06/06/2026

Eliane Caffé insere a naturalidade do documentário em "Narradores de Javé"


Fotos de Luiz Vita

Em seu segundo filme, Narradores de Javé, a diretora paulistana Eliane Caffé ultrapassou várias barreiras: a suposta "maldição do segundo filme", as prateleiras estanques dos gêneros cinematográficos, o conflito entre "roteiro de ferro" e improvisação e o conceito de verdade histórica definitiva. Não só ela exibe um seguro amadurecimento narrativo a partir de seu também ótimo filme de estréia - Kenoma, de 1998 - como mistura no mesmo caldeirão comédia e tragédia, linguagem popular, invenção de palavras, atores amadores e veteranos, versões da verdade, tradição oral. Fruto de um trabalho de refinamento tão apurado, apoiado em seguidas expedições ao sertão da Bahia, onde o trabalho foi filmado entre Gameleira da Lapa, Bom Jesus da Lapa e a Chapada Diamantina, Narradores de Javé exibe a naturalidade de um documentário, colhido ali nas ruas de terra, numa prosa entre o bar e a sala de visitas. Nesta entrevista exclusiva, em São Paulo, a diretora explica os caminhos que construíram o filme, premiado em diversos festivais, como Recife, Rio, Bruxelas e Fribourg (Suíça).

Cineweb - O ponto forte, definidor do seu filme, com certeza é a linguagem. Como você pesquisou isso, lá no Nordeste?
Eliane Caffé - A palavra lá no Nordeste não é muito usada do modo como a gente usa aqui, até pelo próprio modo de vida nosso e deles. Aqui na cidade grande, a palavra tem um sentido muito utilitário. Você comunica certos objetivos e, na maior parte das vezes, é uma coisa pragmática. Lá no sertão a gente percebe que a palavra é usada como forma de entretenimento, também. Daí surge não propriamente aquela narrativa de histórias, mas o fato de contar coisas que aconteceram ontem, hoje, com a sua família. É o ato de contar naquela conversa mesmo, de praça, de cozinha ou de quintal. Aí você encontra uns contadores que são incríveis, são tão imagéticos.

Cineweb- E é tudo espontâneo, porque são pessoas não têm uma cultura formal...
Eliane - E eles teatralizam, fazem as vozes. Então é uma coisa muito sugestiva, com as metáforas.

Cineweb - Seu filme é uma tragicomédia. Mas o que ele tem de cômico, é bem diferente da média do cinema brasileiro recente. Não tem nada a ver com aquelas comédias televisivas, é baseado nessa noção de comunidade.
Eliane - Talvez devido ao processo como ele foi criado, muito mais de fora para dentro. Kenoma, meu primeiro filme, foi um trabalho "de mesa". Este aqui, desde a feitura do roteiro, foi diferente. Trabalhamos na construção dos episódios ouvindo. Fizemos três expedições ao sertão da Bahia. Foi uma das partes mais gostosas do trabalho. Saíamos sem objetivo, sem destino. Só sabíamos que a gente tinha de ir para povoados cada vez mais distantes dos centros urbanos. Você nem sabia onde ia dar.

Cineweb - Uma aventura todo dia.
Eliane - Isso mesmo. A gente fica viciado na viagem. Depois, conversando com outros expedicionários, eles falaram que isso é muito comum. Você chega num lugar, encontra uma coisa incrível. Aí você quer ir logo para o segundo local, na expectativa de que vai encontrar algo mais interessante. E logo para o terceiro. Aí quando você vê, não está mais parando, está sempre em trânsito. Aí é hora de parar. Isto aconteceu com a gente.

Cineweb - Você deve ter ouvido milhões de histórias. Também teve muita coisa que deixou de fora?
Eliane - Muita coisa a gente filmou e eliminou na hora da edição. Com esses fragmentos é que fomos compondo o filme. Foi a primeira fase do roteiro. Depois, quando a gente chegou no lugar, o filme foi tomado pelos atores e pelas pessoas de lá. O filme é quase um coro.

Cineweb - Como é Gameleira da Lapa?
Eliane - A estrada termina lá. Não tem mais nada, só o rio. E os homens saem, vão trabalhar na roça. A cidade fica por conta das mulheres, o cotidiano ali é muito movido por elas. Quando nós abrimos a fase dos testes, quem queria aparecer no filme eram quase sempre as mulheres. Virou uma coisa lúdica, como uma brincadeira que durou quatro meses. Oferecemos muita mão-de-obra para eles integrarem a equipe, o que é uma coisa muito delicada de se fazer, porque é preciso ficar atento para não inflacionar as relações de trabalho do local, porque as filmagens vão durar apenas poucos meses.

Cineweb - O filme acabou interferindo no cotidiano da cidade, então.
Eliane - Houve uma coisa muito importante que uniu a gente que foi a questão do lixo. Quando chegamos, vimos que as casas eram limpíssimas mas as ruas, imundas. Não havia coleta, eles não tinham nem saco de lixo. Eles criam muito porco e as fezes do porco secam, isso vira um pozinho e se transforma em foco de doença pulmonar, cuja incidência ali é muito grande. Aí a Carla Caffé, que é minha irmã e diretora de arte do filme, sugeriu que a gente fizesse um trabalho - até hoje eu agradeço muito a insistência que ela teve nisso, porque parecia que era fora do nosso trabalho ali, mas na verdade não era.

