O rapper Thogun aposta nos heróis do dia-a-dia
- Por Neusa Barbosa
- 01/04/2004
- Tempo de leitura 5 minutos
Entrevista e fotosMorador de Cavalcante, zona norte do Rio, Sérgio André Teixeira, nome artístico Thogun, budista, 32 anos, mistura no dia-a-dia a profissão de vendedor de produtos esotéricos, o sonho de estudar jornalismo e chegar a porta-voz do presidente da República e o exercício do rap, sua válvula de escape, como ele mesmo diz. Um dos pioneiros do movimento rap no Rio, ele é um dos três personagens-chave do documentário Fala Tu, de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery. Nesta entrevista exclusiva ele dá seu depoimento sobre os motivos que o levaram a aceitar a participação neste filme e como ele mudou sua vida.Cineweb - Como foi que você conheceu o pessoal do filme?
Thogun - O primeiro contato foi pelo Mano Tales, que é produtor musical. Porque a gente já é rapper há mais de 15 anos no Rio de Janeiro. A gente carregava pickup debaixo do braço, encarava ônibus e ia para uma praça tocar, para quem precisava escutar alguma coisa. Sempre pensamos nesse embasamento político em música. E a nossa descendência musical é muito forte, os pais compositores, poetas. Então a nossa influência lá na Zona Norte é muito grande. Do lado da minha rua, tem a [escola de samba] Em Cima da Hora, que fez um samba que já foi tema de tese de mestrado, doutorado, que é Os Sertões. Então, eu não tinha como correr. Meu pai é forte nisso, minha mãe também. Ela fazia parte de um coral, tinha uma bolsa num coral de um colégio particular. Sempre cantou, cantava tudo, de Emilinha a Adoniran. Então você já tem isso, já é resistente por natureza. E os caras chegaram assim de uma maneira muito legal. Cineweb - Como foi que eles chegaram?
Thogun - O Mano Tales me disse que eles queriam fazer um filme sobre rap. Eu tinha muito receio disso. "Mais um filme sobre rap, mais um filme sobre lamentação".Eu nem queria mais conversar sobre isso. Então um dia os caras chegaram e levaram três horas para me convencer a filmar. À base de suco de maracujá. Me convenceram porque eu cheguei: sinceridade, pureza e honestidade, senão não adianta. Então, os caras me mostraram realmente para o que vieram e eu acreditei. Cineweb - E durante as filmagens, você se arrependeu algum dia?
Thogun - Um belo dia, cinco horas da manhã os caras chegaram lá em casa. Cinco horas da manhã! Eu estava acordando, cara inchada, aí abri o portão. E começou. Eu falei: "Cara, não tem roteiro?". O Nathaniel respondeu: "Não sei". E eu: "Que bom que você não sabe, porque em documentário fazer roteiro é brincadeira, deixa as paradas acontecerem". Então os caras acompanharam minha luta mesmo. Os caras me trataram com muito respeito. E me deram a oportunidade de fazer as pazes com meu pai.Cineweb -Você não ficou em dúvida se deixava ou não isso entrar no filme?
Thogun - Não, era meu dia-a-dia. Pra colocar ele naquele hospital tive que fingir que ele estava passando mal. Porque o que ocorre é que quando você tem câncer e já tem a metástase, então, não é mais interessante os caras dispenderem recursos para te tratar. Mas também não tem um sistema que auxilie ao menos psicologicamente aquele cara que está com câncer. Então eu não conseguia nem entrar com ele num setor de oncologia. Então meu dia-a-dia era esse. Ir lá, ver ele, sair pra vender. Já que eles queriam retratar meu dia-a-dia, ele é assim. Sem alteração, sem enfeitar pavão.Cineweb - E os outros músicos do filme, você já os conhecia?
Thogun -O Macarrão eu já conhecia. Só que de uma maneira engraçada. Eu estava fazendo segurança de um baile funk. Eu odeio baile funk, o que ele proporciona para a juventude não é legal, degladiar, se debater, não é legal isto. Então o Macarrão subiu no palco, tinha um concurso de rap de galera, e ele cantou. Não cantou rap de incitação nem de briga, cantou rap. Depois nunca mais vi o Macarrão. Aí eu vim a reencontrar o cara no filme. Isso foi legal.Cineweb -Você viu o filme depois de pronto? O que achou?
Thogun- Legal. Os caras filmaram setenta e poucas horas. Eles me mostraram três horas. Em momento algum fiquei cansado nem com dor na coluna. Porque é muito louco você se ver. Porque a gente se auto-analisa mas nunca se enxerga como realmente se é. E ali é muito o que eu sou. E ali eu acho que me reinventei. Eu melhorei muito com esse filme. Cineweb - Você acha que a sua vida mudou depois do filme?
Cineweb -Se eu falar que não, é hipocrisia demais. Mudou a minha maneira de enxergar muita coisa. Eu era um cara extremista, radical demais. E eu já vi que não é bem assim. O que presta, presta. O que não presta, não presta. Tudo é necessário. Tudo está em movimento. Tudo o que está acontecendo não é por acaso. Cineweb -E o que está acontecendo agora, em termos de rap?
Thogun -A gente tem de olhar o rap como uma função existencial na vida de cada um. Não é à toa que as agências de publicidade adotaram, para minha surpresa, porque pra mim isso não ia acontecer nunca. Mas se ocorre lá fora, ia acabar acontecendo aqui também. Porque a gente tem essa mania do "copismo", a gente copia tudo e deixa de acreditar no que a gente tem de valor. Os nosso heróis são do dia-a-dia. Só que as pessoas parece que se velam contra isso. Então eu acredito no rap hoje voltado para massificar e mostrar a direção. Tanto é que o Public Enemy está voltando. Se os caras estão voltando é porque alguma coisa de errado está acontecendo. Se essa é a hora da velha escola, então é a hora da velha escola. É hora de chegar e falar: "E aí?". Cineweb - Você continua com aqueles seus sonhos de que fala no filme, de estudar jornalismo, ser porta-voz do presidente da República?
Thogun - É muito louco isso, porque estou com a faculdade trancada, devido à falta de grana. Mas eu tenho de terminar essa faculdade, é uma questão de honra. Tudo aquilo que está objetivado vai ser realizado. Estou botando na cabeça que além de estudar jornalismo vou fazer ciência política também. Cineweb - E o rap continua?
Thogun - É minha válvula de escape. Sou um eterno inconformado.Cineweb 30-3-04
