06/06/2026

Sabotage: hip hop contra vício, moléstia ou crime

por Luara Oliveira

Mais um da sul! Aos 29 anos, Mauro Mateus, o rapper Sabotage, tem mais histórias para contar do que muito mano que já passou dos 50. Sobrinho do clã que controlava o tráfico na zona sul, ele cresceu em meio às armas e ao dinheiro que cobrava das bocas de droga da região - com 15 anos, trabalhava para o tio como soldado de morro. Incentivado por traficantes e assaltantes, descobriu o talento para a música e, no ano passado, passou também a transitar pelo meio cinematográfico de São Paulo, pelas mãos do diretor Beto Brant.

Para O Invasor, Sabotage não apenas escreveu músicas - entre elas a que toma de empréstimo o nome do filme - como também foi consultor de Brant na construção do protagonista da trama, o matador Anísio, interpretado pelo titã Paulo Miklos. O sucesso lhe rendeu uma participação no filme Estação Carandiru, inspirado no livro homônimo do médico Dráuzio Varella, que está sendo produzido sob direção de Hector Babenco.

Sem perder o bom humor, Sabotage falou a Cineweb, em entrevista exclusiva, sobre a dura realidade da periferia. "Se o crime fosse bom, eu ainda teria meu tio aqui [ele cumpre pena de 28 anos de prisão], meu irmão [foi assassinado] e minha mãe [que morreu do coração por sofrer com a prisão do filho]. Eu quero sair da favela pras minhas filhas crescerem sem ver o que eu vi". Salve, sangue!

Cineweb: Como você compôs a música Aracnídeo para o filme de Beto Brant?
Sabotage: Eu já tinha alguns pedaços da letra e ele me falou sobre uma adolescente que curtia festinhas e balinhas [ecstasy] e era da alta classe. Pensei, no mínimo, que seria alguma coisa como The Cure e The Smiths. Só que eu tinha que transformar em algo mais nacional. Então, coloquei um pouco de drum´n´bass de uma base que eu tinha ouvido e mostrei pro Beto.

Cineweb: E a música O Invasor?
Sabotage: Ah, eu já tinha entrado no roteiro. Fiz a música depois disso.

Cineweb: Como foi a construção do personagem de Paulo Miklos?
Sabotage: Achei muito legal trabalhar com ele porque ele é músico também e um músico sempre entende o outro. O Paulo começou a fazer tudo igual a mim e, de repente, estou assistindo ao filme e tem um cara falando igual a mim. Às vezes, eu estava conversando e o Beto achava boa alguma coisa que eu tinha falado e incorporava nos diálogos do Anísio.

Cineweb: E as gírias?
Sabotage: Não dava pro Anísio falar de uma forma diferente porque não ia ser ele, não combinava com o jeito nem com os gestos dele. O Anísio não é um bandido qualquer, um charlatão; ele é uma pessoa que não presta mesmo e esse tipo tem de monte na periferia. Um dia, durante as filmagens, tinha um cara no orelhão gritando: "Ô Anísio, pô! Só você quer ter razão! Só você quer falar!"

Cineweb: Como foram as filmagens na favela?
Sabotage: Eles me ouvem porque sou um deles. Eles ficam com medo de ter polícia, de invadirem os barracos. Mas eu avisei que a gente ia chegar com o equipamento e só filmar. Aí, o pessoal começou a tratá-los bem.

Cineweb: O filme consegue retratar a realidade da periferia?
Sabotage: Sim e retrata muito bem. Anísio é o tipo que mais tem, tanto que ele já virou uma gíria para falar de uns caras charlatães.

Cineweb: No que O Invasor ajuda a diminuir essa distância entre a periferia e o cinema?
Sabotage: Eu vi um documentário quando fui para Brasília sobre um senhor que catava papelão. Ele achava várias filmadoras e filmes, e a criançada da favela fazia fila na porta da casa dele para assistir. Eu nunca vi uma coisa que me chamasse tanto a atenção quanto aquilo. Outro dia, um cara da periferia falou pro Beto: "Gostei da hora em que ele conta a história dos três porquinhos pra filha". Um cara que estudou até a 4ª ou 5ª série conseguiu entender o filme.