Cineweb - Como vocês desenvolveram esse trabalho do lixo?
Eliane - Nos unimos a um grupo de mulheres que já tentava fazer alguma coisa nesse sentido. Chamamos todos numa quadra, contamos a história do filme e dissemos que não queríamos que a cidade aparecesse suja. Aí mostramos que lixo valia dinheiro, que se reciclava, se separava os materiais. Aí demos pra eles uns galões, que foram instalados na cidade. Era uma cidade de quase 2.000 habitantes. E demos sacos de lixo, que era um artigo de luxo, nem vendia por lá. Por três semanas a cidade inteira ficou limpa. E eles conservaram isso até o fim. E a gente ia amontoando naqueles galões, só que não havia coleta. Aí a gente já falou que cobrar isso era uma questão política.

Cineweb Isso não deu problemas para vocês?
Eliane - A gente escolhia também algumas casas para filmar. E as casas que a gente escolhia, às vezes tinham fossas abertas. Então, a gente fechava a fossa. Se a casa tinha um telhado de plástico, a gente trocava aquele pedaço, punha telhas. Aí eles começaram a querer que a gente escolhesse a casa, porque sabia que vinham as melhorias. Foi um trabalhão mostrar que nós éramos artistas, que estávamos fazendo um filme e que eles tinham que encaminhar essas questões aos representantes deles. Mas acho que isso fez com que a gente tivesse ali uma entrada bastante positiva. Interferia no cotidiano, havia uma preocupação com as questões locais e eles se apropriaram do filme. Essas velhinhas que você vê em cena, elas tomaram o filme. Às vezes, as pessoas entravam tanto nos papéis, com tanta verdade, que o Zé Dumont tinha que puxar de novo o controle: "Peraí, peraí".

Cineweb - Foi nesse contexto que vocês introduziram as improvisações?
Eliane - Elas começaram aí, dentro de toda essa dinâmica do convívio Toda essa parte em que o Dumont arma o repertório de xingamentos com a Deodora [Luci Pereira] nasceu dessas improvisações. "Iemanjá de açude, manicure de lacraia...". Ele viu que ela era esperta, começou a provocar e ela respondia às provocações.

Cineweb - Como num desafio.
Eliane - É. E aí virou uma coisa que não existia no roteiro.

Cineweb - Por conta disso, o filme tem um frescor de documentário, é como se tudo estivesse acontecendo naquele momento ali. Nem parece que por trás há um roteiro tão forte, uma pesquisa. Passa espontaneidade.
Eliane - A gente tinha previsto usar a câmera na mão para dar essa coisa do documentário, porque é uma fábula, para trazer mais verossimilhança. Mas a gente nunca tinha a dimensão... É que eu pensava mais em termos do tratamento de câmera. Mas essa dimensão de tomada do filme que eles tiveram, isso a gente nunca podia imaginar. Foi uma experiência muito rica.

Cineweb - Você pretende repetir essa experiência nos próximos filmes?
Eliane - Penso, sim, em estabelecer isso como método, porque faz toda a diferença. Hoje em dia, grande parte da criação que você faz nos grandes centros é trabalhada com as referências. Você fica na mesa, abre a internet, os livros, fala do Nordeste, de Guimarães Rosa. Mas é muito diferente quando você vai no corpo a corpo, quando você expediciona. Porque você vai com todos os sentidos e o que você vê é muito diferente, a maneira como você sente, como você interpreta até as coisas que leu quando está lá. Aprendi muito com esse filme. Quando eu ia pensar de passar quatro meses em Gameleira da Lapa? Num lugar assim do sertão, minúsculo? Quanta coisa você aprende do Brasil lá? Por exemplo, essa coisa da miséria, do analfabetismo... Carro de boi é o principal transporte de Gameleira. Uma coisa que veio desde antes da Idade Média. Então, quando a gente chegava com os carros da produção, era um problema, porque levantava poeira. Quase não ia carro lá. O "banheiro" não tinha casinha, era no quintal mesmo. E ao mesmo tempo tinha um espírito de humor. Brasileiro é muito assim, ele não perde uma situação. Gozar do mundo, gozar do outro. E esse humor está lá.

Cineweb - Outro eixo da sua história está na busca de mostrar que a verdade muda, dependendo de quem conta.
Eliane - A gente procurou relativizar esse conceito da verdade histórica. A gente queria brincar com essa coisa do momento em que você decide escrever a história oficial, que seria a verdadeira. Mas na verdade isto significa, naquele caso de Javé, que era impossível. As histórias convivem na oralidade, com as suas diferentes versões. Na hora em que se vai instituir "a verdade", isto significa que a versão é dominante e que vai prevalecer, mas é uma versão. É que depois se esquece que é uma versão e se assume como verdade. A gente falava muito isso, como seria a história do Brasil se ela fosse contada do ponto de vista do índio. Nem começaria em 1500. Ou do ponto de vista do negro. Seria uma outra coisa. E aí o que a gente aprende na escola, os valores. O Borba Gato, a estátua que está lá em Santo Amaro. A gente aprende que ele foi um grande bandeirante. Mas na verdade é um cara que era terrível, fazia uma caça aos escravos, aos índios, alguns ficavam numa espécie de curral, onde eles eram como uma espécie de "reserva" de escravos.

Cineweb - Ele é o herói da cultura que ganhou. Na cultura dos índios, seria o bandido. Mudando de assunto, quando seu filme foi exibido fora do Brasil, as pessoas também captaram o que ele tem de universal, da fábula. As pessoas podem perder os regionalismos, mas pegam o resto, não é?
Eliane - Até pensei que isso ia ser muito difícil. No começo da carreira dele, achei que não ia ter essa comunicação externa, por estar em cima dessa coisa de linguagem, de um texto que era muito regional. E foi ao contrário. Faz pouco tempo, ele ganhou o prêmio de melhor filme e melhor roteiro num festival da Bélgica. Claro que as pessoas entram por outra porta. Porque perdem muito daquela malícia, não dá para traduzir 100% daquelas falas.

Cineweb 21-01-04