Fernanda Montenegro e Raul Cortez constroem relação delicada em "O Outro Lado da Rua"
- Por Alysson Oliveira
- 28/05/2004
- Tempo de leitura 5 minutos
Para um diretor estreante, Marcos Bernstein transita com muita segurança entre os gêneros. A trama de O Outro Lado da Rua passa de uma comédia sutil e irônica para um romance de um fotograma para outro, e a platéia mal percebe, embarcando no que vê na tela. O diretor confessa que não fez isso por acaso. "Achei legal arriscar", confirma. Arriscou e deu certo. Tão certo que, antes da estréia no Brasil, ganhou oito prêmios, inclusive o de melhor filme, atriz e fotografia no Festival do Recife e melhor atriz para Fernanda Montenegro no Festival de Tribeca, em Nova York, em maio passado.Não foi nenhuma surpresa. Afinal, a atriz está envolvida com o projeto desde o início. Foi para ela que a protagonista Regina foi escrita. "Gostei logo de cara dos personagens, dos diálogos. Era algo interessante, e menos explícito que o normal", explica Fernanda, feliz com o resultado do trabalho. Desde a primeira versão do roteiro, há três anos, a atriz estava confirmada no elenco. Mas os dois se conhecem há mais tempo. Fernanda conta que o primeiro contato com o diretor foi na época das filmagens de Central do Brasil, cujo roteiro é de Bernstein. Mas foi uma ligação muito rápida. A intimidade entre os dois veio ao longo desses três anos, entre ensaios e filmagens.Mas não era só Fernanda que estava na cabeça do cineasta quando ele concebeu o roteiro. Mas levou mais tempo para se aproximar de Raul Cortez, e quando o convite aconteceu, a atriz já estava confirmada. Durante a coletiva de mpressa no lançamento do filme, em São Paulo, os dois não pouparam elogios um ao outro e ao diretor. "Na vida profissional há o sonho de se encontrar com certos colegas", declara Fernanda. Ela ainda acrescenta que Regina só existe por causa de Camargo, o personagem de Cortez. "Não consigo ver outro ator para o papel. Sem ele não haveria um ponto de referência e de segurança para o filme", conclui. Ele, por sua vez, diz que também gostou do roteiro e dos personagens, mas o fato de trabalhar com Fernanda foi um dos maiores atrativos.Durante as filmagens, essa cumplicidade foi fundamental, principalmente para uma delicada e bela cena de intimidade. Quando perguntado sobre o assunto, Cortez não se surpreende. "Sempre perguntam sobre a cena de sexo entre os dois. Até no Festival de Berlim. Não se levanta nenhuma bandeira nesse filme. O que existe é a delicadeza de duas pessoas se encontrando, independente da idade", afirma o ator. Fernanda não se esquece de contar que no mesmo festival houve algo semelhante com outro filme. Trata-se de Alguém Tem Que Ceder, em que a atriz Diane Keaton também compartilha momentos de intimidade com Jack Nicholson. "Dizem que ela quase chegou a chorar durante a coletiva, porque só perguntavam sobre isso. Resumiam todo o trabalho dela a uma cena de nu", critica. Para Fernanda, o mais importante desse momento no seu filme é a honestidade. "As preliminares são muito honestas. Há o encontro de duas pessoas solitárias", arremata. E nenhum deles tem qualquer problema em falar da cena, que não estava no roteiro original. A necessidade de mostrar esse momento entre os personagens surgiu com o tempo. "Ficamos envaidecidos, pois durante o ensaio perceberam que deveria haver uma cena de sexo", explica Cortez. Fernanda, por sua vez, diz que se sentiu encurralada. "Não quis recusar para não passar por uma senhora pudica", brinca. Talvez o que mais chame a atenção do público no Brasil seja o enfoque que é dado no filme para as pessoas da terceira idade. "Sempre se mistura velhice com doença, além de todo o preconceito estético", comenta a atriz. "O filme é sobre o encontro de duas pessoas que, apesar de terem idade e doenças na alma, não são duas personagens doentes fisicamente".Mas fora do Brasil, o longa começa a despertar o interesse por outros motivos. "O Outro Lado da Rua é uma proposta pessoal, de um drama urbano. Diferente de filmes de cunho social, como Cidade de Deus", explica Bernstein. "Aqui, há o social, mas este vai pela beirada", conclui. Ele ainda acrescenta que com a retomada do cinema brasileiro havia outros temas mais urgentes a serem tratados. "Com o aumento das produções brasileiras afloram outras questões. Assuntos pessoais e existenciais", afirma. A produtora Kátia Machado confirma que uma das coisas que chamou sua atenção foi o fato deste ser um filme de personagens. "É uma história universal, que poderia acontecer em qualquer cidade urbana", explica.Além disso, para Fernanda esse é um daqueles filmes que fazem as pessoas pensar. Ela compara-o com Nunca Te Vi Sempre Te Amei (estrelado por Anthony Hopkins e Anne Brancoft) e o recente As Invasões Bárbaras. "Além disso, são filmes pequenos e são descobertos aos poucos. Despertam o interesse por causa de sua humanidade", explica. Mas não peça para ela explicar o filme ou seu personagem. "A gente inventa cada coisa. É uma atração de opostos. São os personagens olhando para o futuro", ensaia explicar. Mas cabe a Bernstein falar da gênese do filme. "Os personagens de O Outro Lado da Rua estão lá no Edifício Master, do [Eduardo] Coutinho. Há um casal bem parecido, apaixonado", arrisca. Ainda com o pé na realidade, Fernanda faz questão de deixar claro que realmente existe aquele grupo de idosos que são olheiros da polícia. "Não é uma fantasia para fazer o filme", insiste. Mas surge uma polêmica entre os entrevistados, pois aparentemente o grupo de Copacabana acabou, porque muita gente estava denunciando outras pessoas por problemas pessoais. "Mas ainda existem outros grupos em diversos bairros", acrescenta Bernstein.E como os personagens do filme eles olham para o futuro. Todos, de certa forma, já têm um novo trabalho em andamento. Bernstein diz que após a excitação e o estresse do primeiro filme, já tem umas três ou quatro possibilidades de novos trabalhos. "No primeiro filme a gente se concentra muito nele, mas depois começa a se abrir mais", conclui. Cortez participará da próxima novela das oito da Rede Globo. E Fernanda conta que tem dois filmes nos quais faz participações que serão lançados nos próximos meses e em breve irá para o Nordeste, onde roda o novo longa da Andrucha Waddington, ao lado de sua filha, Fernanda Torres. Além disso, ela não descarta a possibilidade de participar da versão cinematográfica que a TV Globo prepara da novela Guerra dos Sexos. "Ainda não recebi o roteiro, mas gostaria de fazer uma comédia rasgada", conclui. Cineweb-28/5/2004
