06/06/2026

Brian de Palma busca nova inspiração fora de Hollywood

Veterano diretor americano, da mesma geração que produziu talentos como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Stanley Kubrick e Woody Allen, Brian de Palma mudou-se para a França para filmar Femme Fatale - um suspense com altas doses de erotismo, centrado na figura longilínea de mais uma loura, a americana Rebecca Romjn-Stamos, com estréia brasileira prevista para 24 de janeiro de 2003. Rebecca interpreta Laure Ash, uma hábil ladra de jóias que trapaceia seus parceiros no crime, foge de Paris com peruca morena e passaporte roubado. No avião para os EUA, conhece um embaixador americano (Peter Coyote) e muda radicalmente de vida. Anos depois, volta à capital francesa, tem sua verdadeira identidade exposta pela foto de um paparazzo (Antonio Banderas) e entra novamente no círculo do perigo.

Mais uma vez, De Palma exercita sua maestria na montagem, com um olhar atento à subversão das expectativas do público. Lá pelo meio, o filme vira do avesso. Nesta entrevista exclusiva, concedida por telefone, de Paris, no início de dezembro 2002, o diretor comentou este novo trabalho - o primeiro roteiro original que filma em dez anos -, as razões de sua mudança temporária para a Europa, a atualização da figura da mulher fatal e adiantou detalhes de seu novo trabalho, que será filmado na Itália.

Cineweb - Vários cineastas americanos de sua geração estão se inspirando na França ou tendo mais reconhecimento e condições de filmarem por lá do que em Hollywood - como Woody Allen e Robert Altman. Por que?
Brian De Palma - Não é uma tendência. Somos de uma mesma geração e estamos curiosos sobre o resto do mundo. Eu mesmo sou muito estimulado por outros lugares, pessoas e culturas.

Cineweb - De que maneira um ambiente estrangeiro o inspira?
De Palma - Ando na rua, encontro pessoas, vejo lugares e tudo isso me dá idéias. Leio livros, jornais, estou sempre à procura de algo que abra portas. Escrevo vários roteiros ao mesmo tempo.

Cineweb - O senhor filma todos eles? Se não, por que?
De Palma - Não, não filmo boa parte deles. Nem sempre estão no ponto ideal para filmar.

Cineweb - Como assim?
De Palma - Às vezes, são idéias muito complicadas, que implicam produções muito caras. Boas idéias são muito raras.

Cineweb - A idéia de Femme Fatale, porém, foi desenvolvida e produzida rapidamente. Por que?
De Palma - Logo que cheguei a Paris, tive a idéia geral da história, escrevi, e logo consegui produtores para fazer o filme. Tudo aconteceu naturalmente. Mas foi completamente obra do acaso.

Cineweb - Por que o senhor foi morar em Paris? Algum motivo profissional?
De Palma - Não. Tenho vários amigos em Paris e simplesmente resolvi ficar por lá um tempo. Não gosto de simplesmente ir a um lugar e fazer um filme.

Cineweb - O senhor disse que tentou reinventar o estereótipo da mulher fatal em termos modernos. Onde está a modernidade de sua personagem, se a compararmos com as heroínas dos anos 40 e 50?
De Palma - Laure (Rebecca Romijn-Stamos) faz coisas que Barbara Stanwick nunca faria. Ela é sexy, esperta e carrega todo o filme. As heroínas do passado estavam mais restritas às convenções. Laure pode ousar mais, ir mais longe.

Cineweb - Rebecca não foi a primeira escolha de elenco e nem era tão conhecida - este é seu primeiro trabalho como protagonista. Por que a escolheu?
De Palma - Realmente, diversas outras atrizes foram procuradas ou se ofereceram para o papel. Ela nos foi sugerida por um produtor e mostrou-se perfeita.

Cineweb - O senhor filma muito a sensualidade, de maneira mais ousada do que muitos de seus colegas, mesmo os mais jovens. Por que isso acontece, a seu ver?
De Palma - Eles simplesmente não sabem como filmá-la. A sensualidade é difícil de retratar. Você tem de pensar como mostrá-la, pensar como as pessoas vão olhar para ela. Aquela cena do strip-tease, por exemplo, foi toda coreografada. Não é simples.

Cineweb - Nos seus filmes, o senhor joga uma série de pistas falsas, inverte expectativas o tempo todo. O senhor tem prazer em jogar uma espécie de jogo com a platéia?
De Palma - Não é isso. Na verdade, as pessoas complicam. Há sinais do que realmente está acontecendo nesta história o tempo todo. Não tenho gosto em jogar com a platéia. Na verdade, a coisa toda é mais como música. Simplesmente quero que a platéia se entregue e vá junto, embarque na história.

Cineweb - Nem sempre é fácil reconhecer tão claramente o fio de suas histórias.
De Palma - Na verdade, o problema é que a nossa percepção está muito treinada pela TV. Não quero enxergar o fim de uma história assim que vejo a primeira cena. Graças a Deus, há outras formas de contar uma história. Gosto de trazer vida e surpresa para o cinema.

Cineweb - O senhor já está envolvido num outro projeto?
De Palma - Sim. Estou trabalhando na adaptação de uma peça, Toyer (de Gardner McKay). Está em fase de pré-produção. Vai ser filmada na Itália, em Roma e Veneza, com os mesmos produtores de Femme Fatale.

Cineweb - O senhor disse que gosta de viajar. Já esteve no Brasil?
De Palma - Sim, uma vez, para o lançamento de Pagamento Final. Estive no Rio de Janeiro e arredores. Gostei muito.

Cineweb - Conhece alguns cineastas brasileiros?
De Palma - Conheço Bruno Barreto e Walter Salles. É pena que nos EUA a gente não consiga ver muitos filmes sul-americanos, bem como os orientais, iranianos. As pessoas lá simplesmente não gostam de ler legendas.

Cineweb - 13/12/2002