Nathaniel Leclery faz a crônica de três vidas no rap
- Por Neusa Barbosa
- 01/04/2004
- Tempo de leitura 6 minutos
Entrevista e fotoDesde sua primeira exibição, no Festival do Rio 2003, em outubro do ano passado, o filme Fala Tu vem colecionando elogios e prêmios. No Rio, foi o melhor documentário na votação popular, ficando o troféu de melhor diretor do júri oficial para o estreante Guilherme Coelho. De lá, passou pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a mostra Panorama no Festival de Berlim e pelo Festival Cinéma du Réel, em Paris. Na véspera de sua estréia no Rio e em São Paulo (2 de abril de 2004), o diretor-assistente, co-produtor e roteirista do filme, Nathaniel Leclery, conversa sobre a gestação deste projeto, que começou com a intenção de contar a história do rap carioca mas acabou escolhendo como seu eixo a história humana de três rappers, Macarrão, Combatente e Thogun.Cineweb -Eu queria recuperar a história desse filme. Como começou o projeto, como vocês encontraram essas pessoas? Porque dá a impressão de que o filme era sobre uma coisa, virou outra.
Nathaniel Leclery - Exatamente, foi isso mesmo o que aconteceu. Eu conheci o Guilherme [Coelho] há uns dois anos e meio, por um amigo comum. E aí a gente começou a ouvir rap nacional. Eu não conhecia nada disso, morei fora um tempo. Cineweb - Você estudou cinema?
Nathaniel - Não, estudei economia. Guilherme também. Aí começamos a ouvir Racionais, MV Bill. E achamos aquilo o máximo! Uma coisa certamente ingênua, em 2001. E aí decidimos contar a história do rap no Rio de Janeiro. Corremos atrás de umas 60, 70 pessoas. Porque no Rio não tem uma coisa central. O rap no Rio é uma coisa menor, não é a música da periferia, da mesma maneira que é em São Paulo. No Rio você tem o funk que é muito mais forte do que o rap e que domina. Todos os bailes são funk. E não toca rap nacional. É difícil você encontrar show de rap no Rio. Então era uma coisa mais dispersa. Cineweb - Quanto tempo levou para vocês encontrarem os rappers?
Nathaniel - Levou uns três ou quatro meses de pesquisa, tentando achar quem tinha um trabalho mais interessante. Cineweb - E a idéia desde o começo era encontrar três personagens?
Nathaniel - Não, a idéia não era tanto isso. Era contar uma história sem o narrador, a história da evolução do rap no Rio de Janeiro. O que mudou drasticamente ao longo do processo. Cineweb - Como foi que aconteceu essa mudança?
Nathaniel - Você tem muitas batalhas ideológicas entre posses diferentes no Rio. Era difícil. Não havia uma história, havia milhares. Terminei achando que não éramos as pessoas mais indicadas para contar essa história do rap carioca, até porque a gente vinha de fora e começamos a nos interessar pelo assunto só um ano antes. Então decidimos fazer uma história sobre o significado do rap na vida de uma pessoa. Então, em vez de procurar escolher quem era o mais influente, quem estava aqui nos momentos certos, fomos ver quem contava bem sua própria história e tinha mais empatia com a câmera. Cineweb - Então você escolheu pessoas menos conhecidas da cena do rap?
Nathaniel - Você vê, o Thogun e o Macarrão não faziam shows há tempos. Combatente, não. Tinha o grupo Negativa, Marcelo D2 chegou a ajudá-las numa coletânea, elas tocaram no Free Jazz, inclusive. Então a escolha foi mais por histórias de vida naquele momento. O Mano Tales, que é um produtor musical, começou a nos apresentar as pessoas e chegamos a essas três. Cineweb - Demorou muito esse processo, de 60 baixar para três?
Nathaniel - Na verdade, não foi tão difícil. Tinha um quarto, o DJ A, que foi filmado para ser mais um personagem. Mas no final, por ser uma pessoa muito tímida, acabou não dando certo. Então, ele virou um coadjuvante. Ficamos fascinados pelo Macarrão desde o dia em que o conhecemos. O Thogun era um cara que estava no rap desde o começo, com MV Bill, vinha para São Paulo. Ele é uma pessoa batalhadora. E a Combatente é interessante, porque ela tem um lado que você encontrava muito no rap do Rio, agora menos, que é um lado muito utópico. Ela quer mudar absolutamente tudo. É um rap-revolução o que eles estão fazendo. A Combatente tinha essa garra, essa utopia. Também eram pessoas que tinham uma empatia com a gente, acreditaram em nós. Cineweb - Suportaram bem o "aluguel"?
Nathaniel - É. Felizmente não era uma coisa de entrevista o tempo inteiro. A câmera rodava com eles o tempo todo. Era uma equipe pequena, um câmera, um técnico de som, o Guilherme. Eu ficava na sala ou não, às vezes nem o Guilherme, para eles não pensarem que a gente estava esperando alguma coisa. Com o câmera só, o cara se acostuma, vai fazendo as coisas dele. Cineweb - A câmera fica meio invisível depois de um tempo.
Nathaniel - Não é nem isso, é o personagem quem cria uma relação com a câmera depois de um tempo. Cada uma foi diferente, mas todas interessantes. Cineweb - Depois vocês interromperam o filme por nove meses, por questões de dinheiro?
Nathaniel - Foi. A gente estava esperando o dinheiro do BNDES entrar e só chegou depois desse tempo. O mais caro realmente é a edição. Foram seis meses de edição. Cineweb Como a Videofilmes entrou no projeto?
Nathaniel - A gente fez um corte bruto, mostramos e eles entraram, ficaram parceiros. Cineweb - Mas de qualquer forma essa interrupção acabou dando um material humano bom para vocês, não?
Nathaniel - Acho que a gente sempre queria parar, mas não sabia quando ia ser, como ia ser incorporado. O interessante do Fala Tu foi que o filme não foi preconcebido. Ele foi um filme onde eu e o Guilherme discutimos um pouco antes da filmagem, o que a gente queria naquele dia, o estilo de filmagem. Mas a gente não tinha uma noção fechada do que iria ser o filme. A gente teve uma liberdade muito maior. Cineweb - Também não é um documentário clássico.
Nathaniel - Exatamente. Quando a gente mostrou o filme no CEU [Centro de Educação Unificada] Jambeiro, durante a Mostra de São Paulo [em outubro de 2003], foi interessante porque muita gente não entendia que era um documentário. As pessoas perguntavam ao Macarrão como é que ele conseguia se emocionar num determinado momento, como se fosse um papel. E estranhavam quando ele dizia que eram fatos reais. Acho isso intrigante no filme. Cineweb - Realmente é muito curioso. Era uma platéia de adolescentes?
Nathaniel - Era. Mas isso acontece muito ainda mais porque pessoas que não vêem documentários, ou vêem na televisão, assistem reportagens, Globo Repórter ou um Big Brother da vida - que está mais para ficção, porque o pessoal só atua. Então essas pessoas vêem um filme como o nosso e realmente fica um pouco ambíguo. Não me surpreende tanto, porque a gente tentou fazer um pouco isso.Cineweb 29-3-04
