosse convincente, capaz de mostrar a intuição dele, a capacidade de improviso, não ia funcionar. Cineweb - E a improvisação, você prefere trabalhar assim?
José Dumont - Se eu ficar muito numa fórmula, se me amarrarem demais, me engessarem demais, às vezes não consigo fazer. Se me soltam, me sinto mais à vontade. Tenho necessidade de falar, de participar de alguma coisa. Na realidade, o que me interessa como ator não é a gramática cinematográfica. Acho bonito quem faz isso, mas não é a minha praia. O que eu gosto são coisas da vida que dão vontade de você representar. Claro que por trás disso há um conceito. Eu pego as coordenadas e deixo o organismo, o inconsciente trabalhar. Cineweb - E foi assim que vieram na tua cabeça essas expressões, "pokémon de Jesus", "réveillon de muriçocas"...
José Dumont - Vieram assim, mas não aleatoriamente. Eu pensava assim: "Como é que eu vou resolver esta bagunça aqui? Tem que ser um pokémon". Eu sou um bom "ledor", na medida em que as coisas me batem, eu vou lendo. E acho que o Biá também é assim. Ele olha para uma mulher e diz: "É uma Iemanjá de açude". Cineweb - E o filme tem uma fluência que dá a impressão de que aconteceu tudo ali no set, improvisado na hora.
José Dumont - A gente trabalhou exaustivamente para chegar à espontaneidade e também para quebrar essa mesma espontaneidade. Ou seja, para que aquilo que fosse improvisado e o que não fosse chegasse ao mesmo ponto. A gente não tinha muito compromisso com o real, não tinha muito sentido simplesmente recitar um texto. Houve uma busca da convivência, da elaboração para chegar aí. Mas você se prepara, você negocia, dialoga com o espectador que está assistindo ao filme. Se você não se preparar, não sai. Cineweb - E ao mesmo tempo em que é uma comédia, o filme incorpora uma série de coisas sérias, como o fato de que naquela comunidade ninguém sabe ler, exceto o Biá.
José Dumont - Porque era um dom dele, ele aprendeu a ler. E como leitura não tem nada a ver com caráter, ele tem um caráter flutuante. Cineweb - Completamente. Ele é meio Macunaíma.
José Dumont - O brasileiro não é um pouco assim? Aquelas pessoas não são burras, são marginalizadas, não têm espaço. A criatividade existe ali, mas têm de enfrentar padrões rígidos, códigos rígidos. Essa brasilidade já foi percorrida em outros momentos. Macunaíma é um exemplo. Cineweb 21-01-04