Cineweb: O Ferréz, por exemplo, escreveu um livro [Capão Redondo] sobre a realidade da periferia. Como esse tipo de trabalho influencia o lado cultural dessas pessoas?
Sabotage: O lado cultural da periferia é bem crítico, precário total. Se tem um livro que a criança quer ler é um livro escrito pelo pai dela. A gente tem que escrever um livro sobre o que a gente sofre, porque isso está tudo guardado na mente. A cultura também vem decorada.

Cineweb: Qual o papel do hip hop na periferia?
Sabotage: A música exige bastante atenção. O cara tem que saber o que vai tocar e como vai escrever uma música. Na periferia, qualquer acesso à informação é precário, mas todo dia nascem dez grupos de samba na favela. Eu entro em Heliópolis e vejo que o crime se organizou pra fazer quadras poliesportivas, creches, campo de futebol, parque. E a molecada ama os traficantes. Eles pagam para ter aulas de capoeira e dança. Eu queria ter estudo pra ensinar os outros a ler, escrever e entender as pessoas. A periferia precisa de psicólogos. Eu conheço um menino que viu o pai e a mãe serem assassinados quando ainda tinha 6 anos. Isso traumatiza. Gente do bem e do mal ouve rap. Alguns traficantes chegam pra mim e dizem: "Acho que a gente tem que pegar mais leve mesmo, a criançada escuta a gente dar tiro e vê os homens vindo atrás da gente". Minha música consegue fazer com que gente que não sabe nem ler, entenda.

Cineweb: Você canta para o pessoal da periferia, mas o rap tem um alcance muito maior. Os Racionais MC´s dizem não gostar de ver playboys nos shows deles. Como você vê isso?
Sabotage: Existe muita gente que pensa assim. A bossa nova tem o Roberto Carlos, a favela tem o Sabotage, os Racionais, o RZO como líderes. Esses grupos têm voz para ordenar um bairro inteiro, então eles têm que saber o que vão falar. Não adianta só falar branco com branco, preto com preto. Luther King lutou por todas as raças.

Cineweb: O filme ajuda a combater um pouco desse preconceito?
Sabotage: O pessoal do rap quer cair de cabeça no cinema e já abriu mão de falar que o rap não pode parar na televisão. Tem neguinho fazendo fila pra entrar no filme do Babenco. O Brown, por exemplo, tem muito preconceito pra quem tem uma mãe preta e um pai branco, que ele chama de bêbado filho da puta. Mas eu não acho que ele seja culpado disso. O Brown foi muito discriminado antes de cantar. Quando você não tem dinheiro pra comprar pão e leite, quando tem chacina na sua porta e só sobra um recém-nascido, tudo isso vai criando um ódio muito grande na sua cabeça.

Cineweb: O que você vai fazer na parte musical para o filme Estação Carandiru?
Sabotage: O Hector Babenco escreveu uma música chamada Sai da Frente que é muito boa. Ele me disse: "Tenho umas palavras aqui e queria que você fizesse uma música". Eu li e vi que a música já estava pronta. Vai ser a trilha sonora do filme.

Cineweb: Mas você também vai participar do filme, certo?
Sabotage: Faço parte do elenco principal, no papel do Fuinha, um cara que conheci.

Cineweb: E como é interpretar uma pessoa que você conheceu?
Sabotage: É meio pesado porque você sabe que não tem nada a ver com a pessoa. O Nego Preto, que é meu patrão no filme, é meu tio. Ele não é daquele jeito. Agora o ator tá conversando comigo e sabendo mais sobre ele.

Cineweb: O que o cinema mudou na sua vida?
Sabotage: É como se você tivesse uma espécie de vida cigana. Vai daqui pra lá, sem parar.

Cineweb - Porque você foi apelidado de Sabotage?
Sabotage - Quando eu ia pras festas, meu irmão que já morreu ficava preocupado e não queria que eu fosse. Eu ia escondido. Um dia ele descobriu e disse pra minha mãe: "Ele tá indo escondido, tá fazendo sabotage". Todo mundo gostou e o apelido pegou.

Fotos: Ana Vidotti/Cineweb
Cineweb - 05/04/2002