Marcelo Masagão desfia reflexão sobre o consumo
- Por Neusa Barbosa
- 18/03/2004
- Tempo de leitura 3 minutos
Um dos dois únicos filmes (ambos brasileiros) a enfrentar a poderosa máquina de lançamento de A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, será 1.99 - Um Supermercado que Vende Palavras - que estréia em três salas de São Paulo nesta sexta (19). No filme, o diretor paulistano Marcelo Masagão desfia uma crítica original ao consumismo, situando cerca de 80 atores no cenário de um supermercado - só que despido de seus apelos publicitários, todo pintado de branco e com prateleiras repletas de caixas da mesma cor e conteúdo abstrato, descrevendo idéias e sentimentos. Uma patinadora seleciona os que podem entrar e os que continuam do lado de fora.Diretor dos documentários Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, Nem Gravata Nem Honra e Um Pouco Mais, Um Pouco Menos, Masagão, de 46 anos, tece aqui uma reflexão sobre o consumo, seu ponto de partida, juntamente com o co-roteirista Gustavo Steinberg (co-autor do script de Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi). Durou cerca de um ano e meio este processo de pesquisa e filmagem, num projeto que custou cerca de R$ 900.000, incluídos aí os custos de produção, finalização e divulgação.Um reforço extra ao lançamento de 1.99 é a presença, pela primeira vez no Brasil, do compositor belga Wim Mertens, autor da trilha deste filme e também de Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. Mertens fez uma única apresentação na última quarta (17) no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Curiosamente, o diretor brasileiro e Mertens, apesar das duas parcerias, não se conheciam ainda pessoalmente. "Todo nosso trabalho se completou através de alguns poucos e-mails", contou Masagão. Agora, que os dois se conhecem, ele acredita que a colaboração vai continuar.Masagão descreve seu processo de criação, sempre idêntico: "Escolho um tema e mergulho nele. Depois, vou atrás do fio da meada para conseguir contar sua história". No meio do caminho, um segundo tema associado surgiu: "o narcisismo, estritamente ligado ao consumo no campo da vaidade", segundo a percepção do diretor. Mas o caminho das pedras lhe foi sugerido pela leitura do livro Nologo, da canadense Naomi Klein.No livro, a autora analisa a fetichização das marcas e os altíssimos custos da publicidade. Pensando nessa idéia do fetiche atribuído pelos consumidores às marcas, Masagão e Steinberg chegaram ao cenário do supermercado, num de seus passeios de pesquisa de campo. "Olhando as gôndolas, a gente começou a prestar atenção nas diversas mensagens da propaganda, usando palavras superlativas e personalizando o contato, usando muito a palavra 'você'", explica o diretor.A conclusão, para ele, foi contundente: "Apesar de o capitalismo pregar que existe a democracia dentro dele, seu discurso é sempre absolutista: 'Eu sou o máximo, sou tudo, me compre'", justifica. Como em todos os seus outros filmes, não há diálogos. Uma opção que, para o diretor, faz todo sentido: "Vivemos o século das imagens. Mas em 95% da produção de cinema e televisão as palavras estão o tempo todo didatizando as imagens. Isso para mim não faz sentido". Para ele, seus filmes "são formados por pequenas células, que partem de um conceito, de uma idéia, e vão se conectando. O fluxo delas é que faz o espectador entender o que está acontecendo. Acho que isso prende sua atenção, ao mesmo tempo que o deixa em dúvida. Eu deixo lacunas para que ele complete". Masagão rejeita, porém, um rótulo que com freqüência lhe é aplicado: experimental. "Acho que isso assusta as pessoas". O que é a última coisa que ele quer. Ele, entretanto, acha que seus filmes vêm conseguindo empatia com o público. Sucesso em cinemas e premiado em vários países, Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos agora está sendo estudado em escolas de cinema. 1.99 - Um Supermercado que Vende Palavras acabou sendo o segundo filme mais visto do Festival do Rio 2003, em outubro do ano passado. "E olhe que eu não sou carioca e não saiu nenhuma matéria falando do meu filme na imprensa de lá", observa. Cineweb-18/3/2004
