06/06/2026

Monique Gardenberg enfrenta a difícil tarefa de adaptar Chico Buarque para o cinema

Não é nada fácil adaptar para o cinema uma obra literária, principalmente aquelas escritas por personalidades consagradas, como é o caso de Benjamim, de Chico Buarque. Porém, além de ter a benção do autor, a diretora Monique Gardenberg contou com sua ajuda no desenvolvimento do roteiro. Aliás, como a própria diretora contou a Cineweb, "ele acompanhou cada novo tratamento e de forma nada possessiva". Mesmo assim, foi preciso "desrespeitar" a obra e modificar várias coisas. O longa conta a história de um modelo fotográfico (Paulo José) que vive perseguido pelas lembranças da mulher que amou na juventude (Cleo Pires). Quando conhece uma moça parecida com ela (novamente Cleo), é obrigado a lutar contra fantasmas do passado. A diretora estreou em longas em 1996, com Jenipapo, exibido no Festival de Sundance no mesmo ano. Além disso, atua paralelamente como diretora de videoclipes e de teatro. Nessa entrevista exclusiva, Monique conta como foi trabalhar com Chico Buarque e ser a responsável pela estréia de Cleo Pires no cinema, entre outras coisas.

Cineweb- O livro Benjamim, de Chico Buarque não é considerada uma obra fácil. O que a atraiu no livro para fazer o filme?
Monique Gardenberg- Benjamim tem uma narrativa brilhante, e isto foi o que mais me atraiu no livro - a possibilidade de realizar um filme cuja forma não fosse convencional. Chico criou uma narrativa extraordinária, um quebra-cabeças para contar esta história que se passa em dois tempos. De forma surpreendente, a cada volta no tempo, ele nos dá uma nova informação que muda inteiramente o que lemos (ou assistimos) até aquele instante, aumentando a tensão incrivelmente.

Cineweb- Como foi o processo de adaptação do livro para transformá-lo em roteiro? Você mudou algo da obra original?
Monique- Adaptar uma obra literária para o cinema não é uma tarefa fácil e esta era especialmente difícil. Excelentes livros podem dar em filmes muito ruins. Para você fazer um bom cinema é necessário desrespeitar a obra que o originou. E não é fácil desrespeitar Chico Buarque!

Cineweb- Como "desrespeitar"?
Monique - Junto com Jorge Furtado e Glênio Póvoas, procuramos manter a narrativa elíptica do livro, secamos um pouco as histórias paralelas, mas mantivemos a essência do livro. Acho que procurei também proteger mais as personagens, cuidei delas de forma que a platéia sentisse simpatia, afeição ou compaixão por elas. Também procurei fazer de Benjamim um homem leve, apesar do seu passado, um homem vaidoso, um dândi fora do seu tempo, retirando algo de deprimente que sua personagem central tinha no livro.

Cineweb- Até agora [a entrevista foi feita em 23 de março] Chico Buarque ainda não viu o filme pronto. Por que?
Monique- Ainda não viu por pura coincidência. Primeiro ele estava isolado escrevendo Budapeste, depois eu resolvi mexer no filme e cortar 5 minutos. Aí quando ficou pronto, Chico estava em Paris revisando a tradução deste seu novo livro. Finalmente, ele assistirá dia 30 em São Paulo. Mas talvez a gente faça antes uma projeção só para ele. Ele só assistiu uns 5 minutos que enviei em vídeo. Gostou muito do que viu mas, principalmente, estava muito feliz com o roteiro.

Cineweb- Ele participou da produção?
Monique- Ele acompanhou cada novo tratamento e de forma nada possessiva, me ajudava a manter a coerência dos personagens em cada nova cena que eu criava.

Cineweb- Como foi a escolha do elenco? Você já tinha o Paulo José em mente?
Monique - Pensava em Paulo José porque achava que ele era a cara do personagem. Além disso, precisava de um ator com a densidade do Paulo, que pudesse dar ao papel toda a complexidade que ele exigia. O Benjamim é um sujeito que nunca está onde ele vive, está sempre no mundo das memórias. É meio perplexo perante a vida, tem a alegria de uma criança, mas a melancolia de um homem maduro. Tudo isto o Paulo José vive de forma comovente, com todos os matizes que Benjamim precisava para existir na tela.

