Cesar Cabral e o desafio de levar o universo de Angeli para o cinema
Nessa entrevista, o diretor da premiada animação Bob Cuspe – Nós não gostamos de gente fala sobre, entre outras coisas, o processo de adaptação dos quadrinhos e da complexidade de se fazer um filme em stop motion.
- Por Alysson Oliveira
- 10/11/2021
- Tempo de leitura 3 minutos

Versão em stop motion do cartunista Angeli, em crise artística, em Bob Cuspe - Nós não gostamos de gente (Créditos: Divulgação)
Não é de hoje a história do diretor Cesar Cabral com os personagens do cartunista Angeli. Em 2008, ele lançou o curta Dossiê Rebordosa, premiado em festivais como Gramado, Paulínia, Havana e também o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro para curta em animação. Após esse projeto, ele acabou ficando amigo do desenhista e desenvolveu uma série, Angeli, The Killer, e uma exposição. Por isso, chegar ao clássico personagem Bob Cuspe foi quase um caminho natural.
“Numa conversa, o Angeli me falou sobre o Bob, e que achava possível desenvolver uma história mais longa. A partir desse momento, comecei a pensar no filme e iniciei algumas entrevistas com ele, gravei cerca de 30 horas durante 2012 e 2016. As gravações alternavam entre entrevistas com uma equipe reduzida até momentos em que levei apenas um gravador e fiquei conversando com ele. Essa foi a base para a roteirização do filme”, diz o diretor em entrevista ao Cineweb.
Dessas conversas nasceu Bob Cuspe – Nós não gostamos de gente, uma combinação entre ficção e documentário protagonizada pelo famoso personagem punk dos anos de 1980, que agora se encontra perdido num deserto apocalíptico. Ao mesmo tempo, o longa traz uma parte documental, na qual o próprio Angeli fala sobre uma crise criativa que enfrenta. As duas narrativas, ambas em stop motion, se alternam e essa
foi uma ideia que acompanhou Cabral desde o começo. O filme fez sua estreia nacional na 45a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ficando entre os finalistas na votação do público.
foi uma ideia que acompanhou Cabral desde o começo. O filme fez sua estreia nacional na 45a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ficando entre os finalistas na votação do público.
A técnica de stop motion, diz o diretor, “tem um processo de produção muito próximo ao live action. O trabalho é desenvolvido de forma física, com maquetes, bonecos, sets de filmagem com câmera e equipamentos de luz. A grande diferença está no processo de filmagem, em que construímos fotograma a fotograma a ilusão de movimento. Para se ter uma ideia, em média produzíamos um minuto de animação por mês por set de filmagem. A produção completa do filme levou cerca de cinco anos.”
O roteiro, assinado pelo diretor e Leandro Maciel, é original, mas se mantém fiel ao espírito da obra e dos personagens de Angeli. “Considero que a base narrativa do filme está na parte documental, mas é nos seus personagens que nos aproximamos mais da sua obra. O tom, as características e o humor ficam mais explícitos na parte ficcional do filme.”
O longa fez sua estreia no prestigioso Festival de Annecy, na França, que exibe apenas animações, e saiu de lá com o prêmio Contrechamp, conferido ao melhor filme exibido fora de competição no evento. “Não tive a oportunidade de acompanhar presencialmente o festival por conta da pandemia, mas tive muitos feedbacks positivos de pessoas que não conheciam nada do universo de Angeli. “Por ter passado com a experiência anterior no curta
Dossiê Rê Bordosa,
que apesar de ter circulado bem por festivais internacionais, exigia uma contextualização pregressa da história, durante a produção de Bob Cuspe… procurei construir uma base que situa o espectador e aos poucos o envolve na personagem do ‘Angeli, O Velho Cartunista’. Creio que também pelo fato de ser um longa-metragem e o filme abordar um tema mais amplo, de um autor em crise com sua obra, permitiu que esses pontos fossem mais trabalhados.”
Dossiê Rê Bordosa,
que apesar de ter circulado bem por festivais internacionais, exigia uma contextualização pregressa da história, durante a produção de Bob Cuspe… procurei construir uma base que situa o espectador e aos poucos o envolve na personagem do ‘Angeli, O Velho Cartunista’. Creio que também pelo fato de ser um longa-metragem e o filme abordar um tema mais amplo, de um autor em crise com sua obra, permitiu que esses pontos fossem mais trabalhados.”
