Pelé, o protagonista insubstituível do futebol brasileiro
- Por Luiz Vita
- 25/06/2004
- Tempo de leitura 4 minutos
Texto e foto Entrevista com Pelé é um daqueles acontecimentos que podem ser inscritos no calendário de principais eventos do ano e deve fazer parte de qualquer retrospectiva. Quando não está carregando tocha olímpica, provocando Maradona ou atendendo aos inúmeros convites que recebe para palestras e homenagens em todo o mundo, consegue algum tempo para responder a perguntas de jornalistas, dar autógrafos para fãs (incluindo os muitos repórteres que o veneram) e abraçar desconhecidos para fotografias. No lançamento do documentário que pretende ser a obra definitiva sobre sua vida (mas não é), Pelé concedeu uma concorrida entrevista num dos maiores auditórios de um hotel paulista, reunindo críticos de cinema e repórteres esportivos dos principais jornais e emissoras de rádio do país, numa convivência curiosa e divertida. Todos receberam informações sobre o filme Pelé Eterno, mas o que centralizou as atenções foram as opiniões do Rei sobre futebol. E ele não se esquivou de nenhuma questão, sempre bem-humorado. Em alguns momentos se emocionou ao lembrar da infância de menino pobre, dos sacríficios de seu pai para que tivesse sucesso na carreira, e das homenagens que recebeu no Brasil e no exterior. É sempre curioso e divertido observá-lo referir-se a si próprio na terceira pessoa, como se fosse um personagem com o qual convive com grande prazer porque sabe que é idolatrado. O Pelé, esse personagem mítico, nas entrevistas do Rei do futebol está sempre viajando, se encontrando com reis, ajudando a parar guerras e marcando gols memoráveis. Foi esse personagem que mostrou o filme do diretor Aníbal Massaini Neto ao governador e a políticos de São Paulo, no Palácio do Morumbi, e às autoridades do Rio no Teatro Municipal local. E estava feliz por ter conseguido imortalizar no cinema sua atuação como protagonista insubstituível. "O pai do Aníbal [Aníbal Massaini Filho, um dos maiores produtores do cinema brasileiro] já havia me procurado para rodar um filme sobre o Pelé depois de ter vencido a Palma de Ouro com O Pagador de promessas. Mas nunca pensei que fosse vê-lo em vida, porque demorou muito para ser feito", brincou Pelé. De fato, o projeto quase avançou nos anos 1980, quando o jogador recebeu o título de Atleta do Século. O diretor já estava até escolhido: Jaime Monjardim. Mas o filme acabou adiado e só em 1999 pôde ser retomado pelo filho do velho produtor. "Sempre me surpreendi com o fascínio que a figura do Pelé exercia mesmo em pessoas que nunca o viram jogar", revelou. O produtor explica que a demora na conclusão do filme por causa do grande número de filmes e imagens originais encontradas em arquivos de pesquisadores em todo o mundo. "Sempre que achavámos que já tínhamos tudo, chegava algum filme de algum país, com imagens pouco conhecidas ou inéditas, e trabalhávamos para incluí-las no documentário", justifica Aníbal. Muitos filmes precisaram ser restaurados, mas com muito cuidado para não ficarem descaracterizados e perderem sua condição de documento histórico. "Recuperamos imagens que eram tidas como irrecuperáveis", comemora o produtor. Como o objeto de maior interesse eram as jogadas e os gols marcados pelo craque, essas cenas foram retiradas do filme e restauradas sem o fundo (as arquibancadas dos estádios, por exemplo) e reintroduzidas novamente com o fundo. "O que me assombrou no filme", conta o Rei, "foi ver o que o Pelé fez pelo povo brasileiro naquela época. Quando o Santos viajava para jogar em outro, nos perguntavam se no Brasil as cobras se espalhavam pelas ruas. Em 40 anos, não fiz nada que denegrisse a imagem do Brasil dentro e fora de campo." Uma das imagens mais marcantes do filme é o registro do primeiro gol feito por Pelé, num amistoso com o time do Vasco, no Rio, quando jogou com a camisa do time carioca. "Eu me surpreendi no filme com um crioulinho vestindo a camisa do Vasco e demorei para perceber que era eu", brinca. Pelé disse que chegou a treinar como goleiro reserva na seleção brasileira, mas que o filme não mostra as "belas defesas" que praticou. "Eu maltratei tantos goleiros e tive que sofrer com meu filho, o Edinho, que decidiu ser goleiro do Santos", brincou. O Rei, perguntado sobre a rivalidade com Maradona [na época da entrevista o craque argentino estava internado num hospital por causa de uma overdose de cocaína], disse que estava rezando para que seu rival se recuperasse logo. "Assim ele vai poder ver o filme na Argentina e tirar suas próprias conclusões" [sobre quem é o melhor jogador do mundo], se divertiu. Aníbal revela que, no início, não sabia qual era o público-alvo do filme, se o avô que viu Pelé jogar, o filho ou seu neto, que só conhece o jogador pelas imagens de TV. "Por isso optei por uma linguagem clássica e freei qualquer impulso mais arrojado ou de estilo, para não perder a abrangência do filme". Outro problema foi limitar o trabalho em duas horas de projeção. "Tivemos que abrir mão de muitas coisas saborosas", revela. Mas essas imagens não foram perdidas e integrarão o DVD e também uma minissérie para TV programada para 2006. Aníbal calcula que seu filme poderá vender 500 mil unidades quando for lançado em DVD, superando o recorde de padre Marcelo Rossi, Maria, Mãe do Filho de Deus. Cineweb-25/6/2004
