Polanski veste a camisa do Brasil na quarta visita ao País
- Por Neusa Barbosa
- 22/03/2004
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Fotos: Alysson Oliveira Um ano e meio depois de ter visitado o Brasil - no Festival do Rio 2002 - o cineasta franco-polonês Roman Polanski voltou, desta vez a São Paulo, para a mais ampla retrospectiva de sua obra, de 19 a 25 de março, no CineSesc paulistano. Na concorrida entrevista coletiva do final de tarde desta segunda (22), o diretor não fez jus ao seu apelido - "anão malvado". Muito pelo contrário. Sorridente, abriu a entrevista declarando sua alegria de estar novamente no Brasil (pela quarta vez), destacando que "cada estadia aqui está ligada a um evento agradável, a première de um filme, um festival, uma retrospectiva de meu trabalho". Depois de afirmar que seu "único arrependimento é não falar português", enfrentou com muito bom humor quase 50 minutos de perguntas dos mais variados tipos, esquivando-se, apenas, do que ele considerou como "questões filosóficas" e comparações com a obra de outros diretores - como Alfred Hitchcock. Chegou a vestir na hora uma camisa azul da seleção brasileira, que lhe foi dada por um dos jornalistas presentes. Rindo, ainda reclamou: "E o calção, não tem?". O único constrangimento da entrevista acabou ocorrendo por excesso de zelo dos organizadores, que instruíram previamente a tradutora para que não transmitisse ao diretor as perguntas sobre a sua proibição de entrada nos EUA (devido a um processo pendente na Califórnia, por estupro de uma menor). Quando a jornalista Silvana Arantes, da Folha de S. Paulo, insistiu para saber se a proibição do assunto era iniciativa dele mesmo ou da organização, ele protestou para a tradutora em inglês: "I can handle that. I´m a big boy" (Posso lidar com isso, sou bem grandinho). E sobre os EUA, ele disse: "Há na América um grande número de cineastas que apreciam o meu trabalho. Eles exprimiram isso. Recebi uma ovação de pé quando meu nome foi anunciado na premiação do Oscar. Isto nada tem a ver com meu problema na Califórnia". Problema, aliás, que ele não comentou. E foi bastante específico ao esclarecer o que pensa de uma suposta onda de antiamericanismo no mundo: "Eu me pergunto se esse 'antiamericanismo' na verdade não se trata de 'antibushismo'". Independentemente de sua pendência judicial na América, é fato que nada abala sua velha amizade por Jack Nicholson (na casa de quem ocorreu o incidente que levou ao seu processo). "Somos grandes amigos. A única coisa que nos separa é o oceano. Somos tão amigos agora como há 30 anos, quando viemos juntos ao Carnaval do Rio de Janeiro. A única diferença é que naquela época ele era extremamente magro!". Sobre o cinema brasileiro, a referência mais recente do diretor é Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, filme que ele assistiu e achou "extremamente impressionante". E acrescentou: "Acho que esse diretor ainda vai nos mostrar muitas outras coisas". Demonstrando que detesta comparações com as obras de outros cineastas, reagiu assim a uma pergunta para que respondesse a quem identifica seu estilo ao de Hitchcock: "Não tenho vontade de entrar nessa brincadeira. Não estamos aqui fazendo um jogo social". Da mesma forma, resiste a quem lhe pede que defina que tipo de artista é: "Sou incapaz de responder. Não é assim que funciona. Não há esse tipo de cartesianismo no meu caráter". O que ele quer dizer, porém, é que rejeita definições formais rígidas, porque é perfeitamente capaz de dizer o que o move a fazer cinema: "Faço cinema como faço outras coisas na vida, esporte, comer, amor. Tenho em mente a busca da satisfação. Amo fazer este trabalho". Polanski também revela que não escolhe seus projetos seguindo um plano preestabelecido de carreira: ""Não dá para a gente programar assim o que vai fazer. O desejo de fazer um filme vem de fontes diferentes, como um livro que se leu. Às vezes é o contrário, você quer exprimir um sentimento e procura o material, o livro que pode expressá-lo". No caso de O Pianista, o diretor procurava há muito tempo um material em que pudesse expressar seus sentimentos sobre o Holocausto, que ele testemunhou na própria família, na Polônia, quando criança. Encontrou no livro autobiográfico de Wladislaw Szpilman aquilo que procurava e rendeu o filme vencedor de três Oscar em 2003. Depois de O Pianista, o cineasta conta que foi acometido de uma sensação de dúvida sobre o que faria a seguir. "Eu pensava: faço uma comédia? Um filme policial banal? Me pareceu impossível voltar à banalidade", admitiu. A solução do dilema surgiu enquanto brincava com seus dois filhos - descobriu que queria fazer um filme para crianças e, pensando em livros nessa linha, chegou a Oliver Twist, de Charles Dickens, uma obra da qual gostava quando era pequeno e tornou-se seu próximo projeto. Com uma cinematografia em que abundam dramas psicológicos e raríssimas comédias, foi natural a pergunta sobre seu interesse em examinar a natureza do mal. Mas ele rejeita esse tipo de pergunta: "Não sou filósofo, apenas diretor de cinema. Mas me parece que o bem e o mal existem em cada um de nós. Penso que o ser humano é essencialmente bom. Acho que até nos animais há uma dose de altruísmo. Se a Humanidade fosse essencialmente má, ela teria se destruído há muito tempo". Sobre seu primeiro contato com o cinema, contou que ocorreu quando ele ainda era bem pequeno e sua irmã mais velha o levava a sessões vespertinas, na Cracóvia. O diretor riu ao recordar que ele pedia para fazer pipi e sua irmã, não querendo perder nada do filme, lhe dizia para aliviar-se ali mesmo, atrás das cadeiras. "Mas eu era muito pequeno", desculpou-se. Ele não guarda muitas memórias destas primeiras sessões. Lembra apenas de ter visto "um desenho da Disney em que aparecia uma aranha gigantesca" e de uma cena em que a atriz Jeannette McDonald aparecia numa escada, com um vestido muito vaporoso e cantando a canção Sweetheart. À clássica pergunta sobre o conselho que daria a um jovem cineasta, derrama mais uma dose de seu metálico senso de humor: "Nesse trabalho, é preciso muita perseverança. Às vezes, precisa-se de mais perseverança do que talento". Indagado sobre A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, foi curto e grosso: "Não vi e não tenho opinião a respeito". Cineweb- 22/3/2004
