06/06/2026

Louise Portal ressalta o sentido de busca humana na profissão de atriz


Foto de Luiz Vita

Uma das atrizes principais do cult movie canadense As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, Louise Portal visitou rapidamente São Paulo para o lançamento de uma pequena retrospectiva do cineasta (de 2 a 5 de março, no Espaço Unibanco paulistano). Belíssima aos 54 anos, Louise não se furtou a exibir os dotes de sua bela voz de cantora abrindo e fechando a entrevista coletiva que concedeu no domingo (29/2) com uma canção: a primeira delas, Besame Mucho, que ela aprendeu para um filme anos atrás, e interpretou depois de pedir desculpas porque não teve tempo de aprender uma música em português. Nesta entrevista exclusiva, a atriz, que é também escritora, criticou o culto da celebridade na profissão de atriz, comparou O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras e comentou a importância do Oscar para o filme de Denys Arcand.

Cineweb - Qual a mudança principal que você enxerga nos papéis das mulheres de O Declínio do Império Americano para As Invasões Bárbaras?

Louise - Em Declínio do Império Americano, as mulheres são, do meu ponto de vista, bem diversificadas. As três personagens femininas principais, que têm ali seus 35 anos, não são felizes. Dezessete anos mais tarde, em As Invasões Bárbaras, se verá o resultado disso. Quer dizer, Dominique (Dominique Michel) continua sendo uma mulher só, Louise (Dorothée Berryman) não amou nenhum outro homem além de Rémy (Rémy Girard) - e eu creio que há muitas mulheres da mesma geração a quem aconteceu o mesmo. Na América do Norte, a imagem do amor que ficou para nós, mulheres de 50 anos, foi essa essa utopia do amor único para toda a vida, que era o modelo de nossos pais. E a minha personagem, Diane, se vê na mesma situação em que se encontrava em Declínio do Império Americano, ou seja, nessa incapacidade de se lançar no amor. Ela já amou talvez na vida mas é incapaz de amar de novo. Pode ter suas aventuras com alguns homens mas não passa disso.

Cineweb - Não há realmente evolução?

Louise - Ao reviver este papel 17 anos depois, a gente vê que evolui na vida mas não muda verdadeiramente a própria natureza. Entretanto, se aprende a conviver melhor com aquilo que se é. A personagem de Diane tinha muitas aventuras em Declínio... e isso a inquietava. Agora, ela vive esse aspecto de sua vida com mais serenidade. Ela não se tortura mais por dentro por ser como é, experimenta mais liberdade de ser. Ao mesmo tempo,acho que o que é dramático é essa ferida interna por não conseguir manter uma relação afetiva boa nem com os homens nem com a filha.

Cineweb - Então, a seu ver, o filme é pessimista quanto às relações humanas?

Louise - Na verdade o que há de bonito neste filme é que a amizade é suficientemente importante nas vidas de todas aquelas pessoas a ponto de, mesmo que não tenham convivido por muitos anos, na hora em que um deles está perto da morte, elas voltam a se reunir e retomam os mesmos sentimentos do passado.

Cineweb - O filme pinta um retrato um tanto negativo dos jovens - a seu ver, eles não têm mesmo mais ideais nem utopias como os cinqüentões?

Louise - Não tive filhos, portanto, não sou uma testemunha cotidiana disso. Mas ao olhar a sociedade hoje, tanto nos EUA como no Japão, vejo que não há mais aquela busca utópica ou espiritual. Nossa televisão, aliás, reflete essa realidade. Tudo o que interessa é ser bonito, rico, famoso, não importa a que preço. Eu não gostaria de ser uma atriz de 20 anos hoje.

Cineweb - Por quê?Louise - O que uma jovem atriz recebe hoje como legado sobre o que é sua profissão hoje é extremamente superficial. Não creio que se possa manter uma carreira artística por 35, 40 ou 45 anos baseada em valores fúteis assim. Quando eu tinha 20 anos, tinha atributos de beleza que certamente me ajudaram e ainda me servem hoje. Mas eu pude escrever, cantar e encarar esta profissão de ator como uma busca muito profunda, não como uma coisa superficial. Muitas vezes eu disse que é muito fácil dar entrevistas aos jornais e revistas por um, dois ou três anos. Mas ainda ser chamado para desempenhar papéis aos 50 anos é bem outra coisa.

Cineweb - O cinema canadense também tem preconceitos contra as atrizes de mais idade, como o cinema americano ?

Louise - Sim, infelizmente. O cinema nada mais é do que uma representação da sociedade em que a gente vive. Então, o cinema americano se tornou onipresente no planeta. As jovens vão muito ao cinema e sonham todas em ser como Angelina Jolie! Se no cinema americano atrizes como Susan Sarandon e Meryl Streep têm dificuldade em encontrar papéis, mesmo tendo Oscar e condições de produzir seus próprios filmes, no Canadá é pior. Eu não tenho essa condição de produzi-los. Por isso, o sucesso internacional de As Invasões Bárbaras é qualquer coisa de excepcional.

Cineweb - Em que sentido?

Louise - Em primeiro lugar, porque é falado em francês. Em segundo, não há super-astros no elenco. Somos conhecidos em nosso país, não fora dele. Além do mais, o filme não mostra o tipo de estereótipos que normalmente funciona no cinema. Então, estamos na presença de uma obra de cinema de autor que tem valor em si mesma.

Cineweb - E isto apesar de discutir temas muito sérios como morte e fim das utopias, sem deixar de abrir espaço para o humor.

Louise - Sim. Mas há 45 anos que Denys Arcand trabalha assim. Ele sempre buscou fazer filmes de caráter sociológico mas conseguindo equilibrar o aspecto intelectual e a comédia. Porque ele é assim na vida real. É um intelectual mas tem um senso de humor extraordinário, é muito sarcástico!

Cineweb - Ele é muito hábil em fazer retratos de épocas.

Louise - Sim, essa é sua grande força. Em seu filme anterior, Stardom, ele denunciou justamente essa nossa sociedade baseada na imagem. É um filme muito duro, que por isso não foi muito bem-recebido. As pessoas não o entenderam.

Cineweb - Qual a importância que tem a vitória do Oscar de As Invasões Bárbaras ganhou o Oscar de filme estrangeiro ?

Louise - Acho que receber um prêmio é sempre uma questão de destino. Ainda assim, é muito importante para o cinema de ficção do Canadá ficar mais conhecido - somos mais conhecidos pelo cinema de animação ou documentários. E creio que seria uma maneira de concretizar o reconhecimento à carreira grandiosa de Denys Arcand. Ele já foi indicado três vezes, tem 63 anos. E o sucesso internacional desse filme é tão grande que o filme merecia mesmo levar o prêmio. E é claro que vencer deve ampliar ainda mais este sucesso. Além do mais, é um filme que fala da esperança e das coisas verdadeiras da vida.

Cineweb - Como o cinema canadense é recebido no próprio país?

Louise - De dois anos para cá, essa recepção tem sido extraordinária. Realmente reconquistamos o público, temos muita gente nas salas de cinema. Os filmes de maior bilheteria, depois dos americanos, são os de Quebec, falados em francês. Os filmes canadenses falados em inglês não vão tão bem.

Cineweb - Qual o motivo?

Louise - Em geral, os filmes canadenses falados em inglês se parecem muito com os americanos. Há exceções, como os de Atom Egoyan, que é um cineasta admirável. Então, o público identifica mais originalidade no cinema de Quebec.