06/06/2026

Combatente encarna o feminino no mundo machista do rap


Entrevista e foto

Monica Xavier de Oliveira, 21 anos, nome artístico Combatente, representa uma raridade no mundo machista do rap: é mulher, canta com duas amigas (Afro Lady e Camila) e reflete em suas letras o significado da condição feminina e negra. Única mulher do trio de protagonistas do documentário Fala Tu ela discute nesta entrevista exclusiva suas preocupações com a estereotipagem dos negros e sua militância na ONG Melanina, criada após sua participação no filme.

Cineweb - No começo, você não queria fazer parte do filme. Por que essa resistência?
Combatente -Para mim, o principal fator era mostrar a dignidade das pessoas. Eu não queria fazer parte de um filme que só valorizasse a violência, que só pegasse negros, mulheres negras e estereotipasse. Tenho pavor disso. Até nas minhas letras como rapper sou superpositiva. A gente tem de encarar o dia-a-dia como um desafio mas com fé, com esperança, com alegria e é isso o que a gente tem de passar para o próximo. Acabei tendo mais resistência a entrar no filme porque eu moro em Vigário Geral. Por anos, após a chacina, ninguém queria olhar para o lado positivo da comunidade, se não fosse o Afro-Reggae para transformar um pouco. Mas eu estava muito cansada disso tudo, da mídia ir lá fazer matérias fictícias. Fiquei muito receosa.

Cineweb - O que você queria mostrar no filme?
Combatente - Queria mostrar uma outra realidade. Que eu também sou mais um exemplo de quem quer lutar, ser feliz, viver com a dignidade do seu trabalho. Porque no Brasil é muito difícil você viver daquilo que você gosta. Esse é o grande desafio. Então o Fala Tu me trouxe muito isto. Ele me propôs essa questão, viver daquilo que eu amo.

Cineweb - E você está conseguindo isso?
Combatente - Estou tentando. A minha diferença da galera é que eu tenho família, sou a mais nova. Com esse apoio, posso me dar ao luxo de estudar, de me preparar realmente para o universo que quero.

Cineweb - Que é a música, o rap?
Combatente - A minha formação mesmo nunca foi voltada para o rap. Aprendi música erudita, ritmos afro - sou apaixonada pelos ritmos afro. Antes de começar a cantar eu fazia percussão, ainda faço aulas. E o rap acabou entrando na minha vida pelo discurso, pelo cansaço, pelo pedido de paz em vão. Eu tinha necessidade de expandir esse conhecimento que eu tinha e passar para as pessoas. Porque eu sinceramente não agüento mais isso de ver o negro na TV só como se fosse um ratinho de laboratório da violência.

Cineweb - Como assim?
Combatente - Ah, você quer falar de violência, vai no gueto, você vai nas favelas. Quando na verdade você tem muitas famílias de classe média alta que têm altos índices de violência dentro de casa.

Cineweb - Você viu o filme agora. Você acha que ele passou o teu recado?
Combatente -Eu sou uma pessoa muito crítica. O rap é muito crítico. Acho que ainda não passei exatamente o que quero. Acho que consegui abrir um pouquinho só a portinha da minha vida. Mas exatamente o que quero eu só vou conseguir através da minha música, quando tiver uma boa gravadora, lançar um CD. Aí sim eu vou estar completa. Porque o filme foi tipo um parto, a parte da edição, a decupagem. Tantas coisas ficaram de fora e eram tão importantes. Foi difícil até. E eu fui acompanhar porque não era tudo o que eu queria que entrasse. Não queria aparecer como pedinte. Você vê que a minha parte é muito sutil. Eu acho que a mulher tem de ser muito sutil. Ela tem de ter muito discernimento.

Cineweb -Você não queria aparecer como vítima.
Cineweb - Eu estava com muito medo disso. Então fui lá ajudar.

Cineweb - Achei importante você estar no filme porque em geral o meio do rap é muito masculino e até machista.
Combatente - O movimento hip hop ainda é machista. Mas acho que as mulheres têm de começar a marcar presença. Não é só na música. Acho que a esposa do músico tem de ir ao show, mas eles não gostam. Acho que a mulher está muito mais participativa, mas ainda está precisando de ajuda. Especialmente a mulher carioca com a questão do funk, que está cada vez mexendo com os nossos valores. Inclusive com o filme eu consegui juntar um grupo de amigas e montar uma ONG que se chama Melanina.

Cineweb - Qual a atuação dessa ONG?
Cineweb -A gente está trabalhando o desenvolvimento da mulher negra na sociedade, trabalhando a auto-estima e o resgate da identidade dessa mulher. Porque hoje ela não está se aceitando mais. Hoje ela acha que tem de pôr silicone, pesar 40 kg tendo 1,80 m. Ela está com dificuldade de aceitar o seu cabelo crespo, o nariz largo, com dificuldade de se amar. Então está sendo muito legal essa ONG, a gente teve um projeto aprovado agora pelo Fundo Afro, já conseguimos uma sede.

Cineweb - Vai ser em Vigário Geral também?
Combatente - Não, vai ser em Inhaúma a princípio. E eu pude perceber com o Fala Tu que pra mim foi legal que eu pude desabafar. Acho que essas mulheres também merecem isso. A gente acabou formando uma rede de rádios comunitárias e estamos trazendo-as de volta pro mercado de trabalho. Lá elas falam, denunciam. Isso está sendo muito bom. A gente também está fundando uma grife.

Cineweb 30-4-04