Cineweb- E o Danton Melo?
Monique - O Danton veio depois. Pesquisamos vários atores que pudessem ter alguma semelhança física, nem que fosse o nariz meio largo, até que chegamos ao nome de Danton. Nesse momento não tive dúvidas, Danton seria o Benjamim jovem.

Cineweb- Falando especificamente da Cleo Pires: como vocês chegaram até ela?
Monique - Eu tinha uma verdadeira fixação pela Cleo Pires. Observava a Cleo de longe. Cruzava com ela em vários lugares do Rio e sempre ficava impressionada com a sua presença, forte, sua sensualidade espontânea, à flor da pele, seu jeito de menina e ao mesmo tempo cheio de mistério, o que é difícil encontrar numa menina de 19 anos. Cismei que tinha de ser a Cleo, cismei que a aparição de Ariela para Benjamim tinha de ser também uma grande aparição para a platéia. A Cleo é um talento nato. Tem perfeita noção do que é atuar para o cinema, onde você não pode representar de forma alguma, onde você não deve fazer nada, no sentido de que você tem de tentar interiorizar aquilo, vivenciar aquilo e deixar que a platéia faça o resto por você. Cleo fez cinema como uma veterana.

Cineweb- Ela é uma estreante, em dois papéis tão complexos, como foi que vocês desenvolveram os personagens?
Monique - Trabalhamos devagarinho, aos poucos, durante um mês e meio. Comecei com as cenas mais simples: Ariela escrevendo as cartas, Ariela ao telefone, e depois de uma semana ensaiamos a cena em que ela conta ao marido que foi estuprada. Quando ela terminou (eu estava deitada com uma câmera no rosto como se fosse o personagem do Jeovan), eu estava bem emocionada. Ali eu tive certeza de que tinha a minha protagonista.

Cineweb- Qual a diferença de trabalhar com atores tão experientes como Paulo José e Nelson Xavier e jovens atores, como Cleo Pires e Danton Mello?
Monique - Foi uma troca muito grande entre todos nós. Todos aprendemos com os mais experientes, especialmente com Paulo José, com quem convivemos mais tempo. Mas na hora de rodar uma cena, me emocionei com cada um deles, não poderia ter ficado mais feliz com o meu elenco e suas interpretações.

Cineweb- Qual período você filmou primeiro: os flashbacks ou o presente?
Monique - Primeiro filmamos o presente, queria que o Paulo José imprimisse a marca de Benjamim.

Cineweb -Como os dois atores se prepararam o mesmo personagem?
Monique- Durante este período de cinco semanas, o Danton Mello acompanhou as filmagens, prestava uma enorme atenção ao que o Paulo fazia. Era emocionante a dedicação do Danton. Também trabalhei muito os dois juntos durante os ensaios, um copiando os gestos do outro, criando uma linguagem corporal única.

Cineweb- Qual foi a cena mais difícil de fazer? E como foi trabalhada?
Monique - A cena final do filme. Precisava que a emoção estivesse no seu grau máximo, precisava que os atores - Paulo e Cleo - estivessem exauridos pela tensão da cena. Decidi que seria a última cena de um dia bastante cansativo, levei caixas de som e toquei Years of Solitude para ajudar a criar o clima de desespero que a cena precisava. Mas estava muito nervosa, nunca tinha dirigido uma cena com tamanha carga dramática e precisava que ela ficasse no tom absolutamente certo.

Cineweb -Vocês tiveram alguma dificuldade durante a produção que a obrigou a fazer mudanças?
Monique - Tivemos sim. adoraria ter ido a Paris com Cleo e Danton para filmar as cenas que se passam na capital francesa, filmar os exteriores, trazer o clima de Paris para dentro do filme de forma mais verdadeira. Isto não foi possível e filmamos Paris toda dentro de quartos de hotel.

Cineweb- Quais são seus futuros projetos?
Monique- Vou dirigir uma nova peça de teatro, Um Dia de Verão, do autor norueguês Jon Fosse, a convite de Silvia Buarque e Renata Sorrah.

Cineweb-1/4/2004